"O único aparelho de escuta que eu tenho em casa é um estetoscópio."
Antonio Palocci Filho
(Ministro de Estado da Fazenda)
Este post para vai para o leitor que me pediu três sugestões de leitura. Se não me bastasse a Branca e o Pônei a me perguntarem: o que eu leio? O que eu leio? Eis que me surge do ciberespaço esse querido inquisidor.
Não ouça Puccini antes de tomar a primeira xícara de café do dia. Com certeza você irá no apartamento do amado procurar pela escopeta escondida. Não escutei o conselho. O punhal não servia. Há sangue, demais, escorrendo pelo asfalto. Como se os projéteis não fossem arrebentar todas minhas emoções. Como se eu não precisasse me trancar no quarto.
Protegido de mim mesmo e dos beijos incandecentes, guardaria as sobras de pizza perto do coração, ou num cu de judas qualquer, quem sabe na fronteira com o Equador. (O jantar estava delícioso.)
A congregação de lobos. Congresso decadente. Samuel seria um anjo macio a nos polinizar. Sinto-me um herege, invocando seu nome. Samuel. Ipês brancos. Vô Samuel nos chamando para colher flores em Lácio. Naquele dialeto vejo-me déspota, orgulho da mamãe. Analfabeto cometo parricídio, sem contar outros crimes lesa-pátria.
Daniel, meu irmão, onde está você? (Não é você Gaudz e sim o parceiro do Pônei. Aquela dupla da RPMon que comentei contigo ontem à tarde.) Sinto saudade do molho de chaves, do passeio de moto ( a perna queimanda), do bolo de laranja, as piadas, do lenço. Eu poderia te ligar, ou te escrever, mas prefiro compartilhar da dor de pessoas que não existem. Personagens que não surram. Ciumentas, é verdade. Mas tenho mais domínio sobre elas, do que tive sobre tua imaginação. Minhas prioridades tem sido outras. Nosso passado me serve de húmus. Sinta-se um privilegiado, portanto. Conheço pessoas que gostariam de ser retratadas por mim, mas nunca deixarão de ser o que exatamente são: anônimos. Especula-se até que num futuro próximo eu escreveria um romance sobre fatos testemunhados no gabinete do ex-Deputado L. E. M. Gente! Era apenas um cacto. Que inferno! Jamais, Daniel. As imagens tão fortes quanto o amor prometido sobrepõem-se sobre mim. Elas mandam, eu obedeço. Sim, Dona Morte.
Depois da manifestação, fomos namorar ao crepúsculo, às margens do lago Paranoá. O Critoën de porta aberta, o som no último volume. Uma música irrelevante, diante dos beijos estralados. Estávamos vulneráveis, demasiados expostos. Mas o amor nos protegia. Nosso engano demorava a se recolher. Disse-lhe que tinha medo. Ali não era o lugar mais apropriado para a gente, esquecidos, se mergulhar em abraços apaixonados. Alguém poderia estar nos observando de alguma janela. E mesmo se tivessem nos observando, pensariam que se tratava de um casal de namorados. O que somos de fato, disse-me.
-- Gostei de você ter tirado uma folga para me acompanhar ao protesto.
-- Quem lhe disse que estou de folga? Chegando em casa, você vai me ajudar a escrever o relatório.
Bravata. Nem cheguei perto do laptop. Mas, irritei-o bastante, ao perguntar como ele me garantia que na Esplanada havia 10 mil pessoas.
-- Você pode enganar outro, não um geógrafo. Com a fotografia aérea do local, eu te digo em cinco minutos quantas pessoas havia lá.
-- Caralho! Já te disse que o helicóptero não estava ali para isso.
-- Então, ele estava lá para quê? Não acredito que o governador tenha enviado snipers para sobrevoar-nos. Afinal, vocês estavam lá.
Ele me pediu que eu fosse esquentar a lazanha. Obedeci, convencido de que voltaria ao tema, ou me recusaria a desfazer os nós dos lençóis.
No táxi acompanhado de uma Gisele, sonhei que era beijado pelo Ouvidor-Geral. Um beijo miúdo, apertado, cheio de acácias mimosas e sulfurosas. Fitando-lhe nos olhos, disse-lhe: basta! A modelo nos observava através da volúpia enternecedora dos anfetaminados. Quem está articulando o golpe? Eu precisava saber. Testar as hipóteses, angariar fundamentos e provas. O distanciando impregnado desde anos castanha-com-ameixa, não me permitiria divulgar os nomes, tampouco devolver os livros apócrifos. Assim seria fácil demais. A calcinha de rendas brancas era de um perfume que dias atrás eu não pudera sentir. O Ouvidor-geral rindo do meu esquecimento entumecido, me causava repulsa. Sêmen dos querubins, garoto. Chamem as hortênsias, Doutor! Eu as quero cheirar também. A modelo me mordiscando os lábios escuros, meu lóbulo furado, meus cotovelos-joelhos-calcanhares. E o golpismo, Doutor? Esqueça isso, guri! Não sei. Mas se você quiser mando uma barca te deixar em casa. Queria ser Aquiles. Morrer naquele momento de fluídos orgânicos me escorrendo pela boca, me sujando a barba. Por fim, foi eu que procurei os finos lábios rosados da autoridade. Esta tua omissão me conduziu à fronteira. Aquele ramalhete de rosas vermelhas não era para mim. Porque você diz isso? O Ouvidor esquecera suas promessas, eu continuava fiel aos meus princípios. A modelo se afastara do nosso suor para poder se tocar sem nossa interferência. Agora somos nós, moleque. E eu desistira de formular perguntas, só pedia clêmencia. Já que o senhor faz questão, que seja carinhoso. Não quero me encontrar com meu proctologista antes do Natal. A modelo me prendeu a cabeça entre suas torneadas coxas de uréia, misericordiosa ela, e me ensinou a relaxar o esfíncter. Pude ver, então, a Verdade. Tarde demais. O sacristão se esforçava para me lembrar que os sinos controlados remotamente lamentam as perdas. As estufas com seus roxos lisianthus em botões. A edição fechada. Essa semana vai ser difícil.
Poesia no ombro largo do suspiro. Significa paz, explicara-me ele. Paradoxo: o polícia promovendo paz. Não sei como você consegue comer doce no café da manhã. Ele tentava travessar a enxurrada no desespero de ontem à noite. Oi?! Dedos estralando diante meu olhar perdido. Oi?! Beijo com gosto de papaya. O ideograma a me lembrar dos Cantos. A jornalista a mostrar destroços do terror. Ele passou a prestar atenção no jogo de imagens e voz, quando me emocionei. Terminada a reportagem, deitou-me cuidadosamente na cama, acomodou minha cabeça no travesseiro para que eu pudesse recordar da noite anterior. Mordiscou-me os lábios entre intervalos de doces beijos, literalmente, doces, daquele mesmo que me dissera que não conseguia sequer experimentar no café da manhã. Com tanto bolo de fubá, era de beijos que ele tinha fome. Eu preciso ir embora. Tenho que abrir a loja. Pede a conta, por favor.
O que se destinava apenas para comentar minha indelicadeza, desaguou na digressão minha de todos os dias. A poliglota poderia me responder a essa inquietação, já que se encontra on line, mas prefiro aguardar ser capaz, eu mesmo, de disolver minhas dúvidas primárias. Sossega, menino! Nada mais inverossímel do que lavar as mãos a todo momento. Você acerta ao errar... Eu prometera à Princesa, ao apresentar o croqui, que não complicaria o que por si só, apresenta-se intrinsecamente complexo. Mas, hoje de manhã, ao folhear o jornal, me convenci de que estaria talvez seguindo a estrela correta. (Não deveria ter vendido meu GPS.) "O estilo consiste em escrever como nos dá na veneta."(Sofocleto) Retorno depois. As idéias começaram, novamente, a se debaterem. Passado cinco minutos, interrompido por uma elegante morena de tailler rosa choque que me lembrou os holofotes ofuscantes, volto para finalizar o post. O que venho fazendo, bem ou mal, foi por causa de um alucinógeno. Não esperava te encontrar. Vagava. Nesses tempos de agentes da Polícia Federal investigando profiles e scraps, posso me comprometer por causa dessa confissão. Ressalvo, no entanto, que nesse espaço virtual não se faz apologia à entorpecentes ou se promove transações comerciais ilícitas. Minha pressepada passa por dentro de um branco afunilado túnel . Fique bem claro: branco! Ao me expressar assim, até parece que estou induzindo alguém a me ligar, até parece. Só não digo nunca, porque nunca é demais.
P.S.: Liga logo, caralho! Estou de saída.
Tolo sou eu. "Ôh! Se gosto de bater. Não foi por acaso que trabalhei dois no BOPE." Tentei mudar de assunto, mas ele queria me descrever seu doentio perfil de sociopata. (Você se envolve com cada um!) Por fim, ele concordou em escutar-me. A solidão deixara um vazio, por mais que gritasse por socorro, ninguém me respondia, além dos olhos castanhos prestes a me apunhalar. Dessa vez a volúpia e a dor não se encontraram.
Não era bem essa foto que eu gostaria de publicar, mas em tempos de liberdades individuais comprometidas, não convém divulgar fotos de pescoços. Obrigado, viu. Foi muito bom. -- dissera-me o cidadão que não pretendo encontrar novamente. Talvez eu tenha me esforçado demais. Poderia ter sido mais contido. (Pára de se lamentar. Você gozou, não gozou?) Não deveria ter me afastado das minhas leituras. Assim, me esqueceria de uma vez por todas que sou feito de carne. Na casa de swing da Madame Flor, reescrevi o manual de boas maneiras. O que até, então, vinha sendo minha imaginação resvalara-se na realidade. Grunhir do prazer, gemi no medo e gritei na dor. Embebido de volúpia, apoiei-me os sentidos na nuca do capitão. A língua da puta me serviu de bálsamo.
Calma! Não foi esse. Sou escrupuloso (vulgo caxias), tratando-se de bens alheios, a ponto de incomodar os mais sensíveis. Priminha, esse post é especialmente para você e seus amiguinhos. (Com licença, leitores do DiCla, preciso xingar.) "Que cara chato, amor!" -- ouvira antes de deixar a cozinha. Se estou responsável por duas empresas, quatro pessoas, mais a cadela, o hamster, os cinco peixes (ai! de mim se acontecer algo aos bichos) e as plantas (principalmente!) não posso deixar à revelia gastos, horários e compromissos. Há pessoas que, atentas, admiram minha dedicação e eficiência. O rosário, nem conto pela beleza, mas quem trouxe de onde, abençoado você sabe por quem, me serve de acalento. "Trouxe, especialmente para você, Marcinho." E a história do tempo fechado ficará para um próximo post, a indesejada chegou hoje mais cedo. Ainda bem, estou retorcido de fome.
Para moça que me descobriu no Skype. Como conseguiste? Isso é um gazebo. Conto com a tua discrição. [;)]
Dois posts no mesmo dia? Estou sozinho aqui no gazebo, aproveitemos, portanto. Sábado à tarde, liguei para a Princesa, aquele telefone de toda semana, para perguntar como ia a vida. Depois continuo, chegou gente.
Das lamas do Mar Morto faria um emplasto que Brás Cubas nenhum imaginara para me aliviar as ameaças proferidas e do estresse gerado pela visita retubante do policial militar (Meu Deus! Ele continua lindo maravilhoso); me livraria da incômoda lembrança da surdez temporária causada pelos gritos mordidos do Coronel (não, não era Aureliano Buendía); besuntaria minhas vísceras antes que abrissem o bufê, por fim cobriria, com a salgada lama, minhas alegrias enviadas, agora pouco, por fax, para Gardea. Não se iluda -- me dissera o diplomata -- Milão é uma droga. Há poucos lugares no mundo que realmente valeria a pena visitar. Gostaria de poder eu mesmo dizer isso.
P.S.: Desculpa-me o post atrasado, fui enforcado pelo fio do telefone. Sem mágoas, sem perseguição. Os papéis sociais voam. A qualquer momento a gente (eles, tu e eu) alcançaremos o Himalaia. (hehe) Alguém, aí, fala bhojpuri?

O vazio do meu silêncio resvala na minha ignorância. A novidade reside na lápide arrebentada. 14 de julho de 1946, 03 de março de 1980. Fiz o sinal do cruz por educação. Sei que ela não acreditava, nem gostava. Arranquei uma rosa amarela com a autoridade de filho caçula e sai caminhando ávido por um telefone público.


Toca telefone, toca. Levo-te para casa ou não? Olho o anti-romance servindo de peso para as folhas que minutos antes estavam espalhadas pelo chão. Na gabiente do senador, sou o garoto da suculentos e ninguém se atreve a me interromper. Um, dois, três cafezinhos seguidos. Sente-se. Fica à vontade. Minha primeira CPI. Podre em Brasília, são os pombinhos que insistem em fazer cocô na Praça dos Três Poderes. Tenho certeza que se trata de mais uma fantasia sexual do meu pai. Sim! Meu amante tem idade suficiente para me custear os estudos em Montpellier (E daí?) e tudo que escrevo se converge para ele. Óbvio. É para ele que declamo versos apanhados atrás da orelha da secretária que está acima do peso. Gostosinha, carne de segunda. Acém congelado no meu freezer carinhoso. Ela gosta e eu estou aprendendo a disfarçar que não gosto. Eca! Cuspo de lado. Ela ri. Cuspo novamente, dessa vez no cofrinho dela. Só o pensamento da possiblidade já a faz gozar. O pai, o meu, nem imagina e cotinuamos a correr pelo gramando detrás do Congresso. Não há nada de mais sair do gabinete às 21h e descançar os pés na grama puída. Denis, faz um favor? Olha até que hora a biblioteca fica aberta. Ele sai resmungando. Que isso! Só pedi um favor. Dissesse que estava ocupado. Um Senador da tribuna faz um discurso frouxo. Que péssimos assessores se escondem aqui! Onde estão os bom? Os bons bombons! Godiva na minha mesa. Mortos, mas são dois godivas e são gostosa e inteiramente meus. Será que eu conseguiria ler o monólogo da Molly, logo à noite? Deixa de ser Maria, Marcinho! Temos muitos documentos para analisar e a Comissão toda para... ixi! Fudeu. Despeço-me carinhosamente dos meus. Alguém atende o telefone, por favor! Eu saí. Na porta, o macho me espera. O teclado não ajuda, porra! De terno escuro e barba aparada, levá-lo para jantar no Chinês seria uma possibilidade e não tivêssemos no fim. Tu podias ter tirado a barba, poxa! Sou alérgico. Meu pescoço fica vermelhão. Vermelhão é a cabeça do meu pau! Fala mais alto, ninguém sabe disso. Acabei não lhe dizendo, querido DiCla, como me apaixonei pelo pela tradução do Houaiss. Em casa, a gente continua. Em off.
"Eventualmente, James Joyce ditava partes do seu romance Finnegan's Wake para seu discípulo, secretário e office boy Samuel Beckett, ao qual dava alguns centavos quando estes apareciam. Joyce reclamava que ''este negócio de ditar não funciona comigo'' quando bateram à porta e Beckett, que mais tarde escreveria três obras-primas do teatro mundial, não ouviu. Joyce disse:
- Entre.
Beckett escreveu este ''entre'' no papel.
Mais tarde o discípulo leu para o mestre o que ele havia escrito. Quando chegaram no ''Entre'', Joyce perguntou:
- Que ''entre'' é este?
- Foi o senhor quem ditou.
- Ditei, é? - E depois de uma pausa. - Então deixe ficar.
É por isso que Finnegan's Wake é incompreensível e Beckett aprendeu a lição: até hoje ninguém entendeu seus três romances."
A qualquer momento a inibição cede e voltaremos o olhar contrito para a alma verde do meu alter-ego que me pede para explicar, afinal, por que não mais me protejo dos cintos de couro que me torcem os dedos. São 9 horas, daqui a pouco o celular tocará. Minhas prioridades encaixotadas se mudam de perspectiva. A deriva... Consideram-me político, o que não significa que eu saiba me comportar como tal. A propósito, quantos graus me separam do Dr. Thomas Mesereau Jr.? Tomara que sejam poucos. ;)
Pardais verdes mortos no fundo da gaveta esperando minha boa vontade. Calças brancas de brim prontas para serem enforcadas. Eu intercalo hipóteses, debaixo do vespeiro desconhecido. Dor de barriga, dor de cabeça, pesada, densa, conhecida, que nem café pode substituir. Nossa pior semana sem a suposição dos mares equatorianos. Queria constrelações ao menos no café da manhã. Todavia, a forma cuja escândalo me proíbe torna-se perdida sob outro amontoado de passadeiras azuis. Nenhuma imagem me alcança o coração. Vou padecendo sobre a tela branca do editor.
Desde domingo, atravesso o deserto branco das minhas desesperanças. Tenho que ir ao presídio visitar um amigo que me tem como irmão. E a única coisa que consigo é empilhar frases desconexas. Há um sentido no caos. Até aí nenhuma novidade, no entanto, aguardo do lado de fora o trinco cair no chão. Não há mais segredo para ninguém: estou escrevendo um livro. Dolorosamente, estou a digitar o que me vem a cabeça, não deveria ser tão difícil assim, pois basta abrir as comportas da Itaipu e teríamos uma Buenos Aires cheirando a carne pobre. Entretanto, tenho lista de problemas quânticos a resolver. Ler como Aquiles tripudiou sobre o corpo de Heitor foi a mais fácil deles. Até porque trata-se de uma leitura preliminar, exploratória. Eu preciso mesmo é me disciplinar. Observe os arqueiros troianos.
Sente-se diante do frio muro de livros que se avoluma no chão próximo da sua cama. Nem criado-mudo a porra do veado possui. Além de bicha, pobre. Não há nada pior. Um sortilégio desfavorável, uma incapacidade de burilar palavras, doravante, signos. Um gay, que signo horrível, me recuso! Um pederastra que insiste em transar com as amigas que morrem de amor por ele. Eu não preciso ser amado, preciso impor respeito. O que só consigo ao folhear um caudaloso livro em castelhano. Sou o filho que a mãe se orgulharia, que o pai ignora. E não se tem o respeito adquirido porque perguntas se avolumam na minha caixa de correio.
Desculpem-me, mas estou andando de bicicleta na via Dutra. Estou em alto mar nadando entre famintos tubarões. Ainda bem que eles não apreciam a carne humana. Estou escrevendo. E para pirraçar os teóricos que se apresentam-se detentores da técnica literária, estou escrevendo um diário. Não só pela estradas cronológicas, mas também pela confissão...
Não consigo. Não consegui dizer à terapeuta, nem vou conseguir me expor esse tanto. Chega desse truquinho infatil de tão batido. Seus/meus leitores conhecem retórica melhor do você. Diz logo, diz que nós queremos rir da sua cara. Ele passou mão em mim. Só foi uma fez. Era noite. Ele foi na minha cama e me abraçou pelas costas, me alisou, me beijou. Até hoje, sinto na minha pele o hálito de pinga. Não tenho raiva, nem nojo, nem piedade. Apenas não consigo fitá-lo nos olhos. Não o quero morto. Tivemos alguns momentos divertidos quando ele chegava sóbrio em casa. Eu não consigo.
Minha tia me pediu para desligar o computador. Já se passam das 22h. Amanhã antes das 7h já estarei na loja. Estou enrolando para ver se me vem coragem, para ver se alguém entra no Messenger. O astrólogo me dissera para ter cuidado com a língua. Tagarelice é defeito. Meu pai. Está aí, disse, meio assim disfarçado. Se a leitora assustada me telefonar (já está enchendo o saco!), respondo que se trata de ficção. Sou intimista, carente e solitário. Frágil. E mestre em se fazer de vítima.
Querido colega de peleja,
Fiz-me de desentendido quando me perguntaste se eu iria à Parada. Resolvi aceitar tua provocação. Não fui, mas acompanhei on line e pelos telejornais o carnaval político. Aquela história de que viajam em média seis vezes por ano, me pareceu turismo sexual. Puro preconceito. Eles estão a procura do final do arco-íris. Não se dão conta de que o ponte de ouro já se encontra aos pés deles. Sabendo beijar, nunca vai faltar.
(Gay Parade -- São Paulo/ BR)
Secretaria Especial de Direitos Humanos (Brasil sem Homofobia)
Stonewall
Stonewall Revisited
Armário X
"Posso não concordar com nenhuma das vossas palavras, mas defenderei até a morte o vosso direito de enunciá-las." Voltaire (Fraçois Marie Arouet), 1694-1778, filósofo francês
30 de maio. Seria dado, senão fosse esquecimento. Ela gostava de tulipas. O tempo favorece. Vou encomendar ao fornecedor pelo menos uma dúzia. (Eis uma das vantagens de se trabalhar numa floricultura, hehe.) Se ela atender ao telefone, descreverei o perfume da minha saudade. Caso contrário, volto, resignado, ao teclado.
A verdade é que não consigo ser mordaz o quanto meus inimigos são comigo. "O Márcio está ocupado escrevendo o livro dele". Aquela frase foi pior do que um pontapé, ou pior do que um martelo rodado. Espero estar sendo claro, leitora. Tenho me empenhado muito. E nem mesmo elogios podem recupar meu amor-próprio. Por isso, talvez, tenha concordado em ir para cama com um sujeito que eu nem sabia o nome. Se virilidade valesse de alguma coisa, nesse exato momento eu estaria cantando. Não estou. Não há ritmo que minha voz possa acompanhar. São emoções sobrepostas que eu fui protelando, protelando e agora estou com as calças sujas. A embaixatriz que acabei de atender aqui na loja foi tão carinhosa comigo. Me abraçou, me deu três beijinhos. Se tivesse continuado com a greve, teria sido privado dos elogios sinceros e gratuitos. Não adianta. Ninguém duvida que ela seja minha cliente, pois é por mim que ela sempre pergunta. Ninguém dúvida que tem me agradado vir ajudar na floricultura, mesmo estando proibido usar o computador para fins particulares. Poderia dormir no apartamento do Fornazze. Sua ausência, se resolveria com a webcam ligada no computador. (Assim tenho feito.) Um local reservado, um rosto bonito, uma bunda gostosa. Quantos homens eu poderia ter numa noite? O suficiente para não ficar nenhum minuto sequer sozinho pensando em merda. Quando o Naz queria me convencer a fazer algo que me causava repulsa, me chamava de meu botão de rosa salmão. Eu podia sentir o gosto da iguaria nos lábios dele. Íamos ao meu restaurante favorito e de lá saia disposto a correr atrás de giletes, de fosse preciso. A boate enfumaçada não me provocava náuseas. As putas me tocavam sem me causar asco. E quando chegávamos em casa, eu exigia uma taça de ouro fundido, ou, simplesmente, um copo de leite tirado na hora. Meu copo-de-leite jamais se negara a ornamentar minha flora intestinal. A toxidade que me expele pelos dedos se dispõem a cometer leviandades como se eu tivesse apurado senso de equilíbrio.


