(Os astrofíscos devem fazer idéia de quem vem lá.)
6 de jan. de 2006
O rascunho que não fui capaz de escrever, ontem à noite, por causa de uma preguiça ensurdecedora
(Os astrofíscos devem fazer idéia de quem vem lá.)
5 de jan. de 2006
Laurence Sterne (1713 - 1768)
Não tem.
Não tem.
Não tem?!
Tem. Oba!
Pena que estejam de recesso branco.
Fundação Biblioteca Nacional
4 de jan. de 2006
Abacaxi corta o apetite
Márcio, vai almoçar! Agora, não. Estou escrevendo. E foi assim o dia todo. Vá almoçar. Estou sem fome. E o almoço? Depois. Mousse de maracujá? Deixe-a aí. Tem anis. Ahn-hã. Como se escreve hecatombe? Hmmm... o significado da palavra vai distorcer a idéia do texto. Mordera o nó do dedo da mão esquerda. Vasculhava a memória a procura de outro substantivo. Perfume achocolatado. Veio imediatamente a imagem da fumaça lhe penetrando a pele. As cinzas brancas calmamente depositadas no cinzeiro. O olhar desaprovando a partida compulsória. Telefona, assim que chegar? Lógico! E o beijo? Adeus. Escrever não mais afugenta o arrependimento da saudade que me estrala no peito. Se o Bruno soubesse que não mais será servido almoço aqui na loja, faria galhofa do meu apetite. Estou mandando a barca te buscar, 11h30, pode ser? Seria sua fala. Não te falei que você estaria melhor ao meu lado? Fantasiar a existência de um amante lhe ajudava a superar a humilhação. O Marcinho não almoçou hoje. Pode parar! Você fala que não é para se preocupar com ele. Não te entendo! A vida me empurra para prostituição dissimulada. Ninguém mais me agüenta ouvir lamentar a sorte. A aliança, trouxe guardada no bolso da paletó.
Ouvindo Edu Lobo cantar "Berimbau":
Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza, camará
22 de dez. de 2005
A ausência em todos nós
Uma imagem nunca será capaz de transmitir o alívio que ela estava sentindo. E podem chamar Milcho Manchevski.
Largou os cartões de natal em cima da mesa. Esqueceu o estabilizador ligado. Saiu descabelada pela casa, tropeçando nos brinquedos do caçula espalhados pela cozinha, com a gaiola do canário na mão. (Presente do homem lhe fazia gozar todos os dias por telefone.) Foi ao vizinho que lhe devia favores, pedir que cuidasse do seu filhinho, até seu retorno. "Eu sabia que aquele velho branco, gordo, peludo e barbudo algum dia me seria útil."
Ela estava em êxtase, sob efeito da espera dos últimos onze meses. (Ele soube induzi-la). Um comprimido, um gole d'água; mais um, outro gole; o último e pegou uma banana na fruteira. Comer uma fruta, lhe traria a certeza de que os comprimidos chegariam ao estômago. Foi ao banheiro da empregada e jogou suas cartelas de esperança no vaso. "Adeus, balinhas. Feliz Natal para vocês também. Deu descarga. "Nunca mais nos veremos." Olhou-se espelho, ajeitou a franja. "Já pensou em ser morena?" Passou pela cozinha, sem se comover com as louças ensaboadas, que ainda lhe aguardavam. Arrumou tudo de qualquer maneira e se despediu do escorredor de pratos, mandando beijo. Feliz Natal, meu amor! Para você também, phalaenopsis, Feliz Natal! (Regou a orquídea por desencargo de consciência). Boas Festas, Geladeira! Felicidades, Seu Fogão! Olhe lá hein, Dona Pia, não exagere na gordura; se despeça do tanque por mim. Foi fazer as malas.
No Rádio Táxi, demoravam a atender. "Alô? Bom dia! Por favor, eu gostaria de falar com o Ramirez." Olhou para o guarda-roupa. Franziu as sobrancelhas. Levaria apenas o chinelinho preto. (Outro presente do amante que ela só conhecia por fotos, voz e webcam). Pegou estojo de maquiagem (motivo de tantas brigas) e o colocou debaixo do travesseiro da cama da irmã. "Não vou mais precisar disso." Desistiu de levar mala. "Nem valise." O charme seria desembarcar sem nenhuma bagagem, além da edição de luxo, em original, D' El Ingenioso Hidalgo de Don Quijote de la Mancha. (Presente de quem? A não ser do homem que conhecia seus sonhos, seus segredos, suas pretensões.) "Ele me apoia." É por você que estou lutando contra esses moinhos-de-ventos. -- dizia a dedicatória escrita atrás da fotografia. Cheirou a contra-capa como se fosse o pescoço dele. Respirou fundo. Acreditava que não bastava ser bonita, gostosa, sedutora e elegante. Tinha que ser culta, mesmo que não fosse inteligente. Abraçou-se com o livro.
Banho tomado. Cabelos presos. Saiu apressada em direção ao local combinado com o amigo taxista. Se trancara a casa, não se lembraria. Pensava apenas em embarcar, na confirmação do check-in. Enquanto aguardava, em pé, em frente a agência bancária, tirou da bolsa o caderninho de capa de couro de búfalo e escreveu: "22 de dezembro de 2005." Lembrou-se imediatamente da avó; do velório, dos crisântemos brancos, da vontade de se jogar na poça de lama, da rama de philodendron, que quase foi esquecida. "Dona Virgínia, não se orgulharia de mim." Escreveu alguns versos com letra miúda, trêmula, ágil Fechou o caderno, sem ainda guardá-lo na bolsa. "Vou fazê-lo vir me buscar." Tarde demais. O táxi freara a poucos centímetros dela: "Oi, Gostosa!" Ela teve certeza que deveria abandonar aquela vida. Entrou no táxi, pediu que a levasse ao aeroporto. Contou-lhe a novidade.
Ofegava, se confundia, trocava data e lugares. Ele apenas balançava a cabeça: "Você, é doida, gata!" Mostrou-lhe as passagens para provar-lhe o que estava dizendo. Ele estacionou no acostamento. Pisca-alerta ligado. "Vai ter coragem de deixar a gente?" Ela prometera escrever todos os dias, sem censura ou vergonha. Enviaria-lhe fotografias nas quais ela estaria mergulhando num mar de recifes azuis. Ele pigarreou. "Se você nunca deixou-se fotografar, porque faria agora?" Ela estava quase arrependida de tê-lo chamado, quando ele contornou o balão do aeroporto. Ao estacionarem no desembarque, ele ainda lhe perguntou: "Vai mesmo?" Ela não lhe respondeu, preferiu beijar-lhe. Um longo, melado, profundo, beijo de língua, enquanto acariciava-lhe o zíper da calça de brin bege. "Quando você volta?" Ela já estava longe. "Antes do dia quinze", gritou, "Feliz Natal!" Por ela, poderia ser nunca mais. Rebolando mais do que de costume, encaminhou-se a balcão de atendimento. A moça pediu que se apressasse. Todos já haviam embarcado. Nem ouviu a atendente desejar-lhe boas festas.
21 de dez. de 2005
20 de dez. de 2005
Serenidade, Distanciamento e Boas Festas!
Felizes sãos as lesminhas a comer os brotos das phalaenopsis. Marcinho, você viu o lesmicida? Não. Deve está debaixo do tanque. Elas não tem que se preocupar com compras, pisca-piscas, presentes, cartões de Natal, Ceia, convidados, recepção, contas a pagar, insolvência. Na noite do dia 24, após a Missa do Galo, na Santo Antônio, vou me misturar aos convivas, ao voltar para casa; provarei da salada de alface americana, broto de alfafa, capuchinha e tomate-cereja (tudo sem vinagre, sal ou azeite para não tirar da boca o gosto distante da hóstia consagrada); mortificar a carne, ouvindo histórias de excessos, olhares de intimidação. (A polícia sabe torturar mesmo quando em traje de gala.) Talvez seja uma noite agradável na qual se fará amor no quarto do filho do meio dos anfitriões.
Ele estava ansioso, compreensível. Eu continuava a sustentar a mentira. Mais da metade dos muitos presentes debaixo da árvore destinava-se a ele. Num ato de generosidade, abriu o guarda-roupa e me disse: Pode escolher o que você quiser, -- para alguns segundos depois, concluir: se você não for cuspir. Contive minha vontade de empurrá-lo contra o guarda-roupa, não por ele ser mais forte do que eu, mas por ter testemunhado o quanto ele poderia ser covarde.
Com o peito arfando, colei-me ao seu corpo (tentativa desesperada de mostrar-lhe que era amor), ignorando o receio de mais uma vez ser afastado. Nenhuma palavra, nenhum gesto. Apenas o fluxo da corrente sangüínea a denunciar seu desejo. Minha boca embebida do ar da sua respiração, aguardava seu consentimento. Minha imagem invertida na sua pupila, me dizia: não se atreva. Faça o que lhe pedi. Não inventa moda. Se ao menos ele desviasse o olhar, poderíamos voltar ao jogo, terminar a partida, destrancar a porta. Mas preferia fitar-me tal qual um cão de rua em posição de briga. Ele queria que eu avançasse, para ter o prazer de se afastar. Eu queria não ter acompanhado meu pai, na véspera de Natal. Situação semelhante em que me encontro agora. Talvez seja essa a causa da minha má vontade em relação a tudo e a todos. Não posso fazer disso um drama.
Atualizado (18:40): Enquanto me dirigia à biblioteca, agora à tarde, estalou-me uma idéia: onde eu tenho buscado segurança e refúgio? Ora, na Literatura consagrada. Portanto, guri, não fuja de teste.
Oficina Poética no Portal Literal ou O Dom de Fluir
19 de dez. de 2005
From: Márcio
Date: 19/12/2005 13:17
Subject: Nothing compares to you. Lembra-se? (versão revista)
To: Beatriz Vilazanti
Sugar,
Oi! Sou eu. Escrever-lhe, hoje, tornou-se minha prioridade. Custei a tomar coragem. Os meses nos atropelam e depois ficamos com vergonha dos amigos por se manter tanto tempo afastado daqueles cujas lembranças sempre nos alegra.
Dias desses... minto, em julho, estava lendo "Cem Anos de Solidão" quando me lembrei de você me falando do trecho das formigas carregando um Buendía. Caramba! Onde elas estão? Lia, lia, lia e nada das tais formigas aparecerem. Será que era um detalhe irrevelevante?
Vi borboletas, bananeiras, toceiras de begônias, participei de expedições, de guerras, chorei, ri, praguejei, a ponto de me esquecer delas, jamais de você. Preciso escrever para Vila, preciso escrever para Vila. Para contar-lhe que me mudara para Macondo (como se me fosse possível).
Surpreendentemente, elas surgiram, minúsculas, avermelhadas, uma porção delas, saindo por várias frestas, subindo por todos os cantos, frustando os amantes, carregando o nenen. Demorei acreditar. O Gabo construíra um castelo de cartas (como baralho me fascina) e puxara aquela que servira de alicerce para as outras.
Desmoronei junto. E nada me aliviava do choque de realidade que a ficção me causara.
Refeito, voltei ao cotidiano. Peitar a Dona Relidade, pode ser divertido, descobri. Mas sem ficção estava desconfortável. Busquei, então, acalento com quem poderia me ajudar: primeiro Dostoievski, depois Clarice, em seguida, Lobo Antunes, Joyce, Oscar Wilde, Homero, Fernando Pessoa, Dante Aliglieri, Samuel Rawet, (quem mais me serviu de escora este ano?) Tolstói, Sófocles, Lorca, alguns teóricos enfadonhos e outros romancistas desgastados pela publicidade que dispensam citação.
Nem sei como consegui, entre faxes, e-mails, telefones e clientes, (Sim. Continuo aqui na loja.) acompanhar histórias tão distintas. Às vezes, me sentia tal qual uma abelha perdida no Jardim do Éden, noutras, um solista desafinando no ensaio aberto do coro sinfônico, ou ainda, um submarino emergindo no espaço marítimo de outras nações sem permissão. Entretanto, percebi que tal busca me ajudava a ser persuasivo com clientes, quaisquer que fossem. Corre até o boato que me tornei empresário do ramo de flores. Mentira. Nego e renego peremptoriamente. (Nós, brasilienses, principalmente os candangos, adoramos promover intrigas.)Posso ter fechado vultosos contratos. Recebido muitas cantatas. Recusado presentes e favores. Nem assim. Flores são negócios da família, nunca foi o meu. Você bem sabe.
É óbvio que o hábito de fazer a loja de sala de leitura tem me gerado conflitos, causado aborrecimentos. Contudo, minha vontade tem prevalecido, visto ver sincera. Não se preocupe. Estou bem. Comércio pode ser um bom lugar para colecionar tipos: ora bizarros, alguns hilários, outros taciturnos, ou ainda, dissimulados (meus preferidos).
É para um tipo assim, que prepararei o arranjo que estou lhe enviando. Gostaria que fosse como antes, flores para alegrar ainda mais sua noite de natal. Paciência. Vou imaginar que seja, escrevendo um conto inspirado na sua emoção ao receber flores de um amigo que há muito tempo não recebia notícias. Conseguir, não sei se vou. Caso consiga, receberá em breve, carta minha.
Está escutando ? ... Jingles all the way... Preciso ir. Não posso mais.
Beijos de boas festas!
Marcinho
P.S.: Enquanto lhe escrevia este, enviei-lhe, acidentalmente, uma cópia incompleta, sem revisão, em parágrafo único. Desconsidere, por favor. Isso que nos acontece quando teimamos em escrever no local de trabalho. Beijos!
16 de dez. de 2005
Tâmaras, damascos, nozes e avelã
9 de dez. de 2005
8 de dez. de 2005
Bem próximo de nós
Uma confissão de amor: um pau de arara desativado, atrás do Complexo Penitenciário da Papuda ( a uns 20 Km da Praça dos Três Poderes). Não era nada do que eu imaginava. Fiquei desapontado, assumo.
-- Então, vamos?
-- Você me fez trazê-lo aqui para quê? Curte o pôr-do-sol.
No horizonte, chamava-me atenção a chuva bem delimitada. Sentia ânsia de vômito. As barras da minha calça infestada de sementes de bidens pilosa me incomodavam. Não vou mais a restaurante nenhum. Vamos embora, não estou me sentindo bem. Imagens de Auschwitz me vieram à mente. Não deveria ter assistido ao documentário.
6 de dez. de 2005
Roberto Benigni: entrevista na ISTOÉ
Benigni – Como disse o jornalista Eugenio Scalfari, “a sátira é contra o poder, caso contrário não é sátira”. Porém, algumas personalidades atraem mais que outras. Por exemplo, Berlusconi (primeiro-ministro italiano). Mesmo se ele não tivesse tanto poder, seria satirizado porque ele atrai os cômicos. A sátira é a democracia que chicoteia a si mesma. Não sei fazer teorias sobre a sátira, talvez Dario Fo possa fazer melhor do que eu. O prazer de fazer rir é como o leite materno. Imagine que eu estou mamando aquele néctar... Eu não paro para pensar. Vou ficar olhando e pensando no sabor do peito? OK, eu sei que o seio não é o órgão mais apto para eu me explicar. (grifo nosso)
5 de dez. de 2005
Sorvete de pétalas rosa-menina, cobertura de espinhos
Disse-lhe que minha flor predileta era tulipa. Desapontado disfarçou o sorriso. Bobo. Desdenho todo o amor por mim.
2 de dez. de 2005
E saíram à caça
Quando vi o Ten. Coronel atravessando a rua, em direção à loja, minimizei a caixa de entrada do outlook e sai imediatamente do campo de visão dele. Contive o sorriso. Pensei em beber água. Não dava mais tempo. Ele já havia entrado na loja. Esperar ele não podia. Estendera-me a mão, sem esperar minha defesa. A sauna, na cabine. A boate, na dark room. O estacionamento, no motel. Disfarçar que não o conhecia era fácil, difícil foi fingir que havia sido apenas sexo avulso de tão casual. Vamos fazer tudo de nova, mas dessa vez diferente? Anotei seu pedido sem compreender claramente o que ele dizia. A letra antes legível, rabisco. Mostrei-lhe as anotações para que ele conferisse a encomenda. Falhas seriam punidas com cadeia. Diante do meu nevorsismo, ele se confundiu. Jantar formal? Não sei. Acho que sim. Com certeza. Perguntado sobre as cores e as flores: Confio no seu bom gosto. Comecei a explicar-lhe como seriam os arranjos: Está ótimo! Perfeito! Ele poderia ter-me dito: calma. Não tenho pressa. Mas preferiu reclamar da dor de cabeça: estou sem almoçar até agora. (Já se passava das quatro horas.) Ele ainda se lembra de julho. Gostaria que tivesse esquecido.








