28 de jun. de 2004

Mais nervoso que os candidados a andar de pé virado eu lamentava. Na academia se aprende a ler e escrever em mandarim, por que em hindi, supõem-se, que já se saiba. No restaurante vegetariano será preciso distinguir artelhos de grilo de tortas de bananas nanica e a fumaça que sair da sala ao lado, não será necessariamente de carburador envenenado. Uma pausa por um pouco de privacidade.

Minha prima achou que eu seria mais revelador na carta. O que ela quer saber, afinal? Ela não entenderá que felação é um esporte que pratico sem as mãos. E deixo que as nuvens entremeiem minha nuca, minhas costas, meu dorso. Permito que meus dedos calmamente deslizem pelo teclado projetado. Os pedaços me chamam de volta, eles me clamam numa amálgama amarela. Lençóis que ontem me serviram, hoje me amarram para que eu cumpra licenciosamente meu papel de concubina. Observo a nota de vinte dólares esquecida debaixo da cama, rezando para que o Novidade não a veja. É mais que um suco de graviola. Meu rascunho de hoje sem elogios.

Copos ensebados emborcados numa bacia de vinho tinto seco é a única coisa que transpiro. Era eu um australoptecus recheado para o almoço, tendo que responder ao Novidade por onde andaria o Corno. Eu ri obrigado, perguntei-lhe por quantos tempo eles permaneceriam no morro. Ouvi um depende que não me convenceu de nada e o barulho da taça se espatifando no chão. Fez-se uma poça de vinho, que muito bem podia de sangue.

26 de jun. de 2004

Mude

Mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde
você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.
Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia,
ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama...
depois, procure dormir em outras camas.
Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais...
leia outros livros,
Viva outros romances!
Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.
Tente o novo todo dia.
o novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.
a nova vida.
Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.
Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado,
outra marca de sabonete,
outro creme dental...
tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.
Troque de bolsa,
de carteira,
de malas,
troque de carro,
compre novos óculos,
escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros,
outros teatros,
visite novos museus.
Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só.
Arrume um outro emprego,
uma nova ocupação,
um trabalho mais light,
mais prazeroso,
mais digno,
mais humano.

Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as
.

Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
Só o que está morto não muda!

Edson Marques

25 de jun. de 2004

      O maleiro é pequeno para guardar minhas malas vazias. Vamos ter que comprar um guarda-roupa novo. Essa é minha única preocupação agora. Posso permanecer, traqüilamente, deitado na cama sem pensar em me levantar. Jogo as cobertas longe e me entrego às minhas obrigações. Pego o livro (que está nesse momento confortavelmente descansando no meu colo) e vou até o computador responder minha correspondência. O Naz me dissera que resolveria meus medos com um simples telefonema. E não é que resolveu? Não tenho uma janela com vista para o mar, conforme me prometera. Em compensação, ele tem vindo almoçar comigo todos os dias. Sou um homem feliz, tomado por um medo de estar vivendo o dia seguinte do final de um conto-de-fadas. Vou preparar lasanha com brócolis para gente. Será que vinho tinto seco combina com massa? Depois penso nisso, deixa eu fazer uma pesquisa no Google.

18 de jun. de 2004

Dicla?! És tu? O que aconteceu contigo? Às vezes, quase sempre, não te reconheço nas tuas entranhas. Hoje de madrugada, por exemplo, passei por ti e nem percebi que estavas mais robusto, com pele de quem toma suco de brócolis com levedo todos os dias antes de ir para a escola. Era um sonho. Avenida larga com muitos carros apressados e outros diaristas tentando atravessá-la. Do outro lado da pista, bem longe, acenavas para mim, entusiadamente, como se nós nos falássemos todos os dias. Então, acordei, mas continuei no sonho e ao meu lado o Naz ressonava, melodia para os meus olhos. Levantei-me para enxagüar a boca e o que se seguiu, me dou o direito de me censurar, por enquanto.
"Eu sempre escolhi o caminho mais difícil, desde que fosse a que me permitisse dormir à noite."
Maria Rita Mariano

16 de jun. de 2004



Sou extremamente cético em relação à celebrações. Vou tentar, eu disse tentar, incorporar o Stephen Dedalus e prestar muita atenção em tudo que será lido e comentado. Meu bloquinho de anotação vai junto, ele sempre me é fiel; muito diferente de uns-e-outros que jura me amar. Puta-que-los-pari!... Eu tinha que me lembrar do canalha. Um dia tão joyceano de muita névoa fria e úmida e eu me lembrando de uns olhos esverdeados semi-escondidos sob pálpebras inchadas. Balaclava nenhuma deveria ter sido usada para abafar o som das palavras. Que dificuldade a dele para dizer claramente eu-te-amo.

Enquanto tento arrancar esse post do teclado, meu pai -- que está lendo o jornal-- me diz que os gays são 10% da população na capital federal . Ok, paizinho! -"E os bissexuais? E o pessoal da Marinha? E os do Itamaraty? Sem contar os enrrustidos?" alertei-lhe. Se for feito um levantamento sério, chega-se a 50% da população. Eu não disse isso, só pensei. Mas não quero pensar em levantamentos estatísticos hoje, não hoje. A galera vai ter um Dedalus bem-humorado. Finíssimo nas palavras. Espero que percebam.

Mudando de assunto antes de partir, ontem os tambores do Olodum estiveram no campus da UnB. Nem vi, pois, alguém nesse país, ou melhor, cinco alguens tinham que apresentar um seminário sobre conservação de recursos hídricos. Quanto a isso, nada demais. Transparências, datashow... epa! Minimizar! Tem gente me rondando.

Fui no site do Inpe só para disfarçar e acabo de saber que hoje fez 13ºC. 13°C! E eu dormindo sozinho. Eu ainda mato o safado. Mato à facada, dessas de cortar pão. Vai ser um pouquinho complicado, mas extremamente prazeroso vê-lo assustado com a faquinha serrando a pontinha do calcanhar. Ninguém vai sentir falta de um torturador no armário. É o que não acredito. Mas tarde eu volto para revisar-te, texto, minha carona chegou.

15 de jun. de 2004

Três casacos de lã não conseguem me aquecer. Na realidade, o que está me trincando é a ausência de um mísero telefonena; um mísero telefonema dizendo: "-Oi, amor! Chateado comigo?" Claro que estou, mas ao ouvir as cordas baixo vibrarem, esqueço tudinho. E volto a ser aquele menino feliz que trocava os "b" por "v" sem nem se dar conta que viria se se tornar um pedante de calcanhares virados. Percebo um sujeito mal posicionado me fotografando enquanto revolvo o gramado.

Desconfio que seja alguém do Fornazze, para descobrir que não se tratava nada disso. Era apenas um alemão a fotografar o cotidiano de um anônimo. Daqui a pouco estarei no Teatro Nacional, ou melhor, minha imagem será exposta juntamente com mais centemas de imagens forradas de banalidades. Espero que meu coração deformado não espante os visitantes.

A Maria Beatriz não entende, quando explico que a distância mantem os corações deformados de tão esquecidos. Ela ri e chora e ri mais ainda. Não consegue controlar as gargalhadas que mais parecem uma convulsão. E me pergunta a quantas anda os contatos com as editoras. (Se eu soubesse que o bolo de chocolate teria esse gosto, não teria aceitado o convite.) Expliquei-lhe (como se ela não soubesse) como elas se comportavam, pepepê, pepepê, papapá.

Minha amiga, refeita em seriedade, me sugeriu uma editora caseira, que eu bancasse uma pequena tiragem e distribuísse aos amigos mais próximos. Eu não estava ali para trocar amenidades. De pequenos, me bastam os meus pés. Nunca me preocupei em publicar, até porque estou muito satisfeito com o vir-a-ser do ciberespaço. Continuo depois, está muito frio aqui e o café já está sendo servido.

P.S.: Tenho vontade de cortar metade do que escrevi, mas esse texto não mais me pertence. Nunca me pertenceu.

14 de jun. de 2004

Tu te lembras do Big Brother 4? Do tanto que os participantes e o público criticava a canditada Solange? Eu ficava angustiado por que não tinha argumentos para defendê-la. Não que ela precisasse da minha defesa. Mas eu sabia que deboche contra o forma que ela se falava estava recheado de ignorância. Pois bem, como havia dito Prima Justina à Capitu: "Não precisa correr tanto; o que tiver de ser seu às mãos lhe há de ir". E veio à minha. "Preconceito Lingüístico:
O que é? Como se faz?" Loyola, 2003, 27ª! Edição
.

As palavras do professor Bagno me serviram de luva, apertada, mas luva:
"Eu confesso que sinto muito prazer ao ler (ou ouvir) um texto cheio de 'erros de português' -- mas com idéias originais, inovadoras, coerentes, bem expressas --, um texto isento de preconceitos e de idéias rançosas, com todas as regências cultas respeitadas, todas as concordâncias verbais e nominais, mas repleto de intolerância, de deboche, de sarcasmo, de concepções degradantes e por aí a afora."

E pensar que eu estou sendo pago para resenhá-lo. Trabalhos assim, eu faço de graça; sem perceber que já era domingo e o telefone se negara a tocar para mim.








10 de jun. de 2004

Corpus Christi na Catebral do Niemeyer: amanhã, encontrar-te-ei lá (e não quero ciumera!).

9 de jun. de 2004

-- "A Lu não pode ser Lu, porque eu já tenho a minha Lu." (frase proferida depois do tombo.) Esses D410 são uma porcaria!
O pé da mesa quebrou. Ele chorou como se fosse a primeira vez.
Diário de um Detento (Não é que existe o tal diário mesmo! Sabia que o Rapper não era autor daquelas frases.)
Obras de arte no salão do Min. da Marinha: encontrar-nos-emos mais tarde.
Com o objetivo de manter a pudicidade de uma conhecida, vizinha desconhecida até então, omiti uma frase na mensagem anterior. Tornei-me, assim, no imaginário cibernético, um fedido fio-dental que sai de uma boca brocada de cáries profundas. Esquecer o cheiro salgado que paira sobre a mata ciliar do Jardim Botânico me provaca alucinações. Tinha ou não, ela, três mamilos? Odeio me fazer de macho; tenho a absoluta sensação de fazer tudo errado. Nem as cores das rosas que agora lha envio sou capaz de escolher.

8 de jun. de 2004

Só há uma coisa mais desestimulante do que perder um post. Falta de banho. Vou agradecer ao acaso, se a situação piorar.

7 de jun. de 2004

Eu havia desistido da noite de sábado. Mas fui salvo pela minha mania: Provocações ->EdmarLux -->Desafiat

Decidido, abri o portão. A madrasta me servirá de personagem. Vagarosamente o Vectra saiu. A porta do passageiro aberta. Encaixo-a com precisão, quase com carinho, sem precisar batê-la. Minhas cicatrizes se coçando como se quisessem me alertar para a multiplicação do vírus. É gripe, disse, após espirrar. Resfriado, vim saber mais tarde. Mas isso não importa. Ontem, antes de te atualizar, Dicla, (como podes ver, o que acabou não ocorrendo) fui buscar inspiração na minha correspondência... Não sei quem telefonou para a Adriana (vou matar o filho-da-puta, quando descobrir). Várias mensagens vindas dela para me fazer mostrar os dentes; sinceros. Ela sempre os quis assim. Convites e promessas que nunca se concretizarão, porque não se realizaram quando nos almoçávamos com as mãos. Imagens e poemas através do MSN. (Foi uma tortura fazê-la dizer qual era o site.) Diante tanta atenção, esqueci-me de agradecê-la. Bobagem, me diria, pessoalmente. É verdade! Dispensamos essas formalidades babacas. Para constar: ela salvou minha semana. Por isso a amo de um jeito que só ela gosta. Agora, sou um coelhinho a manter uma leoa dentro da minha toca. Felina disfarçada de madrinha. Fada destituída de poderes. Minha Catherine Zeta-Jones... o luar nunca foi suficiente para ela.

4 de jun. de 2004

A Doutora me pediu que fizesse os exames, para ao menos saber como eu estava. Se eu iria tratar ou não, era uma decisão pessoal minha, que ela muito respeitava. Enquanto ela me confundia com terminologias para lá de técnicas, imaginei uma lágrima escorrendo do rosto da auxilar de enfermagem que nos acompanhava. Era uma parafina louça de tão alva de lisa. Abastecido, zarpei; tranqüilo, diferente de três anos atrás.
Klick Escritores (profissionais a explicar porque escrevem.)

Academia Brasileira de Letras (outros a acompanhar a modernidade.)
O sanduíche de ovo me desceu saboroso ao ouvir o discurso do presidente do Supremo. Me parece que o Monte Olimpo vai, ao menos, tremer. Saí do gabinete tropeçando nos papéis de bombom distribuídos na noite passada. Eu tinha presa, o seminário já começara. Não sei porquê usar transparências em tempos de data show.

3 de jun. de 2004

A Tatah me dissera que a seco eu não conseguiria. Fui consultar o Otton. Ele me explicara que o tempo gasto não conpensaria o esforço. Será preciso de outra fórmula para fugir de casa? A terapia familiar mostrou-se improdutivo. A Mah correra ao ouvir minha voz. Mesmo assim me pronunciei: -- Eu sinto que só o fato de eu estar aqui te incomanda. -- disse à ela que se retirou, furiosa, da cozinha, indo diretamente para o seu quarto, sem concordar ou discordar da minha conclusão. A Pesinho me alertara que eu não precisava ser tão dramático. Mas ela não deu razão à Mãe, nem a mim. Enquanto lavava a louça, ela me olhava como sem querer. Será que sentira minha alma chorando? Pela intensidade dos seus olhos arregalados, acho que sim. Mas eu não chorei, seria falso de mais. Depois continuo, Dicla, alguém nesse país tem que fazer algo que gosta. Lá vou eu com meu mapeiro analisar as curvas de nível de São Sebastião. Talvez de tarde eu volto para lhe contar como consegui dinheiro para comprar as cartas topográficas. Já lhe dissera, lembra? Só não mato, nem roubo; o resto que Deus me perdoe o que eu já nem sei mais se é pecado de tão gostoso que é.

P.S.: Dicla, sei que se encontra ocupadíssimo. Mas no espremido de um segundo, faz um carinho, me escreva. Não quero ter que me envolver nos braços homicidas do fulaninho para compensar o tua ausência.

2 de jun. de 2004

Dicla, desde a semana passada o Pirox tem me enviado historietas para me animar. Eu já estava, seriamente, pensando em bloqueá-lo, mas eis que chegou essa. Tudo a ver com os conflitos da segunda-feira passada.

As pessoas sempre me pedem uma explicação sobre o que é, exatamente, Marketing. Na prática é o seguinte:

Você vê uma mulher numa festa. Você vai até ela e diz: "-- Eu sou Foda." Isto é Marketing Direto.

Você está numa festa com um grupo de amigos e vê uma mulher. Um de seus amigos vai até ela e, apontando para você, ele diz: "-- Ele é Foda!" Isto é Publicidade.

Você vê uma mulher numa festa. Você vai até ela e consegue o seu telefone. Você liga no dia seguinte e diz: "-- Oi! Eu sou Foda!" Isto é Telemarketing.

Você vê uma mulher numa festa. Você se levanta, ajeita o cabelo, vai até ela e diz: "-- Com licença." e ajeita a alcinha do vestido dela, roçando de leve no seu braço e conclui: "-- A propósito, eu sou Foda."-- Isto é Relações Públicas.

Você está numa festa. Uma mulher se aproxima de você e diz; "-- Me disseram que você é Foda." Isto é Reconhecimento de Marca.

Você está numa festa e vê uma mulher. Você a convence a ir para casa com seu melhor amigo. Isto é Representação de Vendas.

Seu amigo não a satisfaz e ela liga para você. Isto é Suporte Técnico.

Você está indo a uma festa quando você se dá conta que poderia haver um monte de mulheres em cada uma das casas pelas quais você está passando. Você sai do carro e do meio da rua grita bem alto: "EU SOU FODA!"-- Isto é Spam."


Preciso rir, bem aberto, bem solto, para espantar a possibilidade da chuva nas maçãs das bochechas.

1 de jun. de 2004

Dicla, a arame-farpado me vez perder o último post que eu havia escrito para você. Eu ainda a transformo numa personagem. Aliás, o sai-daí-agora-que-eu-quero-usar-o-computador merece um post repleto de grosserias. Vejamos. Daqui a pouco vou para sobreloja e poderei, com mais tranqüilidade, lhe contar sobre o tumulto de hoje de manhã aqui na loja. Minhas antenas parabolicadarás captaram atenta as falas, os choros e os gritos sufocados da Mah e do Pah. Gaia contra Cronus. Estou até agora a aplaudir. Meus personagens agem por si só.

E isso me deixa livre para entender a vulnerabilidade que recebo de presente... De quem? Da Mah, ora essa. Tudo de ruim que me acontece é culpa dos peitos-duros-de-leite dela. Dicla, você se lembra de quando nos escondíamos atrás do guarda-roupa? Desde daquela época, ela nos obriga... Posso exagerar um pouco, mas você não tiraria minha razão, ou tiraria? O fato é que se ela me chamar para conversar, minha sinceridade será bem fundamentada. Tenho aprendido, com o Naz, a dizer não . Aliás, cheguei onde queria, até agora não consegui obter informações sobre o rebelião em Benfica. Será que a Força-tarefa participou? Não encontro nenhum conhecido confiável que me possa esclarecer essa dúvida. Acho que é por isso que hoje acordei molhado. Não foi apenas um sonho. Foi saudade mal curada.

31 de mai. de 2004

Diah, Diah, Diah...só falta o seus botão de amarilis abrir. Vem brincar. Vem de casaco. O sol é fraco diante o vento frio que leva os agourentos para longe daqui. Mesmo assim, faz frio. 18 grauzinhos quando passei pelo Residência Oficial do Canadá. Na ausência do professor de Probabilidade e Estatística, vou lhe confiar o ocorrido:

Câmara digital para captar o olhar de italianos drogados. Estranhei (narrativa entrecortada com ângulos inusitados). Picanha assada para seis pessoas. Participei. Conversa sobre o sociopata que come na cuia da cadela de estimação da outra maninha. Gargalhei. Dicionários com a letra G. Foliei. (Para depois saber comentar.) Olhares trocados com o acionista do BC. Flertei. (Era um encontro de casais promovido pela nossa paróquia. Ambos casados. Eu tenho que tomar vergonha na cara.)Empate aos quarenta e quatro do segundo tempo. Apelei. Perguntar ao chegado de Brazlândia, porque ele estava cabisbaixo. Mancada! (Calada, boca doente. Tu não perdes nada por isso.) Saber que escrevo só quando me sinto angustiado. Chorei. (Água no brasa dos meus sonhos.

Caminho por um devaneio. Andarilho livresco. Troco feijão por arroz, direita por esquerda, sal grosso por carvão e a mais nova, água oxigenada por acetona. E todos eles versa-e-vice. By de way, troco os pronomes. Eu-eu, eu-tu, eu-você, eles-eu, eu-nós, vós-eu, vocês-eu, eles-eu. (Tatah, espero que não esteja sendo muito trabalhoso e me se permite, Inpiração: "Sugar, espero que não esteja sendo muito trabalhoso." Acabei.

Me parece ... olha lá, aquele homem alto, magro, encurvado, com livros debaixo do braço, calça de linho marrom, camisa azul de punhos dobrados. Ele vem se aproximando de nós. Ah, não. Não, Senhor, por favor! Bochechas secas e rosadas. É ele sim. Vou para sala, Diário Dicla, o professor chegou.

-- Estudou para prova, Marcinho?
-- Mais ou menos.
-- Conseguiu responder a 258?
-- Véi, consegui não. Copiei a resposta da Joana.

Antes de eu ir de vez, para só amanhã voltar. Sugestões para hora do almoço.

http://www.meguimaraes.com/subrosa/
http://www.cadeiadepalavras.com.br/
http://www.blogandopessoa.blogger.com.br/
http://www.drummond.blogger.com.br/
http://marioquintana.blogspot.com/
http://www.lamenha.blogger.com.br/
http://www.radamesmanosso.blogger.com.br/
Sem comentários! :-)

28 de mai. de 2004

Bom dia, girassol! Acorda meu diário. Tenho news. Aliás, a Tatah tem razão em reclamar que não conto news. Mas pensando bem, Dicla, quem dá news é jornalista e eu não quero (eca!) ser aquilo lá. Boto tudo dentro de um saco. Balanço. Se cair meio grama é muito. Conseguem ser pior do que os Retóricos.

Pois bem, meu bem. Posto isso, vamos ao que interessa. Estou lendo um livro do prof. Flávio. E eu que dormia abraçado à Arte Poética de Aristóteles... Esqueci-me de idéias tão caras à Geografia. Onde? Porquê? Como? Quem? Para quem? Para quem?... Eis a ordem da minha poética que precisa fazer um programinha. Deve haver um ou alguns que automatizam diretamente no diário de navegação as páginas visitadas. Existirá? Onde? (Que vergonha, Marcinho!)

Haverá uma manhã, Dicla, em que os links surgirão concomitante à nossa navegação. Só terei o trabalho de elaborar uma breve nota. Um pouco de Pedro Doria misturado à Rosana Hermann.

A propósito, estou a procura do estilo entremeado à tantas ideologias (no sentido marxista do termo. Não que eu seja dado a trivialidades esquerdistas, mas se nos descuidamos, nos metem o capuz de borracha, sem comiseração.). Queria ser mais cético, vagar o mundo questionando premissas.

O presidente deve ter se esquecido das exposições do Prof. Ab'Saber. Desde que eu me entendo por gente, sei que a Geografia é uma ciência a posteriori, por excelência (nem acredito que consegui usar um termo latino. Hip! Hip! Hurra!).Deixar estar para ver como é que fica. Uma nova geografia comercial está se configurando. Será? Preciso consultar meus manuais. Pára tudo. Senti um cheiro de cientificismo vindo do orquidário. São umas lesmas enormes que estão a devorar nossas cattleyas amarelas com labelo preto. Sem comentários.

27 de mai. de 2004

BALÕES DE HÉLIO NOS ARRANJOS DA EMBAIXADA AMERICANA

Acabo de encontrar por acaso no blog do meu amigo lisboeta um link aleatória para o blog do Jorge Candeias. Quem? Jorge Candeias.

Seria redundantismo dizer que as palavras dos seus contos me fizeram arrancar lágrimas de granízio do meu nem bem querer ser. Pluftz! A Gal cantanto London, London não podia ser mais apropriado.

Assim que o Homem Inverno voltar com meu coração (guardado dentro de uma caixa de isopor, assim espero.) vou em busca da minha porção européia. Quero me esquecer de mim nas ruelas sujas de Roterdã-Dublin-Praga. Percebes o erro, darling-querido-Dicla. Não consigo mais trucar, meus signos não obedecem ao malabarismo de ontem à noite.

E o cheiro encardido do meu cardaço aplaude o agradecimento do diafragma da minha baiana preferida. (Desculpa-me, Dany, mas meus ouvidos já tem dona. Você vai ter que cantar muito ,e rebolar gostoso, por não?, no Rock in Rio Lisboa para que eu lhe preste a atenção que mereces. Chega de bobagem. Vamos ao post de hoje.

--Dicla, ainda estás aí?

-- Diga, Irmão!

-- Olha só, inseparavél amigo, peça que seus leitores preparem as impressoras. A noite de ontem foi queimante. Quando dei por mim, a verborragia já tinha tomado conta do meu nem bem querer ser. Dentro da madrugada com a porta do banheiro trancado por dentro, já que meu intestino não funciona, seguro o note book no colo. Exercito a arte de teclar com uma mão só. Mais abaixo o resultado.

P.S.: Meu editor me sugeriu que não corrigisse nada, portanto, sirvo a carne crua mesmo. Tenho pressa para o tempo que perdi no postinho. A tradução me aguarda, ou melhor a princesa me aguarda. Sem comentários.
Sendo eu uma ópera me encaixo em Madame Butterfly. Aqueles marinheiros boiando na bacia de arroz não me descolavam da retina. No almoço controlo o tempo do microondas; no jantar, é a vez da minha maminha do coração. Ela pensa que me refiro a ela com carinho. Mal sabe a brinquedo, que a xingo virtualmente, ora sim, ora sim. Um dia ela me descobre e então vamos quebrar o pau que usam para fazer cabo de vassoura.

Culpa de quem? Meu cunhado. Meu cunhadinho fofinho de tão bombado. Não que eu esteja bolinando o cara quando ele dorme bêbado de vapor na sala de estar. Nada disso. Pratos exóticos me causam flato, o dele me causou, até hoje. E quando ele me chama para ir a padaria comprar cigarros, pergunto se ele não tem medo de virar caubói. Ele ri.(de que será?) O Audi A3 preto teria vaga garantida nos estacionamentos da UnB. Conversível me faz parecer criança dentro de uma montanha russa. Impossível dizer não sem ofender a galerinha que freqüenta o Deck Brasil.

Não querendo ser esnobe já sendo, panqueca é primo pobre de crepe. Mas meu cunhado se faz de desentendido. Faz careta de louquinho, manda beijos para o ar e passa a sessenta quilômetros por hora por quebra-molas mal pintados. Eu vôo longe. Ele adora me fazer pular. Eu tenho pena da minha irmã. Ele me trata como se fôssemos irmãos.

Conto a ele que a filha de um depú féderas (agora, situação) me pediu que traduzisse uns contos em espanhol para ela. Era isso que eu estava fazendo quando o meu amado cunhado (pela maninha, não por mim) entrou no escritório. Ela está perdida no campus. A UnB é uma cidade (30 mil habitantes, eu acho). Menina inteligente, cílios loiros, cabelos lisos escorridos, se fosse um objeto seria um lápis de cor amarelo claro. Linda. Fala inglês com consoantes abertas. Mas não entende nenhuma palavra em espanhol. Nem ela, nem ninguém da turma de Geografia Política. Há portunhol e dois espanhês. Mas castellano mesmo, solamente yo. Fiz o meu exercício e de todo mundo, enquanto ela retocava o rímel que insistia em se manter fora do lugar. Ela não precisa desses subterfúgios. Ofereci ajuda para responder suas perguntas, sem saber que o meu pai é o florista da mãe dela.

–- Eu te conheço de algum lugar –- disse-lhe eu, inocentemente.

-- São vocês que enfeitam nossos jantares com aquelas falaenopsis lindas de brancas.

Epa! Ela conhece as flores pelo nome. Ponto para ela. Vamos ser amigos. Depois de me dizer três vezes que o pai dela elaborou tal projeto de lei, me dei conta de quem se tratava. Ela não tem sangue azul, mas é como tivesse. Espirrando me lembra um botão de lírios rosa desabrochando. Quando terminar de dizer isso ao meu cunhado, ele gritou extasiado, como se tivesse definido a final do campeonato da UEFA nos acréscimos.

--Vamos ter casamento no final do ano! Finalmente serei tio. Quero ser padrinho de casamento ou do rebento que vocês vão fazer. Moreninho de olhos verde-castanhos, já pensou?

Burro-anta-asno-mula. Me dá um cigarro, quero fazer muito fumaça para não ver o quanto você alimenta tolices. Não há nada, nem ninguém que me faça esquecer que meu amor está a essa hora em algum morro do Rio de Janeiro caçando e prendendo e julgando e executando um cidadãos balísticos. A bela alimenta meus olhos, mas meu coração pára quando penso no meu tesouro.
Meu cunhado ri nervoso e dentro do Audi me pede para guardar segredo.

-- Acho que sua irmã me trai.

-- É mais fácil de eu terminar com o Naz, do que ela fazer sua cabeça pesar.

Ele ri abertamente, convencido, me pergunta se curto Smashing Pumpkins.
Faço uma cara de tanto faz, com boca, nariz e olhos contraídos. O que eu quero é terminar minha tradução. Suficientemente tosca para consolidar a amizade com o meu lírio rosa. O carro desliza no ritmo da canção. Ele ainda não entendeu que eu tenho pressa e que fumaça do vaqueiro, me irrita as narinas, os olhos e o cotovelo da minha orelha.

-- Maninho, olha o quebra mola! Nem isso o acorda. A melodia o leva para perto do avião que nos sobrevoa.

-- Para onde eles estarão indo?

-- Não faço idéia, Maninho.

Estaciona na entrada do jardim. Fora do carro, encostados na lataria ainda quente do carro, presto atenção nele a cantarolar. Melodia, ritmo, harmonia. Pergunto sobre o significado da tribal, apontando para seu bíceps. Ele não me ouviu. Estava fazendo anéis de fumaça para minha irmã da sacada pegar. Eu estava sobrando na noite que prometia ser de Lua com guaraná.

-- Aonde você vai, Maninho?

-- Fazer meu dever de casa.

-- Encosta aí, rapa!

-- O QUE VOCÊ ESTÁ COMENDO, MANINHA?

-- PANQUECA DE BANANA, QUER?

-- NO, CARIÑO, GRACIAS –- respondi à minha irmã, olhando meu cunhadinho, fortinho de tão malhado mandando beijo para ela. Que cara de balão.

-- Véi, tô entrando?

Antes de eu desencostar do carro. Ele sem parar de formar os tais círculos, me perguntou:
-- O que você foi fazer no postinho hoje à tarde?

-- Há! É minha puta agora?

-- O Naz vai te fazer de farinha de osso para adubar essa grama. Eu ajudo.

-- Engraçado, Amaro, não tenho ninguém vigiando ele por mim. Eu confio, porque ele não?

-- Relaxe, Maninho, ele é incapaz de amar outra pessoa além de você.

Fui para dentro. O perfume da dama-da-noite estava me causando dor de cabeça.

P.S. : Daniel Gaudério San, qualquer erro-falha-falta deve ser creditado ao meu editor interno. Ele é imaginário, é bem verdade. Mas nem por isso menos verdadeiro. Sem comentários

P.S.S: Eu não ia conseguir me concentrar no meu texto se não publicasse um link bacana sobre a ópera (E pensar que já fui Carmem. O que não fiz para vencer a gincana da Elsa...) Madame Butterfly. Pronto posso ir em paz.

26 de mai. de 2004

TRABALHO PERDIDO

Presta atenção naquele menino de cabelos finos, camisa pólo laranja, calça beje, sapato marrom combinando com o cinto de couro de búfalo. Desceu do carro. Atravessou o semáforo. Passo duro, firme. Queixo enterrado no peito. Rastilho de almíscar para saber por onde voltar. É um dado para o Ministério da Saúde. Sobe a rampa que leva a portaria da Clínica Daher. Limpa os pés com parcimônia no pano branco estendido na soleira de mármore escuro. Hesita. Olha para pulso. Procura por veias no braço. A atendente passa batom, indiferente. O hall vazio lhe lembra a sala-de-jantar. A irmã no computador conversando com o namorado pelo messenger. Odeio minha irmã e tudo que começa com "m". Deu meia-volta. Outra dia tiro sangue. Quem sabe ainda não chego a tempo na aula. Voltou ao Fiesta vermelho e se foi, arranhando machas. Estava com presa. Sem que ele percebera, segundos antes, uma folha de papel ofício caiu da sua pasta de couro de búfalo. A brisa fria a leva até o laguinho de papiros tombados. Vai virar comida de carpas. O Marcinho passara a tarde toda escrevendo aquela resenha que agora se desmancha ao tocar na água. Sem comentários.

25 de mai. de 2004

" (...)este mês não irei para BSB, pois estou escalado para a Força Tarefa que seguirá para o Rio de Janeiro nos próximos dias para levantamento estratégico. De qualquer forma estarei com note book e poderemos manter contato. (...)"

Ai que dor no minha perna esquerda. Ganhei uma sobrevida. Nesse e-mail achei ele meio seco e frio, mas no seguinte (acho que ele se tocou) estava mais derramado. Nessa história o fulaninho vai rodar. E a Aline, ah... o que eu já fiz não conta.
Amanheci de céu claro, mas ainda rumino o domingo. A prostituta da minha irmã me pedira para levar a amiga mole de bêbada para casa. Agora sou motorista de cachaceira. Se não agüenta, porque bebe?
-- Arrocha o nó, Marcinho, dissera meu querido cunhado, ao dar um tapinha nas minhas costas. Abre parênteses Dicla, eu havia te prometido não mais fazer ficção nas tuas páginas, mas ontem a picada da abelhinha me deixou escalafobético. Camisetas de Natal sempre me deixam contente mais que felizes. Chapei diante tanta demostração de carinho, amor e consideração fecha parênteses. Eu ainda acabo transformando meu cunhado num personagem. É cada tirada. Em que Pier 21 da vida minha irmã foi encontrar esse hilário. Voltando a carne fresca. Cinqüenta quilos de ossos carregados nos braços. Marcinho carregador de mala. Ainda arrumo um emprego num aeroporto. Coloquei-a no banco traseiro com o maior cuidado para que não batesse a cabeça. Queria minha vítima ilesa. Entrei no Vectra, filmado, cinza (desse ser do papai) e fiquei a observá-la desfalecida. Frágil ave abatida. Que canja saborosa eu estava preste a preparar.

P.S.: Dicla,
Urgente! Urgentíssimo! Chama o Corpo de Bombeiros. Enquanto preparava esse post o Naz depois de dois meses sem me dar notícias me escreveu. Hip, hip, hurra!

24 de mai. de 2004

Parecem finos esporos de samambaia chorona a planar sobre a água da piscina. É o nosso herói, com o estômago recheado de coração de galinha. Domingo de céu nublado. O Sol está em Beijing. Hidromassagem sem graça, pensou meu Marcinho. Como reclama! Como desdenha! Nada borboleta para se exibir. Quer dar uns pega com amiga da irmã. Lábios carmim, o confunde. Só uns beijos profundos, melados, demorados. Porque, o que ele quer, e já obteve, está diante da churrasqueira, com uma lata de cerveja na mão e com a outra, girando o espeto de picanha.

-- Tira um pedaço para mim, maninho -- disse Marcinho ao cunhado, entregando-lhe a faca. Ainda não entendi porque sempre ele aperta minha mão quando lhe entrego algo.
-- Que cara é essa, maninho? --perguntou-lhe o cunhado dando um cutucão.
--Pirou? --respondeu, Marcinho. Estou muito bem. Com tanta mulher de biquini, você acha que tenho direito de ficar triste?
--Olha lá, maninho, que te entrego para o Naz. -- advertiu-o. Meu diarista abraçou o cunhado pelo ombro e sussurrando lhe colocou a par dos acontecimentos.
--Sua irmã já está sabendo disso?
--Já. Ficou indignada. Prometeu me apresentar alguém interessante.
--Poxa, maninho, sei de meia dúzia de meninas que dormiriam comigo em troca do seu telefone.
-- Deixa de exagero, maninho! Se fosse assim. Eu já havia agarrado a Lis. Douglas desatou a rir para logo em seguida dizer: --Desculpa, maninho, mas eu acho que você não dá conta dela, não. Morenona de engavetar o trânsito. Imagine você perdido na selva da morena. Ia pedir resgate. -- riu alto, chamando atenção das visitas.

-- Queria estar em Manaus... confidenciou-lhe, meu diarista, levantando o queixo para a lágrima não cair.
-- Relaxa, maninho. Leva esse prato de lingüinça para as meninas, pediu-lhe, entregando o prato fundo de bordas douradas para o Marcinho. Titubeando, ele pegou o prato, olhou para a farofa de uva passas com pêssegos. Se eu soubesse que era para isso não teria picado. Sem que ele se desse conta, sua irmã lhe abraçou pelas costas e lhe perguntou o que tanto cochichavam.

-- O de sempre. -- segredou-lhe -- O de sempre. -- Vou à boate, hoje à noite.
--Mas não vai mesmo! -- gritaram em coro os cúmplices.
--Vem. --puxou-lhe a irmã pelo braço. -- vou te apresentar à Aline.
-- Maninha, deixa para lá. Ela não tem o que eu quero.
-- Hiiii, maninho, sua criatividade também foi solicitada à Manaus?

Caminharam os dois em direção à borda da piscina de braços dados segurando com cuidado, a Marcelle, o prato de farofa (eca!) e o meu adorável idiota, o de lingüiça, cujo o prato pingava gordura. A mãe ia brigar quando visse as pedras-de-pirinópolis manchadas de gordura de frango. Mas isso não lhos preocupavam. De jeito nenhum.

22 de mai. de 2004

Dicla,

Só falta nevar aqui na capital. O Plano me sorri estranho. Estou quase me despregando dos alfinetes que me mantinham levitando sobre a mesa. Mesa de jantar. Mesa de cirurgia. As pernas caminham na direção que bem querem, em direção da saída. A médica me olha, voz grave, palavras mal articuladas. Traço meu histórico. Estúpida. Peço meu prontuário. Contra-argumentos versus argumentos.
Aceito fazer todos os exames, para lhe provar que a alimentação resolve meus problemas. Meu estômago me trai. O ronronar do mostro que trago dentro de mim faz a Dra. sorrir. Deita-se na cama. Decúbito dorsal, por favor. Sinto um tesão se escorrendo de mim. Signos específicos me alegram, porque conheço seus significados. O abdômem entregue as pressões dos dedos grossos da Dra., parece gostar. Deixo o consultório, levando a imagem do assistente. Por hoje, eu já havia recebido minha ração. O narrado não deveria ter sido evocado. Culpa dos antitussígenos auto-medicados. Quero ser pornográfico, mas sinto muito sono depois das 20h. Perdão, meu querido amigo, estou perdendo a forma. Sou capaz de sentir a vida se esvaindo pelos meus pôros. Tenho que te imprimir para que a princesa, trace seu parecer crítico. Sou desgraçadamente preguiçoso. E sinto vontade de vomitar sobre as margaridas lilás que me cercam. Dicla, depois continuo, aqui está muito sujo aqui na loja.

21 de mai. de 2004

Acordo com a sensação de ter dormido o necessário. São quatro horas. Madrugada de dezesseis graus. Fecho as janelas sem fazer barulho (impossível). Pego um cobertor no maleiro do quarda-roupa. Ao puxá-lo, cai uma revista-de-fotoshop. A sonolência se esvai por completo, sento-me na cama com ela no colo. Abro na página em que a atriz quarentona mostra os pelinhos contorno. Para que inventaram depilação? Levo a mão à boca, como se fosse tirar um pêlo perdido na minha saliva. São lembranças, de um novembro finado. Um interubano Brasília-Curitiba seria um ato insensato, mas não quando tudo que toco me lembra o quanto fui feliz rolando num tatame de pétalas. Meus livros de Geografia Econômica me convidam. Boto a revista de lado. Vou rever minhas anotações. Preciso tirar 8,5 na prova de hoje à tarde. Não posso ser jubilado.

20 de mai. de 2004

Dicla,

Que susto levei ao saber que as pessoas continuavam te observando. Faço mais mil concessões e quantas mais me pedirem. Tudo por que soube me pedir para continuar. Peça; te ouço por dentro, ou não peça, peça desgastada, estarei mesmo assim, aqui e lá, para te ler e reler. Como já bem sabes, Diário, está difícil. São momentos dolorosos, como esse, corte profundo, que me fazem dar mais uma volta na pista de cascalho 0,0. Minhas bolhas são calos estourados em noites de lua grávida de sol.

Sinto gana de visitar minha terapeuta para perguntá-la como era mesmo aquele ditado. Pô, véi, toma vergonha na cara. Tenho certeza que você deve ter um dicionário de provérbios, aí por perto. Sim, tenho, mas ele não circula. E trazê-lo para perto de mim, para minha mesa, só vai abarrotar ainda mais meu olfalto, tão enganado por polens de rosas ambiances. Os cheiros não mais pululam em profusão. Procuro soluções. Leio o relatório para comprovar o fato: devo me tocar mais, sem culpa, nem remosso. Se não sou capaz de me acariciar, quem vai ser? Arranco prazer de dentro de mim, mas nem assim, deixo de sonhar com o descuido da Lady escritora. Uma ponta de renda vermelha no monte sem escarpas. Pena estar eu, mais para o intimismo do que para o confessionismo. Caindo naquela fenda, não pediria para ser salvo.

Acordo da lembrança que a moça sentada em minha frente me causou. Moça descuidada essa, ou não se importa se eu grunir por ela quando for me banhar. Tento me concentrar. Visito meus amigos. Distante, muito longe estão. Nem sei mais se vai ponto ou vírgula. Os dois não! Causa-me estragos sedimentares, rudimentar para ser mais preciso, confundi-los. E a cada correção me exibo diferente. Dicla, acorda! Odeio quando me deixas falando sozinho. Se traço labirintos a culpa é tua. Se teus leitores se perdem nas minhas ruas desprovidas de meio-fio, o que duvido, é porque não me vês; se me vês, não me enxergas; se me enxergas, não gostas da tua imagem. Vou tentar, mas já sabendo que vou dormir preso ao teclado. A tese me rouba de ti. Por favor, sejas compreensivo. Desamarra essa cara. Sorri para mim, essa seriedade me assusta.

12 de mai. de 2004

O técnico informático me dissera que deveria levar o CPU para analisá-lo no laboratório. De jeito nenhum! O Naz me serviria em porção ao Rot do Bruno. Para o meu vizinho seria um dia de festa, digno de ser lembrado e celebrado por décadas. Mas isso é problema dele. O meu, urge. Já que não poderei me conectar de casa, terei que dar meus pulos. De onde vou postar? O computador do departamento está me servindo por este instante, mas não poderei pedir ao Prof. Gustavo para usar o LISIE, novamente. A loja seria outra opção, se minha rinite não fosse alégica a tenuíssimas frações de esporos que se desprendem das flores.
E agora Soaviski?
A luz acabou.
Você não pagou a conta.
A conta era uma micharia.
Minha bolsa também.

E agora Soaviski?
Teu amor desapareceu,
sem se despedir,
Levando dentro de si,
E de uma maleta de búfalo,
Suas fotos acobráticas.

E agora, irmão?
-Vamos à prainha,
Tomar banho de sol,
Enquanto os técnicos do governo,
Finalizam suas políticas públicas.

11 de mai. de 2004

Dicla,
Olha só o que encontrei ao abrir minha correspondência: Crônicas e contos da Clarisse Lispector (além de entrevistas e depoimentos). Prosa intimista a me varrer o cortizona. Porque eu me afasto dela, quando minha medicação deixa de fazer efeito? Deito-me debruçado sobre a tese, procurando uma posição cômoda. Observo os botões do controle remoto a me levar para lugares que nunca poderei estar (depois do parecer de ontem, deixei de acreditar em milagres). Era Esparta, com seus soldados forjados (como se hipertrofia fosse sinômino de força). Queriam ser todos iguais, a semelhança refletida num espelho sem fundo. Que monótono deveria ser a ausência da diferência a gerar um conflito criativo. Oxalá, estava eu salvo esticado no sofá da sala de televisão, esperando a picanha assar, pois não havia condições psicológicas de pisar no mármore torto da escadaria assassina. Alguém vinha trazendo o pano para limpar o suco de graviola derramado no tapete que cobria boa parte da madeira corrida. Não, nesse aparelho o dez não funciona. Saíram resmungando. Continuei folheando a tese na esperança de descobrir qual questão iria cair na prova de hoje. Prosa intimista, escrevi na lacuna. Acerto ao errar.

10 de mai. de 2004

A tempo, como você pode perceber, ilustre diário, estou de volta. Sobrevivi à Noite do Despetalamento. Os fatos ocorridos mais que vividos vão sendo transformados num romance. Quem sabe assim, não abro uma rachadela numa das madeiras do gazebo. Carvalho é lembrança para os nascidos sobre a influência da terra.
Affonso Romano Sant'Anna (somente com cadrastro) sendo entrevistado por André Azevedo especialmente para a Novae)
(...)
André Azevedo: "Freud disse assim: 'A grande questão para a qual não encontrei nenhuma resposta durante trinta anos de pesquisas sobre a natureza da mulher é a seguinte: o que elas querem enfim?' Você, marido da Marina Colasanti, já tentou esboçar alguma resposta para esses enigmas? Por que tememos tanto as mulheres? O que elas querem afinal?"

Affonso Romano Sant'Anna: "Primeiro porque elas são seres superiores. São adoráveis, mais inteligentes. Em segundo lugar, existe uma resposta para essa pergunta do Freud, eu até fiz uma crônica sobre isso, que é uma parábola sensacional que não vai dar pra você contar, porque é muito grande, que remete à lenda do Rei Arthur."

André Azevedo: "Ah, pode contar!"

Affonso Romano Sant'Anna: "Ela começa quando o Rei Arthur, ainda jovem, invadiu o terreno de um rei e como punição foi condenado à morte. E o rei falou que ele só poderia escapar da morte se conseguisse resolver a seguinte questão: o que querem as mulheres? Há todo um desenvolvimento disso e a solução que se encontra é uma coisa maravilhosa. O Arthur contou isso para um colega, um dos cavaleiros, que disse: — Eu vou resolver esse problema pra você. Eu soube que tem uma bruxa na montanha que tem a resposta. Esse cavaleiro era belíssimo, inteligente, e então foi lá no lugar do Arthur e falou com a bruxa. — Escuta aqui, tenho um problema e preciso saber: o que querem as mulheres? A bruxa falou assim: — Olha, eu posso te contar, mas tem o seguinte: você tem que casar comigo. Só se você casar comigo eu respondo. E para salvar o amigo, casou com a bruxa. — Vou te contar na noite de núpcias. No banquete a bruxa estava comendo, toda desgrenhada, sem dente, vesga, jogando comida no chão e o pessoal se perguntando: pô ele vai casar com essa mulher? Aí quando ele entrou no quarto nupcial, perguntou: Bom, então me diz agora, finalmente! Estamos casados! A bruxa disse o seguinte: — Eu vou te fazer uma revelação. Eu sou bruxa de dia, mas de noite eu sou outra pessoa. E se transformou numa mulher deslumbrante, a mulher mais deslumbrante que qualquer homem pode imaginar, nem precisa descrever, cada um descreve a sua. E apareceu aquela mulher! Na alcova do cavaleiro! E aí a bruxa transformada na bela mulher disse: — Mas você vai ter que decidir com qual de nós duas você quer ficar, a bruxa ou essa deusa. Aí o cavaleiro, como era um cavaleiro mítico, um herói, de caráter sem jaça, um sábio, disse para ela: — Você decide. Você é que decide quem você quer ser. Então o resultado dessa melódia é: o que querem as mulheres? As mulheres querem ser o que elas querem ser, e não o que os homens querem que elas sejam."

Marcinho refletindo: Atitude que as torna tão desejadas. Sujeitar a personalidade feminina às suas vontades, seria isso o que os homens querem. Volto à biblioteca. A propaganda do entrevistador redirecionou a agulha da minha bússula. Vamos ver se é isso mesmo.

5 de mai. de 2004

Novamente, hesitei. Minha mãe e sua amiga glorificam o filho da vizinha aprovado no concurso do STF. Deveria ter servido lesmicida no vinho delas, ao invéns de ter me inforcado com uma rama de hera babatais. Matrícidio é o que esperam de mim. A visita ao solo dinamarquês me deixa assim: confuso, atordoado, perplexo. De terno, lembro o cidadão que abriu minha testa com seu cheiro de cardamomo. Tonto, beijei o pé do meio-fio. Acho que gostei da visão passageira, pois até agora, sinto seu cheiro de violeta (ou seria noz moscada?) entranhado no meu intestino grosso. Todas as dúvidas e só a certeza de que estou desabotoando minhas algemas. Os fiordes me chamam. É o taxista. Se o adido cultural me negar asilo, estarei de volta daqui cinco dias -- na segunda-feira de lua verde -- com o orgulho esmagado, com os olhos marrons, verde de ressaca, amarrotado de tão descabelado, fechando os olhos ao ver uma parede. Entretanto, entusiamado por ter conseguido essa outra entrevista. Nada disso minha mãe vai saber. Ninguém vai se promever as minhas custas. Não se preocupe, Dicla. Levarei-te comigo, escondido no bolso do paletó, o que acontecer de relevante, prometo publicar.

4 de mai. de 2004

Se a vaca que eu chamo de mãe me pedir para apertar seus seios duros de leite, não vou me negar. Chega de contrariar dependentes químicos.

3 de mai. de 2004

Seminário Internacional Cultura e (in)Tolerância
Depois narro como a gordura da picanha escorria pelo espeto. Jornalistas poetas não merecem nenhum naco, nenhuma linha no meu idiosincrático diário. Não é porque somos on line, que vamos esculhambar. Meu tio perdeu. Digo isso, porque ele se despediu de todo mundo, menos de mim. Sendo que eu estava na frente dele, de mão estendida esperando sua bênção. Ele não esperava que eu estive pronto para rebater suas provocações. Corro risco de morte. Devo ter cuidado para quais as portas eu dou as costas. Antes de ir, uma navegação poética. Nada demais, é só para me lembrar que meu amor não ousa disser seu nome, mas não se importa em fazer serenata debaixo do meu bloco para quem quiser ouvir. Moleque de atitude. Pena que ele perdeu.

http://100licencapoetica.blogger.com.br/
http://poemias.blogs.sapo.pt
http://mardapoesia.zip.net/

1 de mai. de 2004

Ser mais sutil. As pessoas respeitam tal sentimento. A ponto de chegaram a cultuar quem comportou-se assim. Mais poesia no meu café-da-manhã vai me ajudar a digerir as sementes do papaya. Que o Mário e o Fernando me desculpem...

Billie Holiday
Pensar é transgredir
pearl Jeam
Chico Science
Matchbox 20

30 de abr. de 2004

Ele queria ter capital sem comer da rabanada. Clara de ovos não deixam comentários, meu querido diarista. Principalmente quando te negas a fazer seus deveres de casa. Prometi levá-lo para ver o aveludado das rosas de São Benedito. Do Ceará à França. Seriam mais problemas de trigomometria para as caspas que não deixavam de lhe admirar as pernas.

Tudo poderia ser resumido num lençol esticado diante armamentos ávidos pelo toque das patas dos ratos cinzas. Estou cansado de não-ser. O fulaninho me induzia a compactuar com a negação do travestismo caótico que chovia sobre nossos pés. Meu vampiro queria me sugar, mas a lua não favorecia. "Hem, Marcinho, quando você vai me acompanhar? Tenho uma garrafa de vinho branco nos esperando." E para me irritar, me lembrou: "tortura nunca mais". E repetiu: Tortura nunca mais, Marcinho. Com o ombro me empurrou, para logo em seguida me segurar pelo braço. O homicida agora está a inverter os papéis. Ao me recusar a entregar minhas esperanças ao fulaninho chumbado, ele me acusou. A prova: um filete de lágrima escorrendo-lhe por fora do nariz. Era fingimento. Mas eu gostava de precisar daquilo. Lá estou eu, sendo julgado por mau-tratos. Eu poderia ter apertado a ponta do dedo onde existira uma unha. Infecção. Ele gritaria de dor e assim nossos crimes seriam igualados. E ele me olhando com a cabeça baixa. "Olha o que você fez?" Só faltou me pedir para beijar-lhe o curativo do dedo mínimo. As catilengas cochichavam. Era sobre a gente, eu poderia ler nos olhos delas. "Relaxa, rapaz, dois amigos não podem mais conversar? Agora se fôssemos o que eu gostaria, seria diferente; a essa hora, você estaria em casa dormindo esperando seu amor voltar do serviço." Ri e lhe disse que já era hora de eu ir para o berço. Despedimos-nos com um aperto de mão excessivamente balaçado. Sai sonhando com aquela possibilidade. Só que ele não desconfia, nem o Naz.

29 de abr. de 2004

Mom petit Cinho,

Bonjour, espero que você esteja muito bem. Jà estou na frança e eu não pude me despedir. Infelizmente o tempo não deu porque quando eles me avisaram que eu tinha um vôo, jà era a hora de embarquar. Que pena, agora eu posso sò escrever um mail para você. Eu adoro você, mesmo se eu não vou escrever muito, nunca esquecerei você. Você foi muito bom comigo, e ainda uma vez eu queria agradecer você. Espero que tudo vai continuar bem para você.
Eu acabei de ver minha familia e meus amigos, nòs somos muito feliz, tem sò um pequeno problema; ESTOU MORRENDO DE FRIO. Ah! que tempo gostoso você tem! Enfim eu vou dever me acostumar de novo. Se cuidem e tudo de bom. Enormes beijos Até mais Sua B.


Sentirei saudade da torta murcha de maçã. Assumi a postura de um modelo fotográfico disciplinado. " Adoro seus olhos." Gladíolos assumiram outro significado para mim depois de todos flashs opacos. Eu em sépia ilustrando um outdoor particular em Toulosse. French kisses são agora beijos brasileiros. Eu mais ensinei do que aprendi. Deveria ter sido o contrário. Croqui de ramalhetes de rosas me farão falta. Como é que ela conseguia amarrá-las daquela forma? Deve ter aprendido com o pai marinheiro.

28 de abr. de 2004

Com os olhos fixos no monitor, tentava elaborar uma solução. Uma carta ao reitor sairia igual a um alívio. Mas, me lembrei que beijos sufocados não significavam nada. Foi, então, quando tive a idéia de correr quarenta quilômetros até a igreja mais próxima para garantir a primeira fila. Não era um show de rock, (como outrora) nem a garantia de salvação. Mas meus dedões não suportavam mais o cor do esmalte café que me servia de calmante.

27 de abr. de 2004

O rascunho do argumento-final me cheira a chuva lilás. Freud que me ajude. Meu sentido orgânico me processará por maus tratos. Antes, vou passar uma mensagem para celular do Fulaninho, já que a secretária insiste em querer falar comigo. Não sou garoto de recados. Sou daqueles que gostam de saber como os mocinhos fazem para controlar um rebelião num presídio federal.
--Hoje, você não vai poder sair à tarde. -- dissera-lhe a madrinha.
--Porquê? --perguntou ingenuamente.
Ela lhe deu as costas e entrou na butique.

Ele estava cansado de se enconder no porta-luvas. As paredes do cubículo transpiravam o sangue dos seu gemidos. O Marcinho havia sido convidado para um prisão. Na piscina, as sessões de afogamento nunca seriam esquecidas. Suas roupas penduradas no fio de alta tensão. A tese esperando por ele. (Outra promessa que ele não conseguira cumprir.) Ao pensar em voltar para o casa onde os cãos jogam autorama, ele resolvera pixar o guarda-roupa com o mesmo polegar que, repedidas vezes, furava o microondas, para logo em seguida, sentar na mesinha de centro até terminar a leitura do livro dos cores. Era uma saída, a pior dentre tantas.

26 de abr. de 2004

Ele buscou a história sócio-econômica brasileira para justificar seu apoio à política de cotas. Argumentos sólidos e contra-argumentos preventivos. A platéia branca o escutou calada. Não houve réplicas, para tristeza dele. A tréplica engatilhada seria a luva. Aquele era o pau-de-fumo que os primos gostavam de açoitar. O pai sentiu-se orgulhoso. O arrependimento se desfez. Era um aniversário de criança. A ocasião que o Marcinho aguardara para espezinhá-los com suas lembranças maternais.
Cor-de-rosa com laranja não combina. Agora, suco de laranja com pétalas de mini-rosas rosa é um potente afrodisíaco. Será que vou resistir à vontade de telefonar? Pedidos de desculpas são aceitos na hora do almoço. Eu bem sei.

25 de abr. de 2004

Estive tão concentrado estudando o funcionamento da minha memória, que me esqueci do encontro com o Fulaninho. Agora ele quer meu pescoço. E meus braços e meu tórax e meu abdômen, minhas pernas. Tudo junto, em perfeito funcionamento. Ok, me entrego. Mas o coração já tem dono, quero dizer, donos. Meu casal de pólvora me aguarda em Curitiba. Vão se cansar. Minha resposta continua sendo não. Eles que tratem de voltar para casa o quanto antes. A noite está muito fria sem eles.

24 de abr. de 2004

Superpromoções se abrem aleatoriamente impedindo o bem-estar daquela formiga aprendiz. Não quero promoção, antes uma imitação. Que os seres imitativos me desculpem, mas quando farinha é pouca, meu pirão primeiro. Seria assim, se o céu de abril não tivesse vermelhinho dos respingos da nossa indignidade. Quando a farinha é realmente pouca, uma nequinha para cada um que estive sentado no tapete de cordas. Solidários nas refeições, comungamos ideais. Eis que nos surge uma tese apetitosa para defender. Elas acaba de nos escapar. Sabonete de mercúrio que se escorre pela minha perna. Vai embora, vai. Idéias vem e vão na circunsferência da minha vizinhança. E quando eu resolver cochilar com a lascívia, chamem os cavalos dos cães, pois vou conta-lhes em detalhes, não todos, o que as folhas dos pinheiros sussuram ao serem tocados por esquilos desavergonhados. Depois continuo, acabo de ser pisoteado na contra-mão. Alguém me esmurra, alguém me cospe e depois me chama de Drummond.

23 de abr. de 2004

Márcio,

Segue o comprovante de pagamento da cesta com 60 botões rosas vermelhas importadas com um quilo de sonhos-de-valsa.
Local de Entrega:
- SAS (...)
- Entregue à (...)
- Horário de entrega: 17h

Os dados do cartão estão em negrito:

Acerolinha,
Não quero dizer nada além de... TE ADORO MUITO!
Feliz Páscoa!!!
Beijos do seu Fofucho
08 de abril de 2004



OBS.: Faça bem feito, bem caprichado. Obrigado pela atenção. Gostei
muito do atendimento. Qualquer dúvida me ligue: (...)

Muito obrigado,

L.
Analista de Sistema (...)
(...)
(...)
PR-Br

22 de abr. de 2004

Olho para imagem de satélite e penso: "não sei por onde começar o plano de manejo." A fotografia está muito brilhante. As cores não combinam. Plotaram a imagem num papel muito mole. Não consigo reajustar a inclinação da minha mesa. A luz da iluminária está fraca. Minha cadeira baixa me dói a coluna. E poderia continuar com uma seqüência de queixas até completar 3.000 ou 5.000 palavras, vai depender do sarcasmo do meu orientador. Quando fujo das minhas obrigatórias, algo me empurra para elas. O Arthur acabou de chegar com os lápis demarcatórios. Vamos nos livrar logo desse carma. Depois do almoço, não sei para onde minha bússula vai apontar. Vou matar a aula de fotointerpretação aplicada ao planejamento urbano. É a decisão mais coerente. Nem penso em aparecer ao happy hour do Postinho. Bem que lá... eu poderia ouvir algumas histórias; aprender palavras novas. Mas, um plano se forma dentro de mim. Escrever é preciso, viver não.

21 de abr. de 2004

A cidade está morta de vazia. Ninguém para lhe dar os parabéns. Melhor assim. Meu amor e eu no Clube do Exército para se torrar debaixo de um solasso. Eram planos, antes do telefone tocar.

20 de abr. de 2004

Ainda sobre o churrasco de domingo. Por debaixo do travesseiro acompanhei o ir e vir da bola. Levantei várias hipóteses. Questionei a validade do malte escuro derramado no chão. Reconheço minha ignorância diante a turba de oponentes que teimavam em tocar seus bumbos perto de mim. No churrasco do rival corria o risco de ser linchado, caso o Flamengo perdesse. Quem não era vascaíno, era anti-Flamengo. Da minha camisa fariam churrasquinho para eu comer. Calado eu ria constrangido. O que eles queriam mesmo era que eu fosse embora dali. Ser hostilizado não faz bem a auto-estima de ninguém. O olhar do Fornazze me protegia da água verde da piscina, mas não era suficiente.

19 de abr. de 2004

A aula de Estética e Cultura de Massa me aguarda, então só para não perder o costume do vício que solapa minha franja, lembro-me da mudança do domingo. Na estante do escritório, meus livros estão bem guardados. Espaço é fundamental para se guardar o Conhecimento. Já o tempo. Esse é escasso. Uma coisa compensa a outra e assim vou-me lembrando do churrasco de aniversário do vascaíno xexelento. Parabéns pelos seus 27 anos. Assim disse para o filho do pai do meu amor. Não fui bem recebido pelos Fornazzes. E nem sei como falar disso. Vai que o Alessandro venha a ler isso algum dia. Se não me bastasse ser filho de vascaíno, os braços que me protegem também gostam de bacalhau. Depois penso nisso, o professor já deve ter chegado.

17 de abr. de 2004

Não tem post hoje. Estou indo levar mis abuelos para vacinar. Vou aproveitar a ocasição para coletar algumas historietas, principalmente aquela que me impede de ter um sonho calmo.

Antes de eu ir, em definitivo, quero registrar: apenas trinta por cento dos candidatos que utilizaram as cotas para o vestibular da UnB, eram realmente negros ou pardos. Tal fato me leva as seguintes conclusões: ou os candidatos não leram o formulário de inscrição ou eles querem protestar contra a medida. Podem reclamar, vivemos numa era de mudanças. Se não se muda a política econômica (sai para lá inflação!), ao menos temos políticas compensatórias. Assim vamos tocando a Nau, ou melhor, (bem melhor) o Transatlântico. Titanic? Não, absolutamente. Somos um povo pacífico de tão covarde. E que deixem os miseráveis morrerem a míngua, a fronteira é minha língua que nenhum general pode me impedir de excitá-la.

P.S. Eis aí , querido diário, um textículo mais que improvisado. Para quem disse que não teria nada, até que teve, senão muito, ao menos o suficiente.

16 de abr. de 2004

Óh, meu Deus! Que lindo! É por isso que eu tenho a maior consideração pelos militares, pricipalmente pela Polícia Militar. Viva a Corporação Fluminense! O pitbull do traficante Lulu foi adotado pelo soldado do Bope. Quem se chamava Digimon agora atende por 21, número da matrícula do polícia.

Moro num país onde a vida de um cão tem mais valor do que de um ser humano. Mas, Marcinho, o meliante-marginal-sanguinário era um homicida, daqueles que obrigam o filho a comer o fígado do pai delator. Ok! Não argumento mais. Vamos fazer com eles, como eles fazem conosco. É a versão brasileira da Lei de Talião. Para cada morte no asfalto, uma na comunidade.

Aqui não é o Haiti, mas me lembra o Afeganistão. Deve haver alguma célula do Talibã infiltrada lá no Rio e ela deve estar bem sentada em alguma cadeira oficial.

15 de abr. de 2004

Finalmente, consegui me cadastrar no blogspot. Venho para ajudar a esclarecer. Trocar umas idéias com minhas leitoras e leitores. Segredos do meu diarista surgirão em forma de vigança. Não sou de me sujeitar à caprichos de um adolescente tardio. Principalmente, quando descubro que estou sendo traindo. Quero a verdade. Mesmo que isso signifique o tédio se infiltrando nas minhas páginas. Não me importo. Estou farto de servir de confissionário. Não sou padre, tampouco psicólogo. Minha ética é uma bolinha de papel amassado que se arremeça no lixo. Seja de ser testemunha muda, passiva, imóvel. Quem mada aqui agora sou eu.
Burra! Retiro todos os elegios que eu havia feito. A empregada matou afogado o cacto do Senador. A plantinha estava mole de tão podre. Ela deve ter achado que aquilo lá era um mandacaru ou uma palma. Idiota! E ela ainda diz que entende de jardinagem. A oposição está muito mal servida. Ainda bem (hehehe).

14 de abr. de 2004

MUDANÇAS NA PAUTA



"Existem 200 tipos de negros. Se eu não for aprovado, recorro à Justiça", afirmou o estudante Ricardo Zanchet, de 18 anos, que pela terceira vez concorre a uma vaga para o curso de Química.

O rapaz reconhece que seus traços nem de longe lembram os da raça negra. "Não importa." Como forma de protesto contra o sistema de cotas, Zanchet pensou em ir com o rosto pintado de preto. "Mas pensei bem e percebi que teria minha inscrição indeferida. Não quis perder a chance."

In:Estado de São Paulo 13/04/2004

Se ele tivesse lido esta entrevista (no lixão virtual, encontro diamantes), não teria se dado ao trabalho. A comissão organizadora do vestibular da UnB não é previsível. Mas como eu gostaria que o tema da redação fosse relacionado a adoção das cotas para mestiços. Queria ver os aspirantes a bacharéis (e a licenciados também) tropeçando nas suas próprias falácias. A banca examinadora é uma mãe. Aposto um polenguinho que pedirão aos candidatos que dissertem sobre um tema subjetivo: paz, amor, justiça, misericórdia, compaixão. Da escada do gazedo vou admirar a batalha entre estudantes (ou seriam alunos?) apreensivos contra a Arte Argumentativa. Se o primeiro vencer, será a glória de todos. Cansado de escrevinhações volto-me para a minha pesquisa. Antes, vou pedir para a Vanessinha reservar um filme para mim. Qual? Este:


Porque o rosto deles estão pintados de preto? Talvez
aqui, tu encontras uma resposta.

13 de abr. de 2004

ILÊ Ai YÊ para rimar dor com flor daqui a cinco anos

Qual foi minha alegria ao ver o Leandro fazendo sua inscrição para o vestibular da UnB. Se eu não estivesse trabalhando na homologação das inscrições, teria feito a algazarra em torno dele. Sete tentativas frustadas em passar pelo vestibular de Medicina. O que me deixava mais triste, era que o danado tinha pontuação para qualquer curso das Humanidades, (caralho! chego a me arrepiar quando me lembro do boletim de desempenho dele. Estava eu diante de um burro empacado na persistência de um sonho.) Agora ele entrará para colorir o campus. Colorido tal qual nosso pentafutebol; colorido tal qual nossa musicalidade. São cotas de indenização que desejo para todos, mesmo subjudice.

12 de abr. de 2004

Conforme havia dito para uma amiga, fui raptado pelo Coelhinho que não era da Páscoa. Camping, cerveja no grau, piau torrado, chuva (blagh!), beijos e afagos. Esquecimento, rispidez, desententimento, discussão, exasperação, briga, gritos, luxação, ocorrência, choro e o pedido de perdão. Tudo necessariamente nessa ordem.

No carro, hoje, a caminho da faculdade, conversava com o Naz como se nada, absolutamente nada, tivesse ocorrido. A Ester se impressionara comigo. Como você é dissimulado. Você precisa ver, quando quero ser cínico. Que percepção a dela! Mulher é mulher. Naz é bruto e eu sou um tolo; um bacaca viadinho que acha que pode sustentar um romance que não tem nada a ver. Divergimos quase sempre (nosso jogo de duplas). Parecemos duas crianças geniosas a medir forças. Quase sempre perco. Por isso, não retiro porra nenhuma de queixa. Vai ficar lá. É meu seguro de vida.


Ouvindo David Bowie "Never Get Old" para me inspirar.

(Rever a paragrafação. Algo estranho)

8 de abr. de 2004



Quinta-feira santa. Abril de dois mil e quatro. A coelha me respondeu, com o coelho vou jantar. Flores de Godiva quero para eles. E para meus leitores, hem? Textos claros, objetivos e íntimos seriam bem lidos. Vai lá, curta o final de semana santo, para depois nos detalhar sua concupiscência. Ninguém te recriminará pelos lencóis amarrados ao pé da cama. Sou duas bandas de um ovo de páscoa açucarado. Minhas idéias acendem o rastilho que me seduz. O delegado está me perdendo. Burro, não percebe; ou finge que não. Estou a derrubar uma muralha de confiança. O desconhecido me fascina, eis aí meu principal defeito. Sua principal qualidade. Se todos fossem assim...
Tua língua é um tapete, mas não é esse tapete da sala, não. É tapete de igreja. Será que é pisoteado? Há! Há! Há! Sendo assim, o Língua vai tirar férias. A partir de hoje, vocês vão almoçar no Pé Sujo. Quem apela perde. Não estou apelando. Só estou jogando com as armas que possuo. Mas eu estou desarmado. Eu também. Eh? Os homens da guarda não estão de prontidão. (ão-ão-ão. Voltar para corrigir o eco)

7 de abr. de 2004

PUBLICANDO COMENTÁRIOS, ACEITO CO-AUTORIAS

Maria Luíza comentou: Ler os teus pensamentos já virou rotina pra mim...e-mail, seu blog, icq... mas eu nem me toquei que você continuaria o DiCla, deixei outra mensagem lá no post do gatinho...
beijos, gatinho :)

Marcinho respondeu: Lu, minha querida, estou transferindo todos os arquivos do DiCla para o Blogspot. Lá guardarei meus segredos que divido contigo; com todos. (Minha intimidade resvala numa ficção de querer ser) Aos poucos estou ajeitando o templante, visto que não sou webmaster. Um pouquinho todos os dias, chego lá. Lá?! Onde? Onde é o advérbio que melhor sei pintar. Beijos de mudança. ;-)
A vida é um show. Celebridades e heróis no espetáculo da mídia

6 de abr. de 2004

Tatah,

Abre parenteses, volto para te dizer, não tentes encontrar sentido naquela vida sem razão, ele não sabe mais o que escrever. Apesar de ler e ler e ler. Apesar de anotar e anotar e anotar. Estou sendo claro, querida? Não!? Ouça, vou te dar uma sugestão, uma dica, uma motivação. Estou te mostrando um afloramento, não rochoso, mas inconsciente. Talvez, as ferramentas que porte não lhe sirvam. Calma. Há saída, estreita, nem por isso escuras. Se te parece que me jogo como um bilboquê, pode ter certeza. O cansaço tem vencido minha vontade de escrever. Vontade que dúvido que realmente exista. Fecha parênteses.
Mordi os dedos do meu desejo para soltar verbos abundantes de tão defectivos. As copilações das copilações me exploram e me abrem e me enxortam. Associações me resgatam daquilo que faço questão. Já que os trabalhadores insistem em manisfestar seus pontos de vistas, vamos, a partir de agora, transcrever suas falas. Silêncio. Meus dedos a procurar a combinação no teclador virtual.

5 de abr. de 2004

Duas tequilas, vários beijos. Disse-lhe "de jeito nenhum" com convicção. Até onde vai a paciência do praça?

Vou parar com essa história, minha networking está se exaurindo, a não ser que eu redirecione meu público. Hoje não. Estou com cãimbra nos lábios.

3 de abr. de 2004

Enquanto não concluo minha relação de links. Vou adolescendo:

Minto.
A mentira dos pistilos,
Dos pistolos polenizados,
Por abelas, colibris e o vento.
Do vento que chove,
Da enxurrada que me arrasta para um final recomeço.
Um começo primário,
Primário de berço,
Berço de pólvora, que preciso senti,
Que preciso tocar para depois engolir.

E para depois ruminar.
Um bolo de pétalas para a massa pisar,
Pisotear com vontade como fosse matar.

Somos versinhos louquinhos para impressionar,
Quem desconhece a cultura das fotossintetizantes,
Bactérias guerreiras a nos dentrar.
A nos comer por fora.

E por fora é saboroso.
E libidinoso.
E muito, muito mesmo meloso.
Ácido meloso, que me dessarruma as tendões.
Que me acelera os intestinos.

De novo para dentro.
De novo para fora.
Como se estivesse me socando o feijão.
Fazendo paçoca.
Do meu coração.

São oito horas,
Ele acabou de chegar do Batalhão.
Condeno covardes, ao mostrar compaixão.
Se assim quiserem, digo perdão.
Lamento mentir,
Quando digo não.

2 de abr. de 2004

Não entendi o que o Neto quiz dizer com a frase "mas, para aqueles que estão apelando até para o blogspot". Talvez seja pelo fato do meu mergulho na sopa de sépalas. Minha psiquê se aperfumou. Foram emoções encarrilhadas pela locomotiva à vácuo. Minha língua adocica os proxenetas. (Tatah, estou a inverter tudo. Desejo-lhe boa sorte na tradução.)

Que dia! Uns me jogam na cara que moro de favor. Outros, me ameaçam me quebrar com tonfadas e por fim, meu amigo, meu único amigo, me constrange.

Rosas vermelhas seriam a melhor escolha para matar o jardim da mamãe. Olhe o bay-window. Mais uma fatia de Marta Rocha? Aceita um pão-de-queijo? Marcinho sirva-se sem se preocupar, o suflê de camarão não chamará sua alergia de volta. Foram fotografias nas mãos de um profissional. Havia mulheres tanquinho, rostinhos petalados, me chamando de Cicinho. Sotaque do interior, hábitos cosmopolitas.

Amanhã durante o churrasco abrirei explicações. O coreto me fecha os sentidos. Ele me tolhe as palavras. Estou... Que susto levei. Quando ouvi a notícia que o Fornazze havia estado lá na floricultura. Não sei como ele passou pela porta. Sei que ele foi simpático. Intimidou com carinho. Jogou a 765 em cima do balcão para garantir um desconto. Quando voltei para loja, a peãozada queria saber quem era meu amigo. O Marcinho não está? Vocês dão muito folga para ele. A gozação foi generalizada, quando voltei para o coreto, (afinal, estou algemado à ele) mas me mantive sereno. Não vou perguntar-lhe se metade do que disseram é verdade. Que seja! Amigos são a família que a Vida nos permitiu escolher.

Havia escolhido, passar a tarde na biblioteca, cheirando as páginas do falado Ulisses. Sentei-me, ali mesmo, na poeira biblioteca, como se estivesse sendo derrubado pelo livro. Lá estava escrito porra. Fechei-o quando me senti o mais afortunados dos homens. Foi Joyce que me possibilitou vestir minha camisa, sustentar minha verdade. Minha auto-confiança incomoda. Há seres que nem podem ouvir minha voz. Tolice, sou incapaz ser e de escrever o que quer que seja com um mínimo de sexo apeal necessário. Tenho receio de registrar o que se passou e meu tutor possa vir a ler. Pior. Que alguém possa vir a me interpretar mal. São meus medos, erros injustificáveis.

O fulaninho disse algo que me deixou melecado: "não ando com entendidos, senão a sociedade vai dizer. Como cantava o Jair Rodrigues? Deixe que digam, que pensem, que falem... Minha memória me trai, vou para casa documentar os fragmentos que o balanço do baú me permite. Espero vencer a tentação. O postinho deve estar lotado.

1 de abr. de 2004

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Vulgo Dicla,

A toda hora a Pezinho passa pela minha mesa. Minimizo sem hesitar. É uma carta de amor para a morena da fila, digo. Ela ri e torce e incentiva. Muita sujeira por aqui. Um espirro de texto para não me perder do vício. Outra vez, faltei a aula. Não beijei na boca. Quando gosto de alguém, faço doce até açucarar. Ele me ligou libidinoso, além do esperado. Não trai meus votos, sigo a retidão dos espantalhos. No final de semana volto para corrigir seus erros. O vernáculo está escangalhado. Até!

Dicla,

Sabe esse telefone no qual você está sentado. Tirá-lo do gancho. Murmure palavras confortadoras para só a mim. Desde ano passado padeço do peso do piano e não há mais ninguém ao meu lado. Todos sairam para o chá. Fui restando debaixo da cama. A mesma cama onde te escondia dos olhos inquisidores dos Bolas de Pêlos. A guarnição chegou, depois a gente se fala.

31 de mar. de 2004

Sinto vergonha das prateleiras amassadas do meu nem querer ser. Inicia-se assim o aspiralidade multidirecional. São só cores. Amarelo, vermelho e no extremo, forte, agressivo e punhal o azul que antes era celeste, ainda pouco era piscina e hoje me parece que vai ser anil. Dentre três segundos a Anilada surgirá poluindo minha pele com cortisona. Assistirás a conversão de lírios laranja em cravos carmim. Tudo flor, nunca fruta. Já desconfias de onde estou? Pois é. Lá está o menino do muco condenado a arrancar letras do formulário. Culpa da adega, do vinho, da culpa e da vulgaridade. Vais mudar de assunto? Se me permite vou sim. Que a concomitância me rasgue do umbigo a cova do queixo.

Aceito morar nos braços do comandante máquina dois, mesmo sabendo que ele representa as arbitrariedades forjadas na quadra de basquetebol; a mesma que servi de goleiro. Ralava-me sobre o sangue de outros alunos ativistas exasperados e nem sabia. Preciso ler mais a história. Preciso ouvir a história com que ele me seduz e me apavora e me indigna. Quarenta e duas horas de Caramdiru. Meu Caramdiru se chama Papuda. E as impressoras ligadas, os telefones tocando, os faxes chegando, o fluxo a nos atropelar, nem vejo, nem sinto. O gosto do vinho tinto ainda me queima a língua. Disse, ontem, que não ligaria, mas minhas mulheres me jogam em masmorras de couro. Vai lá, Marcinho. Vai ser nossa isca. Golf automático prata filmado. Sentei-me no estofado de couro, como se fosse de costume, tive a impressão que estava sendo filmado. Mantive-me cauteloso. O pertubado que chamo maldosamente de paranóico estava lá a me surrurrar palavras de seda. Continuo depois, está muito sujo aqui.

30 de mar. de 2004

Dicla, bom dia!

Ainda sobre o fulaninho, decidi o seguinte: se sonhasse com ele, ligaria; senão, esqueceria. Posso ter sonhado. O treino foi tão puxado, chequei em casa tão quebrado que nem banho tomei. Dormi de sapato no sofá. Mas antes de chapar, me lembrei que eu tenho prazos a cumprir. Setembro logo chega, e o livro não estará pronto. A Tatah merece. Não posso decepcioná-la de novo. Isso significa... nada. Foi apenas um sentimento de incapacidade. Logo estarei de volta.

Voltei. Quer um pouco do meu veneno? Estou emputecido. Dormi mal; estou em dúvida; minha voz se esganiçou; não tive nenhuma aula; um indeciso leva duas horas para escolher um vaso de orquídea; o motorista se recusa a seguir o meu intinerário e uma floricultura conveniada tenta me lubridiar e por fim acabo de esfregar nas minhas têmporas um perfume para noite.

29 de mar. de 2004

Não sou mulher para você. Você é homem demais para mim. Ele me soltou do abraço, mas me pegou pela mão, segurando com firmeza. Queria saber como aplicar o golpe que faz com que o outro solte a nossa mão. Existe, não? Existe sim. Eu posso te ensinar. Ele me soltou completamente. Dei as costas e saí caminhando. Olhei para trás, ele permanecia na mesma posição. Joguei-lhe um beijo, para imediatamente, voltar-lhe as costas. Seu preconceito é mostruoso. Prometi ligar, não hoje; outro dia não sei quando. Dicla, o Naz chegou depois a gente continua. O fulaninho é um homicida, é o que queria lhe dizer. Processo de trezentas páginas. Não foi medo, nem mesmo da pt.40. Eu tenho um compromisso com o Fornazze. Não sei servir a dois senhores. Prezo minha vida. Sou um homem de palavra.

27 de mar. de 2004

"Tudo bem, tudo bem. Mas realmente não gosto que me visitem sem me avisar antes -- sempre estou ocupado ou fazendo alguma coisa ou etc. (...) Uma boa idéia, rapazes, é LER LIVROS, aí vocês verão que nem sou tão original (etc.) assim.

(...)

Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas -- Robert M. Pirsig
A Montanha Mágica -- Thomas Mann
Admirável Mundo Novo -- Aldous Huxley
Estórias de Fadas -- Oscar Wilde
A Revolução dos Bichos e 1984 -- George Orwell
Capitães de Areia -- Jorge Amado
O Encontro Marcado -- Fernando Sabino
O Apanhador no Campo de Centeio -- J. D. Salinger
Discurso sobre a Servidão Voluntária -- Etienne de la Botie
O Senhor dos Anéis -- J. R. Tolkien
Sidarta, Demian, Narciso e Goldmund e O Lobo do Estepe -- Hernan Hesse
Histórias Extraordinárias -- Edgar Allan Poe
Fundação -- Issac Asimov
A Vampiro Lestat -- Anne Rice
Feliz Ano Velho -- Marcelo Rubens Paiva

(...) autores interessantes: Júlio Verne, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade e Colin Wilson.

[há] milhões de outros livros jóia. (...) Boa leitura!"


Entre a Displicência e Pressa, Senhoras que ditam a pauta da minha Agenda. estou a celebrar a estupidez do poeteiro. Não foi bem isso que ele me pediu, mas como a Brasiléia Teimosa me habita, personalizo seu verso à minha maneira. Quarenta e quatro poemas disfarçados em letras de música a me traduzir a alma. Eis uma forma eficaz de lubridiar as consciências alheias. Necessito ser claro: Feliz Aniversário, Tio Renato.
Do Música para Acampamentos (1985-1992):

Daniel Na Cova Dos Leões

Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo:
De amargo e então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento

Fez casa nos meus braços e ainda leve
E forte e cego e tenso fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.

Faço nosso o meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante.
A insegurança não me ataca quando erro
E o teu momento passa a ser o meu instante.

E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão:
Teu corpo é meu espelho e em ti navego
E sei que tua correnteza não tem direção.

Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não esta lá porque não vemos.
Dicla,

Como eu havia dito, cá estou a ascender poemas do bolo de aniversário do poeta. Um a um, conforme o Dr. Tempo me permite. Vou mais tarde memorizá-los para, na hora do jantar, recitá-los aos meninos e meninas. Eles têm muito a aprender, alguma coisa posso lhes ensinar. Assim, dobro meu lucro: aprendo muito mais e conservo o Renato bem aqui, dentro de mim.

26 de mar. de 2004

Querido Dicla, como estás?

Acabo de descobrir que tenho um problema grave. Decorrente da cerimônia de ontem. Os eventos improvisados de tão apinhados aguçaram minha auto-percepção. Chuva de papel prateados levou os recém-celebridades a acreditar que seria a derradeira chamada (espero que este clichê, te ajude, a entender o que estou lhe dizendo. Mas claro do que isso, não posso ser. Tu te lembras, não, da nossa estratégia? Rebuscar e embralhar e confundir o máximo possível, de forma que se algum indesejado nos descobrir. Poderei dar a desculpa que estou fazendo exercícios literários, nos quais a retórica se aloca do cotovelo ao nariz da minha orelha. Basta de digressão, vamos aos fatos)

Aquilo lá foi o excesso do Americel Hall. Acústica de Forró. Protagonistas estereotipados. Havia, eu, sido convidado para figurar uma produção caseira. Aplaudir efusivamente era minha função. Cumpri-la conforme a contrato. Sou profissional, em relação a ser dissimulado. No resto sou um puto amador. Nem cobro a massagem dos clientes que me apetecem. Concentrei-me no discurso do Senador, aquele que violou o painel do Senado, te lembras? Eu não me esqueci, nem posso, nem quero. Era um trem de clichês furando meu ouvido. Senador, se fosse para furar minha orelha, o senhor não deixaria, né?

Na hora da saída, para enfrentar a multidão engaiolada (só para usar o adjetivo da moda), me protegi atrás da camisetinha da Pesinho. Alinhei minha coluna e segui uma trinha que me livrasse de ser transformado em extrato de tomate.

No mesa da ceia, não consegui disfarçar meu cansaço, (era a segunda noite que iria dormir depois das 2h da manhã). O táxi me levaria para casa, se não fosse a carona de um estranho.
Desculpe-me o leitor que possa vir a ler isto. Se aquela era minha paga, vou querer sempre ser figurante. Quando não tem gata, caço com mesmo cão. Sem nenhum sentimento de culpa. Qual é o meu problema? A Ficção me proporciona mais prazer do que a Realidade.

25 de mar. de 2004

Estrutura narrativa fragmentada: Memórias Sentimentais de João Miramar (Oswald de Andrade)
Origem: Mallarmé
Teórico:Hugo Friedrich
Pesquisar sobre: Sergei Einsenstein (cineasta russo); lógica da Montagem (técnica cinematográfica). Cubismo; Guillaume Apollinaire (manifesto); técnica de colagem.

Veja bem, é assim que eu gostaria:

"A estação da Luz estacou na quinta manhã com embarques esportivos para disputas foot-bolares de cores vivas nos estádios rurais.Matutos matutinos pullmavam civilizações E meus olhos morenos procuraram almoçar os olhos de prima Célia. A laparotomia da adolescência cortara-lhe rentes bochechas com próteses minúsculas de seios e maneiras de caça presa com cachos. O mato despencava hangars viários e alequais na linha." (pág.63-epsódio 57.Hinterland)

Futurismo propunha a técnica de "palavras em liberdade", destruição da sintaxe (ausência de pontuação, verbo no infinitivo, abolição de adjetivos, advérbios e conjunções)

Exemplos:

"Secadores cilindravam primeiras provas em desenvoltas fitas quilometrais.Escuros salões conduziam por mata-burros unidos e sorrateiros faróis reveladores.Tanques fixavam secretas maravilhas de luz para matinées e soiréss de écrans." (pág.79-epsódio 99.Laboratório)

Inversão de palavras
"...É o gru-gru dos grilos grelam gaitas ..." (pág.69-epsódio 74.Sal O May)

Onomatopéias
"Dez horas da noite, o relógio farto batia dão! dão! dão! dão! dão! dão! dão! dão! dão! dão!" (pág.78-epsódio 96.Bar)

Associação de cores, formas e sons
"... No desabar do jantar noturno a voz toda preta de mamãe ia me buscar para a reza do anjo que carregou meu pai." (pág.46-epsódio 3.Gare do Infinito)

Simultaneidade
"Bicicletas levantavam coxas velhas de girls para napolitanos vindos da Austrália. E Isadora Ducan helenizava operetas no Hipódromo." (pág.59-epsódio 47.Sonho Square)

Citação de aspectos da vida moderna
"Municipal Bar Teatro e Câmara
E o revezar dos pares e dos solos
Salas de espera de cinema..."

(pág.83-epsódio 108.Jogo do Bicho)


Características próprias de Oswald:
- neologismo "Losangos tênues de ouro bandeiracionalizavam o verde dos montes interiore" (pág.66-epsódio 66.Botafogo etc) (grifo nosso)

- uso de palavras extrangeiras - "Auditório de fascistas sicilianos com professorado cowboy no cisne de zinco e palmas." (pág.75-epsódio 89.Literatura) - (grifo nosso)

Características minhas:
Jargão
Atenção com a gramática.
Uso de metáforas
(_________________)?
(_________________)?
(_________________)?


Procurar na BCE
ANDRADE, Oswald de. Memórias Sentimentais de João Miramar . Editora Globo, 12a. ed. São Paulo, 1999.

ATAÍDE, Vicente de Paula. A Narrativa de Ficção. Ed. McGraio - Hill do Brasil Ltda. 2a. ed., São Paulo, 1973.

ÁVILA, Affonso. O Modernismo. Editora Perspectiva. São Paulo, 1975.

CAMPOS, Haroldo de. Estilística Miramariana em : METALINGUAGEM & OUTRAS METAS. Editora Perspectiva, São Paulo, 1997.

CAMPOS, Haroldo de. Trechos Escolhidos por Haroldo de Campos/Oswald de Andrade. Editora Agir, 2a. ed. Rio de Janeiro, 1977.

CANDIDO, Antonio. Presença da Literatura Brasileira. Editora Bertand Brasil, 10a. ed. V.2 Rio de Janeiro, 1997.

COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil Colonial. Era Moderna, vol. I.

JACKSON, Kenneth D. Arte da Sátira em Memórias Sentimentais em: VANGUARDA CANIBAL. Editora Perspectiva. São Paulo, 1992.

Transpor a estrutura sócio-espacial para a narrativa. A forma como será contada a história refletirá a categoria espaço. A medida que o personagem desloca-se pelo espaço muda-se a narrativa. Ler Milton Santos, Corrêa, Armando (Pesquisar em outros epistemólogos espaciais), Edgar Morin, Harbemas.

(Voltar para inserir os links.)

Está faltando uma pá de gente, mas agora chega de "linkar". Meu terno chegou. Vamos nos vestir para a colação de grão da Dentinho.
Sou uma mula imbecil! Acabo de descobrir que o problema era o template do Blogger. Vou ficando com este template mesmo. A mudança vai começar. Só espero que não se perca nada pelo caminho. Sinta o barulho do motor, aprecie a paisagem. A viagem será longa.
Mesmo desconfigurado vou publicar, depois conserto esse monstro.
DiCla,

Estou pensando quando a Tatah te receber de presente. Meu caderno aspiral com letra de seminarista. A felicidade se enrubecerá para sempre naquela pele de Branca de Neve. . As nuvens correrão para testemunhar o evento. E os Deuses as assoprarão para longe, com inveja da visão privilegiada de setembro. Isso mesmo. Vamos estabelecer prazos. Até sete de setembro, tu estarás manuscrito e até vinte de dezembro o primeiro rascunho estará pronto. (Primeiro rascunho? Não acredito que andas me traindo.) O sonho da Tatah se realizará, não poderei corrigir nenhuma vírgula displicente. A prova do meu crime está aberto para pespicácia da minha aluna. A crítica literária pousará sobre tuas páginas. Estarei longe, infelizmente. Que conclusões ela chegará? Ela perderá tempo contigo? Não sei. Nem nunca saberei. Tu és, agora, minha montanha de arroz para amassar. Um grão de cada vez, como nos ensinou a parábola. No mais, adoraria que seus leitores se manifestassem em relação a nossa verossimilhança. Chega um momento que consigo mais me ver no espelho.
Abraços,
Seu diarista comprometido.

P.S.: Vê se me responde, já me basta o silêncio da geladeira.
Deixei de comungar para sentir o punhal fatiando minha carne. Penumbra. Buracos onde se plantarão mangueira. Corpos luxuriosos. A morte do indigente não será investigada. A caminho de casa, fustigado por cólicas, fiz do pé do muro o alívio da minha insensatez. Uma nota de um a dez. Cinco para o primeiro, cinco para o segundo, três para o último. Na média, a noite foi insatisfatória. O céu azul claro lembram os olhos da minha avó materna. Volto para cama, meus olhos estão cegos de sono.

24 de mar. de 2004

Perdi a batalha. Derrotado, me joguei no sofá da sala. Nem ânimo para tirar os sapatos, tinha. Nem mesmo um pré-adolescente escreveria um texto tão simplório. E eu achava que seria meu primeiro trabalho como ghost writer. Foram dez horas rabiscando sobre o mito de fundação do território napalense. Devolvi os cinqüentas reais. Posso não saber dissertar, mas não aceito receber por um trabalho que me envergonha. (E eu, não envergonho você? Claro que não, né? Sou diário tranformado em vaso onde você alivia sua ressaca. Estou cansado do meu diarista. Ele reclama demais.) Vou estudar meu manual de redação, mesmo sabendo que já perdi essa Guerra.

23 de mar. de 2004

Ontem foi a dia mais importante da minha vida. O Felipe e o seu parceiro Carrara (se não me trai a memória) parecem um animal quando à mesa. Sou grato ao Sd Fornazze por ter me proporcionado um Dia de Arquimedes. Gostaria que todas as pessoas experimentassem, ao menos uma vez na vida, o prazer da descoberta. É isso! É isso! Eu correndo pela casa com as mãos molhadas com espuma de detergente. Visualizo, finalmente, o divisor-de-água sem ajuda de estereoscópio. Como prova da minha gratidão, o Felipe servirá de suporte para um dos meus coadjuvantes, será vínculo da minha imaginação com a realidade.


Tentar inserir Heureca! Heureca! (Achei! Achei! ) no texto.
"Cama de tatame". Eles dormem numa esteira. (Pesquisar sobre)

22 de mar. de 2004

Era como se eu tivesse sido pisoteado. Os berros me impediam de ouvir o curió cantando. O sangue me escorrendo pelo nariz, um filete escorrido até o queixo refletido no espelho. Detalhe, que faria toda diferença para mim. Se não bastasse o incidente, agora ele me obstruia a saída do banheiro. Em pé na porta, com o braço estendido, me oferecendo o lenço azul-marinho. Você também, pede. Eu não queria ter, ainda, que ouvir aqueles esses chiados. Me recordo da leitora dizendo que ele é alguém que eu gostaria de ter. Droga! Eu só faço merda nessa porra de vida. Posso imaginar os comentários, Marcinho, Marcinho, o que está acontecendo? Não aconteceu nada. Estou, apenas, tentanto colorir meu cotidiano nublado. Os vários tons de cinza não me dizem, absolutamente, nada. Mas, o filha-da-mãe sabe escolher uma gravata como ninguém. Ele aprendeu a viver com uma "corda" no pescoço. Eu não consigo conviver com essa coleira eletrônica. Isso é policiamento. (Que nada! É apenas um à-toa sem nada melhor para fazer. Ele acredita que escrever lhe trará clareza. Pode até ser, mas não no caso dele.)

O fato da remessa de rosas chá terem chegado quebradas, como se tivessem sido pisoteadas, me serviu de inspiração nesse texto. O mesmo é a mais pura ficção. Se vejo minhas mãos sujas de sangue, meu sangue, é apenas uma alucinação advinda da minha intolerência ao que me é necessário. (Voltar para substituir o verbo "ser".)

19 de mar. de 2004

De: "Neto Cury IG" < - @ig.com.br> Adicionar endereço
Para: "Marcio - " < - @yahoo.com.br>
Assunto: Gripe,_febre_e_os_cambáu!
Data: Fri, 12 Mar 2004 19:38:52 -0300

Febre, vírus, nariz entupido!
Pra que porra você quer lencinho perfumado??????????
hahahahaha
Abraços e vê se sara!

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O e-mail do Neto me reporta ao fato que desde o dia sete de março estou convalecendo da gripe do Waldomiro. O Zé já está firmão, despachando no Planalto, e eu aqui só, cof, cof, cof. O bom de se estar gripado tem sido o estrago que a Dona Tosse tem causado à minha garganta. Em tudo há um lado positivo e sem querer ser a Poliana, já sendo, estou entusiasmado com os meus graves. Ninguém me reconhece. Rapaz! Você está com voz de gente. Ou: Bom dia! Eu poderia de falar com o Márcio? Sou eu, Renan. Não está me reconhecendo? Caraca, véi! Que voz é essa? Resolveu virar homem?

Feliz com a evolução da minha personalidade --de meninino de fralda a jovem maduro, sai para testar a potência dos meus graves. São as chuvas de março, quando os trovões ecoam dentro mim. Precisava saber se o humor do Fornazze já havia se estabilizado. Adianto o final desse capítulo, ele continua o mesmo grosso, estúpido e bronco. Fumar deitado na cama é uma falta de educação que estou aprendendo a tolerar. Não interessa se a cama, a colcha, as cortinas, o carpete e o Márcio, são dele. Mandei-o que fosse fumar na varanda. Por acaso, teria sido à-toa os dois finais de semana carregando saco de terra na costas para plantar as pacovás. Ele me quer nervoso. Ele se delicia ao ver que não tenho medo da sua autoridade. A jardineira foi transformada em cinzeiro. É adubo, Pincel. Não sabia que você tinha virado minhoca. Opa! Somos nós, quer agora?

Deixei-o sem resposta. A ausência de rugas na testa e o seu olhar fixo na candidata de sorriso branco me mostravam que ele estava zuando comigo. Então decidi jogar (de acordo com minhas regras). Assim que entrou os comerciais, após comentar algumas propagandas, me despedi dele com um tapinha nas costas. Só isso? Volta, aqui, rapaz! Espera terminar o programa. Ainda está chovendo forte. Diga que vai me deixar em casa, ou chama um táxi. Eu tinha uma resposta na agulha. Porque, você, não dorme aqui? Nessa cama não cabe nós dois. Você sabe que não posso. Não pode o quê, rapaz! Deixa de frescura! Seja homem! Diga para sua tia que você vai dormir na casa de um amigo. Pelo que me consta, você já atingiu a maioridade jurídica há muito tempo. Tchau, Naz, almoçaremos juntos amanhã? Escolhe, ligo para sua casa dizendo que você foi detido, ou você liga para lhes dar uma desculpa qualquer?

Seus olhos imóveis conseguiram me intimidar. O trovão que soava lá fora, era um pio perto do trovão que me deixara mudo. A voz que antes me intusiamara, não fazia frente ao homem que me barrava a passagem. Eu preciso ir embora, Naz. Meu material está em casa. E a gente não pode pegá-los, antes de eu lhe deixar na UnB? Eu olhava para chuva lá fora; para as cortinas balançando; para o carpete amarelado queimado de cigarro; mas não lhe olhava nos olhos. Lá dentro havia um rottweiller, em posição de ataque, pronto para defender seu território. Tentei desviar-lhe a atenção, concentrando-me na moça que acabara de ganhar um carro zero. A prioridade dele era outra. Peguei o telefone, liguei para casa, avisei a quem atendeu que passaria a noite na sala de reserva da biblioteca reescrevendo um capítulo da minha monografia que eu deveria entregar hoje. Nem um sorriso, o vencedor soltou. Já havíamos estragado à noite.

A chuva parou, mas não havia estrelas no céu. Deita no canto. Deitei-me e me virei para parede. A luz se apagou. Ainda lhe pedi que deixasse a porta da varanda entreaberta. Quando senti sua mão procurando minha cintura, virei para ele e desejei-lhe que sonhasse com os anjos. Não me lembro com que sonhei, só sei dizer que acordei sem despertador, bem disposto, descansado e sem dor-de-cabeça. Dos pãos dormidos, ele fez torrada. E a flor que enfeitava a bandeja ainda estava molhada de chuva. Você tossiu a noite toda. Agora ele sabia porque eu não queria ter dormido com lá.

Voltamos para ficar, porque aqui é nosso lugar.