Você está de castigo, me dissera meu pai. Cárcere privado. Preferiria uma surra de cabo de rodo, assim estaria livre para correr debaixo do bloco. Daqui posso ouvir o pessoal gritando. Aos menos, eles podiam ser solidários com o meu sofrimento. São meu amigos, presentem quando não estou bem. Precisava mesmo era ir embora. Londres continua sendo minha primeira opção. E enquanto não obtenho uma resposta, vou relando as histórias de Sherazade. E pensar que eu chamava-os de contos de fadas. Algum progresso eu fiz.
O riso entalado sai nervoso. A empregada contando à amiga que a patroa só lhe chamava às 9h30. Nem parecia mentira. Ela falava com tanta naturalidade, mas sabemos do delírio que atravessa a mente da moça... Ah!, sabemos de muito mais. "Ela não sabe beber, Soraia, toma duas latinhas e já conheça a dizer bobagens, sabe?"
Também não sei beber, fiquei mexendo o gelo com dedo. O cálice esperando minha boca. Sou o menino do dedo verde, olha!, disse ao Conselheiro, antes de passar, carinhosamente, meu dedo nos lábios dele.
O beijo levemente amargo... me lembrava jurubeba, gariroba. Você gosta? Meu fígado adora, respondi-lhe já de olhos fechados procurando a boca que me ensinara a pronunciar Finnegans. Fainigans... Finnegans (caralho!).
Você é meu intelectualzinho, meu menininho. Ah! Se não fosse os filhos dele... Quer ir ao teatro comigo, amanhã? Vou te levar para assistir a estréia de Carmen. Com o Teodoro no papel de Don José... Nossa! Você já deu para todo mundo. Admira-me muito um ministro de carreira cometer uma falácia dessas. Apenas saímos juntos milhares de vezes, o suficiente para considerá-lo como meu caso, mas nunca fomos para um motel. Vocês faziam no mato. Levantei-me do colo, confortável colo nefasto. Suas mãos eram fortes, para minha surpresa. Fica quieto! Sem querer derrubei o cálice, ao esbarrar na mesinha. Gotas verdes pingando no tapete. Deixa eu pelo menos buscar um pano. Foda-se o tapete. Amanhã a empregada limpa.
E quando ele se levantou me puxando pela mão, perguntei-lhe as horas. Preciso ir embora. Amanhã a gente se vê, certo? Não quero mais assistir à ópera. Estou com ciúme. Queria te sussurar meus segredos. Amanhã, respondi-lhe. Se ele quissesse mesmo, teria me enviado flores, ou ao menos me ligado para desejar bom dia.