22 de dez de 2005

A ausência em todos nós


Para onde ir?, originally uploaded by bom_de_ver.

Uma imagem nunca será capaz de transmitir o alívio que ela estava sentindo. E podem chamar Milcho Manchevski.

Largou os cartões de natal em cima da mesa. Esqueceu o estabilizador ligado. Saiu descabelada pela casa, tropeçando nos brinquedos do caçula espalhados pela cozinha, com a gaiola do canário na mão. (Presente do homem lhe fazia gozar todos os dias por telefone.) Foi ao vizinho que lhe devia favores, pedir que cuidasse do seu filhinho, até seu retorno. "Eu sabia que aquele velho branco, gordo, peludo e barbudo algum dia me seria útil."

Ela estava em êxtase, sob efeito da espera dos últimos onze meses. (Ele soube induzi-la). Um comprimido, um gole d'água; mais um, outro gole; o último e pegou uma banana na fruteira. Comer uma fruta, lhe traria a certeza de que os comprimidos chegariam ao estômago. Foi ao banheiro da empregada e jogou suas cartelas de esperança no vaso. "Adeus, balinhas. Feliz Natal para vocês também. Deu descarga. "Nunca mais nos veremos." Olhou-se espelho, ajeitou a franja. "Já pensou em ser morena?" Passou pela cozinha, sem se comover com as louças ensaboadas, que ainda lhe aguardavam. Arrumou tudo de qualquer maneira e se despediu do escorredor de pratos, mandando beijo. Feliz Natal, meu amor! Para você também, phalaenopsis, Feliz Natal! (Regou a orquídea por desencargo de consciência). Boas Festas, Geladeira! Felicidades, Seu Fogão! Olhe lá hein, Dona Pia, não exagere na gordura; se despeça do tanque por mim. Foi fazer as malas.

No Rádio Táxi, demoravam a atender. "Alô? Bom dia! Por favor, eu gostaria de falar com o Ramirez." Olhou para o guarda-roupa. Franziu as sobrancelhas. Levaria apenas o chinelinho preto. (Outro presente do amante que ela só conhecia por fotos, voz e webcam). Pegou estojo de maquiagem (motivo de tantas brigas) e o colocou debaixo do travesseiro da cama da irmã. "Não vou mais precisar disso." Desistiu de levar mala. "Nem valise." O charme seria desembarcar sem nenhuma bagagem, além da edição de luxo, em original, D' El Ingenioso Hidalgo de Don Quijote de la Mancha. (Presente de quem? A não ser do homem que conhecia seus sonhos, seus segredos, suas pretensões.) "Ele me apoia." É por você que estou lutando contra esses moinhos-de-ventos. -- dizia a dedicatória escrita atrás da fotografia. Cheirou a contra-capa como se fosse o pescoço dele. Respirou fundo. Acreditava que não bastava ser bonita, gostosa, sedutora e elegante. Tinha que ser culta, mesmo que não fosse inteligente. Abraçou-se com o livro.

Banho tomado. Cabelos presos. Saiu apressada em direção ao local combinado com o amigo taxista. Se trancara a casa, não se lembraria. Pensava apenas em embarcar, na confirmação do check-in. Enquanto aguardava, em pé, em frente a agência bancária, tirou da bolsa o caderninho de capa de couro de búfalo e escreveu: "22 de dezembro de 2005." Lembrou-se imediatamente da avó; do velório, dos crisântemos brancos, da vontade de se jogar na poça de lama, da rama de philodendron, que quase foi esquecida. "Dona Virgínia, não se orgulharia de mim." Escreveu alguns versos com letra miúda, trêmula, ágil Fechou o caderno, sem ainda guardá-lo na bolsa. "Vou fazê-lo vir me buscar." Tarde demais. O táxi freara a poucos centímetros dela: "Oi, Gostosa!" Ela teve certeza que deveria abandonar aquela vida. Entrou no táxi, pediu que a levasse ao aeroporto. Contou-lhe a novidade.

Ofegava, se confundia, trocava data e lugares. Ele apenas balançava a cabeça: "Você, é doida, gata!" Mostrou-lhe as passagens para provar-lhe o que estava dizendo. Ele estacionou no acostamento. Pisca-alerta ligado. "Vai ter coragem de deixar a gente?" Ela prometera escrever todos os dias, sem censura ou vergonha. Enviaria-lhe fotografias nas quais ela estaria mergulhando num mar de recifes azuis. Ele pigarreou. "Se você nunca deixou-se fotografar, porque faria agora?" Ela estava quase arrependida de tê-lo chamado, quando ele contornou o balão do aeroporto. Ao estacionarem no desembarque, ele ainda lhe perguntou: "Vai mesmo?" Ela não lhe respondeu, preferiu beijar-lhe. Um longo, melado, profundo, beijo de língua, enquanto acariciava-lhe o zíper da calça de brin bege. "Quando você volta?" Ela já estava longe. "Antes do dia quinze", gritou, "Feliz Natal!" Por ela, poderia ser nunca mais. Rebolando mais do que de costume, encaminhou-se a balcão de atendimento. A moça pediu que se apressasse. Todos já haviam embarcado. Nem ouviu a atendente desejar-lhe boas festas.

21 de dez de 2005

Os clientes se espremendo até serem atendidos e o conselheiro se recusando a falar português. Não foi difícil anotar seu pedido, sou até capaz de dizer de qual região da França ele seria. Difícil foi responder às várias perguntas em francês. Na próxima vez que eu encontrá-lo na sauna, vou chamar-lhe a atenção. Boas Festas!

20 de dez de 2005

Serenidade, Distanciamento e Boas Festas!


Moth Orchid, originally uploaded by dallsoppuk.


Felizes sãos as lesminhas a comer os brotos das phalaenopsis. Marcinho, você viu o lesmicida? Não. Deve está debaixo do tanque. Elas não tem que se preocupar com compras, pisca-piscas, presentes, cartões de Natal, Ceia, convidados, recepção, contas a pagar, insolvência. Na noite do dia 24, após a Missa do Galo, na Santo Antônio, vou me misturar aos convivas, ao voltar para casa; provarei da salada de alface americana, broto de alfafa, capuchinha e tomate-cereja (tudo sem vinagre, sal ou azeite para não tirar da boca o gosto distante da hóstia consagrada); mortificar a carne, ouvindo histórias de excessos, olhares de intimidação. (A polícia sabe torturar mesmo quando em traje de gala.) Talvez seja uma noite agradável na qual se fará amor no quarto do filho do meio dos anfitriões.

Ele estava ansioso, compreensível. Eu continuava a sustentar a mentira. Mais da metade dos muitos presentes debaixo da árvore destinava-se a ele. Num ato de generosidade, abriu o guarda-roupa e me disse: Pode escolher o que você quiser, -- para alguns segundos depois, concluir: se você não for cuspir. Contive minha vontade de empurrá-lo contra o guarda-roupa, não por ele ser mais forte do que eu, mas por ter testemunhado o quanto ele poderia ser covarde.

Com o peito arfando, colei-me ao seu corpo (tentativa desesperada de mostrar-lhe que era amor), ignorando o receio de mais uma vez ser afastado. Nenhuma palavra, nenhum gesto. Apenas o fluxo da corrente sangüínea a denunciar seu desejo. Minha boca embebida do ar da sua respiração, aguardava seu consentimento. Minha imagem invertida na sua pupila, me dizia: não se atreva. Faça o que lhe pedi. Não inventa moda. Se ao menos ele desviasse o olhar, poderíamos voltar ao jogo, terminar a partida, destrancar a porta. Mas preferia fitar-me tal qual um cão de rua em posição de briga. Ele queria que eu avançasse, para ter o prazer de se afastar. Eu queria não ter acompanhado meu pai, na véspera de Natal. Situação semelhante em que me encontro agora. Talvez seja essa a causa da minha má vontade em relação a tudo e a todos. Não posso fazer disso um drama.

Atualizado (18:40): Enquanto me dirigia à biblioteca, agora à tarde, estalou-me uma idéia: onde eu tenho buscado segurança e refúgio? Ora, na Literatura consagrada. Portanto, guri, não fuja de teste.

Oficina Poética no Portal Literal ou O Dom de Fluir

Todos os dias, acessava o Portal Literal, para ver se já havia começado a oficina desse ano. Que surpresa! Poesia. Sinto medo e vergonha -- como estou cansado de repetir aqui para o DiCla e vocês, meus estimados leitores, enjoados de saberem. Será que um leitor de Homero, Dante e Lorca não conseguiria, sem naufragar, escrever um versinhos atrevidos ? (Ler não significa estudar.) Talvez me falte mesmo uma musa, uma forte razão que me faça saltar do trambolim sem ter recebido treinamento . Se eu cair sem jeito, já era. Coragem! Faz de conta, pirlimpimpim, que eu sou (de novo?) o soldado Rostov a combater os franceses (no nosso caso, as palavras) sob o olhar auspicioso do Imperador Alexandre I. Ainda não sei como termina aquela história, mas a nossa pretendo que tenha um final coerente. Mãos à obra.

19 de dez de 2005

---------- Forwarded message ----------
From: Márcio
Date: 19/12/2005 13:17
Subject: Nothing compares to you. Lembra-se? (versão revista)
To: Beatriz Vilazanti

Sugar,
Oi! Sou eu. Escrever-lhe, hoje, tornou-se minha prioridade. Custei a tomar coragem. Os meses nos atropelam e depois ficamos com vergonha dos amigos por se manter tanto tempo afastado daqueles cujas lembranças sempre nos alegra.

Dias desses... minto, em julho, estava lendo "Cem Anos de Solidão" quando me lembrei de você me falando do trecho das formigas carregando um Buendía. Caramba! Onde elas estão? Lia, lia, lia e nada das tais formigas aparecerem. Será que era um detalhe irrevelevante?

Vi borboletas, bananeiras, toceiras de begônias, participei de expedições, de guerras, chorei, ri, praguejei, a ponto de me esquecer delas, jamais de você. Preciso escrever para Vila, preciso escrever para Vila. Para contar-lhe que me mudara para Macondo (como se me fosse possível).

Surpreendentemente, elas surgiram, minúsculas, avermelhadas, uma porção delas, saindo por várias frestas, subindo por todos os cantos, frustando os amantes, carregando o nenen. Demorei acreditar. O Gabo construíra um castelo de cartas (como baralho me fascina) e puxara aquela que servira de alicerce para as outras.

Desmoronei junto. E nada me aliviava do choque de realidade que a ficção me causara.
Refeito, voltei ao cotidiano. Peitar a Dona Relidade, pode ser divertido, descobri. Mas sem ficção estava desconfortável. Busquei, então, acalento com quem poderia me ajudar: primeiro Dostoievski, depois Clarice, em seguida, Lobo Antunes, Joyce, Oscar Wilde, Homero, Fernando Pessoa, Dante Aliglieri, Samuel Rawet, (quem mais me serviu de escora este ano?) Tolstói, Sófocles, Lorca, alguns teóricos enfadonhos e outros romancistas desgastados pela publicidade que dispensam citação.

Nem sei como consegui, entre faxes, e-mails, telefones e clientes, (Sim. Continuo aqui na loja.) acompanhar histórias tão distintas. Às vezes, me sentia tal qual uma abelha perdida no Jardim do Éden, noutras, um solista desafinando no ensaio aberto do coro sinfônico, ou ainda, um submarino emergindo no espaço marítimo de outras nações sem permissão. Entretanto, percebi que tal busca me ajudava a ser persuasivo com clientes, quaisquer que fossem. Corre até o boato que me tornei empresário do ramo de flores. Mentira. Nego e renego peremptoriamente. (Nós, brasilienses, principalmente os candangos, adoramos promover intrigas.)Posso ter fechado vultosos contratos. Recebido muitas cantatas. Recusado presentes e favores. Nem assim. Flores são negócios da família, nunca foi o meu. Você bem sabe.

É óbvio que o hábito de fazer a loja de sala de leitura tem me gerado conflitos, causado aborrecimentos. Contudo, minha vontade tem prevalecido, visto ver sincera. Não se preocupe. Estou bem. Comércio pode ser um bom lugar para colecionar tipos: ora bizarros, alguns hilários, outros taciturnos, ou ainda, dissimulados (meus preferidos).

É para um tipo assim, que prepararei o arranjo que estou lhe enviando. Gostaria que fosse como antes, flores para alegrar ainda mais sua noite de natal. Paciência. Vou imaginar que seja, escrevendo um conto inspirado na sua emoção ao receber flores de um amigo que há muito tempo não recebia notícias. Conseguir, não sei se vou. Caso consiga, receberá em breve, carta minha.

Está escutando ? ... Jingles all the way... Preciso ir. Não posso mais.

Beijos de boas festas!

Marcinho


P.S.: Enquanto lhe escrevia este, enviei-lhe, acidentalmente, uma cópia incompleta, sem revisão, em parágrafo único. Desconsidere, por favor. Isso que nos acontece quando teimamos em escrever no local de trabalho. Beijos!

16 de dez de 2005

Tâmaras, damascos, nozes e avelã

Estava lendo a entrevista do astronauta Marcos Pontes (eu pularia a apresentação em flash), quanto meu eixo foi deslocado: "Nessa atividade, aprendemos a conviver com nós mesmos." Ele se referia a solidão que provavelmente sentiria na Estação Espacial Internacional. Creio que solidão seria uma dor crônica, para qual não haveria morfina suficiente no mundo para aliviar. A enxurrada arrancando o asfalto, arrastando pessoas, galhos, lixo e minha esperança de um Natal menos gigolô possível. Quem sabe Papai Noel resolve entregar, na noite do dia 24, meu presente atrasado de muitos natais. Podia ser aquele senhor que está lá fora fumando, segurando uma latinha de cerveja, cujo o charme estimula nossa libido nessa madrugada de 15° C. Atípica. Gordinho, alto. Cabelo curto, grisalho. De sobretudo preto. Meu muro de Berlin... melhor, minha muralha da China. Estamos a uns 20 metros de distância, separados por uma porta de vidro. Ele entrou na pajero. Foi se embora. De tanto olhá-lo, enquanto conversava com um jovem rapaz, provavelmente seu funcionário, passou a me encarar. Marrento. Desviei a mira lasciva e me concentrei nos índices pluviométricos de ontem à tarde, quando Dona Chuva resolveu inundar o hall de entrada da casa dos nossos excelentíssimos senhores senadores... Não vou passar a véspera da noite de Natal aguardando atendimento no Pronto-Socorro do HRAN. A dor é suportável. Consigo rir quando me perguntam o que é um pontinho preto pendurando numa árvore. Consigo falar, andar e comer; sozinho. Só não consigo perdoar. Que o telefone toque ad infinitum!
P.S.: Minhas queridas leitoras e meus estimados leitores, desculpem-me se tenho estado ausente. Não respondo mais e-mails, tampouco comentários. Conecto-me ao MSN somente para sanar dúvidas urgentes. Não navego em seus respectivos weblogs. Sei que não se justifica, pois quando a gente quer de coração, encontra-se tempo. Mas tenho me desdobrado em muitos (Ora! Todos estamos muito ocupados.) tal qual a Grace de Dogville. Lembram-se quando escrevi uma crônica sobre a comoção que este filme me causou? Pois é! Ontem, ao sair do consultório, com a boca inchada, agradecido ao Doutor Cirurgião, me lembrei da Grace. Dela correndo para lá e para cá, preocupada em agradar a todos, em ser eficiente, sem opções, a não ser servir. Grace sou eu. E só agora me dei conta disso.

13 de dez de 2005

Vou aumentar a dosagem da medicação, para ver o que acontece com o meu humor.

9 de dez de 2005

8 de dez de 2005

Bem próximo de nós


Campo, originally uploaded by ludzorzi.

Uma confissão de amor: um pau de arara desativado, atrás do Complexo Penitenciário da Papuda ( a uns 20 Km da Praça dos Três Poderes). Não era nada do que eu imaginava. Fiquei desapontado, assumo.
-- Então, vamos?
-- Você me fez trazê-lo aqui para quê? Curte o pôr-do-sol.

No horizonte, chamava-me atenção a chuva bem delimitada. Sentia ânsia de vômito. As barras da minha calça infestada de sementes de bidens pilosa me incomodavam. Não vou mais a restaurante nenhum. Vamos embora, não estou me sentindo bem. Imagens de Auschwitz me vieram à mente. Não deveria ter assistido ao documentário.

6 de dez de 2005

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Roberto Benigni: entrevista na ISTOÉ

ISTOÉ – A sátira política é dos seus gêneros prediletos. Qual é a sua opinião sobre a política?
Benigni – Como disse o jornalista Eugenio Scalfari, “a sátira é contra o poder, caso contrário não é sátira”. Porém, algumas personalidades atraem mais que outras. Por exemplo, Berlusconi (primeiro-ministro italiano). Mesmo se ele não tivesse tanto poder, seria satirizado porque ele atrai os cômicos. A sátira é a democracia que chicoteia a si mesma. Não sei fazer teorias sobre a sátira, talvez Dario Fo possa fazer melhor do que eu. O prazer de fazer rir é como o leite materno. Imagine que eu estou mamando aquele néctar... Eu não paro para pensar. Vou ficar olhando e pensando no sabor do peito? OK, eu sei que o seio não é o órgão mais apto para eu me explicar. (grifo nosso)

5 de dez de 2005

Sorvete de pétalas rosa-menina, cobertura de espinhos


Snow and Flowers, originally uploaded by destinatio.

Disse-lhe que minha flor predileta era tulipa. Desapontado disfarçou o sorriso. Bobo. Desdenho todo o amor por mim.

2 de dez de 2005

E saíram à caça


Caça de Combate, originally uploaded by joabe_brill.

Quando vi o Ten. Coronel atravessando a rua, em direção à loja, minimizei a caixa de entrada do outlook e sai imediatamente do campo de visão dele. Contive o sorriso. Pensei em beber água. Não dava mais tempo. Ele já havia entrado na loja. Esperar ele não podia. Estendera-me a mão, sem esperar minha defesa. A sauna, na cabine. A boate, na dark room. O estacionamento, no motel. Disfarçar que não o conhecia era fácil, difícil foi fingir que havia sido apenas sexo avulso de tão casual. Vamos fazer tudo de nova, mas dessa vez diferente? Anotei seu pedido sem compreender claramente o que ele dizia. A letra antes legível, rabisco. Mostrei-lhe as anotações para que ele conferisse a encomenda. Falhas seriam punidas com cadeia. Diante do meu nevorsismo, ele se confundiu. Jantar formal? Não sei. Acho que sim. Com certeza. Perguntado sobre as cores e as flores: Confio no seu bom gosto. Comecei a explicar-lhe como seriam os arranjos: Está ótimo! Perfeito! Ele poderia ter-me dito: calma. Não tenho pressa. Mas preferiu reclamar da dor de cabeça: estou sem almoçar até agora. (Já se passava das quatro horas.) Ele ainda se lembra de julho. Gostaria que tivesse esquecido.

Embora o test-drive na esquina dos beijos amanteigados, lamentasse todas as fossas enterradas em pedras de gelo, resistimos às água de coco-verde deflorada nas costas. Que costume bizarro misturar sexo com comida! Terça-feira da semana passada. Hoje, choverá diferente. Me sufoca, me bate, me espanca. Sou sua flor em botão. Ele acreditou. E ele acreditou. Insensato. Irresponsável. Por mais que nos esforcemos, o travesseiro ronrona à noite. Não dói, porque o cansaço não deixa. O sorriso banguela causava tristeza à vizinha da casa da fachada verde. Detalhe importante para um dente de siso. Ela estende as fronhas quando nos preparamos para partir. Agora é tarde, princesa, depois te conto. Suspiros de leve atenuaria nossos olhares d-e-s-c-o-n-f-i-a-d-í-s-s-i-m-o-s. Não consigo. Não dá liga. Ele chegou à quinze minutos. Me acena lá de fora. Já pedi que não viesse me buscar no serviço. Disfarço. Passo a mão no cabelo, finjo que estou ao telefone. Estou vulnerável. Do estacionamento, pode-se me ver movimentando dentro da loja. Se fosse o sniper... Ele está sendo inconveniente. Ascendeu um cigarro. Está decidido a me esperar. Test-drive no barracão da obra. Já me arrependi de tê-lo beijado. Cofiou a barba grisalha. Fuma tranqüilhamente como se estivesse acabado de gozar em cima de mim (sonha!) e eu aflito, arrependido, com vontade de me dar um tiro. Ele nem é tão bonito assim, nem tão gostoso assim. Eu era apenas a vontade de enlouquecê-lo de desejo. Brincar de beijar na boca. Tê-lo de joelhos, a me mordiscar os artelhos. Só de cueca na cama, a procurar estrelas no céu da boca com a ponta dos dedos molhados na vodka. E eu a negar-lhe a saciedade. Quero te ver de cueca branca, da próxima vez. Ele balbuciou latidos roucos. Se você quiser posso chamar uma amiga. Enfermeira do HFA. Há! Há! Há! A fantasia de todos nós. A classe que nos perdoe. Disse-lhe que bastava, nós dois. Queria um relacionamente fechado. Esse foi o meu erro. Ele vai investir numa instituição falida. Vai perder dinheiro.

Duração do efeito da cocaína

Euforia
Alforria
Eu iria
Se não fosse mais baixo.

1 de dez de 2005

Chuva de Ouro


Mais um céu =P, originally uploaded by Érica_Roll.

Vou aguardar os apagadores me ensinarem a interpretar a sinfonia das poças de lama. O irascível problemático agente da ordem me cumprimentou. Estou feliz. Três a zero. Não soube eu prolongar o prazer. Sou estúpido, quando lírico. Paulistano doente por uma perfumada carreira de salmão, ele me convidara novamente para plotar a Avenida Paulista. Garoto arisco. Minha fama chegou a Beijing. Coração despetalado. Agressões verbais. Não escolho signos lingüisticos para externalizar a cólera que se alimenta do meu fígado. Nunca imaginei que seria capaz de dizer-lhe não. Quiçá... Não. Por atrás dessas nuvens, poderíamos acompanhar o suicídio do Sol. Ele se sensibilizou. Meu cinismo me assusta, mas é assim mesmo. É só tomar cuidado para não queimar as mãos. Vamos tomar uns gorós? Naquele boteco, onde há mais homens lindos que cerveja gelada? Fitei-lhe os olhos e murmurei uma desculpa qualquer. O agente se inquietou, estendeu-me a mão e falou num idioma que me surpreendeu: por favor. Óculos escuros resolverão o problema. Está fazendo um ano, amor. Estávamos distribuindo preservativos no setor hoteleiro e você fletando com as recepcionistas, só para me ver espumando. Por mim, ele morreria sem me conhecer novamente, estava eu mudado. Senti falta da sua boca me mordiscando a orelha, me repuxando o lábio inferior. Agora, pretendia me esconder atrás da comitiva de ursos brancos vestidos de ternos escuros. Promovo um bacanal, se você quiser, me dissera. Promessas perderão a validade quando chegarmos à Praça dos Três Poderes. Abelha perdida. Lábios ainda inchados. Além do mais, fantasia nos pêlos do joelho significam sonhos decifrados. Tão difícil de entender, não? Respirei fundo e me soltei do abraço que me acalmava. Queria um namorado, não um amante. Beijei-lhe com carinho, procurando o amor que ele trazia preso na garganta. Poderia fazer essa experiência, ir embora para São Paulo, até a aflição ceder, o desejo por mim esmaecer, mas ele não estava sendo convincente. Feliz Natal! -- lhe disse ao me despedir. Ele baixou a cabeça. E até agora não me respondeu os e-mails.