29 de nov. de 2005

Por enquanto, não consigo mastigar, mas consigo escrever. Ler me distrai do pós-operatório. Medo. "Os Irmãos Karamazovi" ficou esquecido sobre a cama, emaranhado no edredon cor-de-rosa. Alessandra, Alesandra, Alessandra. Tenta relaxar, Marcinho, não cai uma agulha, sem que Deus saiba. Podia detalhar o sexo, ansiolítico natural, mas prefiro falar dos cirurgiões, da assistente. O desconto funciona mesmo? Funciona, sim. Consegui pensar rápido antes da anestesia. Cinco por cento. Já é alguma coisa. Imagine se fosse um aumento de cinco por cento na taxa selic? Eles riram. Me senti do povo. Deixei a sala de cirurgia sem esclarecer minhas dúvidas. Não era capaz nem de responder as perguntas. Até ali, tranqüilo. Vamos embora. Tchau, Senhor Doutor, Senhora Doutora e Senhora Assistente. Obrigado. Fiquem com Deus. Ainda não chove. É uma bênção. Tenho me agarrado a Ele, prometido fazer a lição sem queixas ou reclamações. Tem que fazer, não tem? Então faça. Não posso mais protelar. Pude ouvir o osso sendo raspado. A Assistente me fazendo cócegas com suas histórias de identidade dobrada dentro do bolso da calça. Senhora, cuidado! Eu sou escritor, tenho um blog. Suas falas podem virar literatura nas minhas mãos. (Ih! começou a pretensão.) Todos rindo e eu sentindo um alívio. Se estão rindo, é porque não está havendo complicações. E se eles forem sádicos? Papai do céu, nos havíamos conversado que nunca mais nos envolveríamos com esses tipos, por mais ricos, belos e charmosos que fossem. E pensar que por causa de um perverso, estava sendo aberto e costurado. Espero a Alessandra me ligar. Esqueci meu livro em cima da cama. Eu sei, eu sei. À noite, eu te levo. E quem me faria companhia, enquando chove? Beatriz. Sob efeito do Paraíso que faltava. Sim. O Paraíso de Dante. Anestésico natural. Tanto que acabei de escapar de um assalto. A cidade torna-se fisicamente violenta, mas do que a Ética permite.

28 de nov. de 2005

Fedor Dostoievski

Estou apaixonado. Finalmente. No começo me aborrecia, agora não consigo largá-lo. Presinto a dor do vazio que me desorientará ao ler a última frase, assim como em "Cem Anos de Solidão". Para mim essa seria uma das diferenças entre um clássico universal e um best-seller. Este, ao terminarmos a leitura, corremos atrás de outro, tal o adicto a procura do entorpecente. Aquele, nos mata para qualquer outro pensamento que não seja por quê?

Book3, originally uploaded by Erunion.

Acho que foi a Marfa Ignatievna. Desconfio também do Aliócha.

26 de nov. de 2005

Estamos todos bem

A morte é tão feia, tão feia, que acaba se tornando simpática. Rezo para que ela seja boa comigo e com quem quero bem, mas quase sempre ela é perversa. Nos acorda de noite, tocando o interfone. É o jeito. Entra, senta-se. Quer um cafezinho? Uma água? Aceito um aperitivo. Então, ela nos distrai, nos faz rir (daí o humor negro), elogia nosso cabelo e, finalmente, nos mata. Sim. Mata-nos. Porque a estima por quem falecera revestia o ventrículo direito do meu coração. Falta de ar. Deixa de frescura e vá ligar para funerária, meu papel termina aqui. Nossos sentimentos. Me dá um abraço e vai se embora.

Se me fosse permitido, escolheria morrer por uma efermidade, não por acidente. Eu sofreria muito é verdade(tem morfina, pra quê?), incomodaria muito mais (quando se tem herança, não é incômodo nenhum), em compensação, ninguém levaria um susto (susto mata, sabiam?), ao contrário, seria um alívio. Foi melhor assim. Ele foi descansar (nós também). Ao observar a chuva a fustigar o pára-brisa, imaginei-me eu a enterrar meu pai. Foi difícil conter o choro, como está sendo agora. Daria um interessante capítulo de introdução. Depois. Da morte, só consigo rir.

25 de nov. de 2005

Em suspensão até segunda ordem


180 words/hour, originally uploaded by Emaratioryx.

Não esperava ler "Harry Potter and the Half-Blood Prince" antes do carnaval. A fila andou rápido. Será que lá na Inglaterra, assim como no Brasil, a editora doa um volume para as bibliotecas? Creio que não. Do contrário, teria um carimbão na falsa folha de rosto. Então, o diretor da Cultura Inglesa (filial Brasília) aceitou o argumento das bibliotecárias que dessa vez, mais do nunca, transcorreriam longos angustiantes quinze dias para os pottermaníacos: Já chegou? Ainda, não. Ai, Meu Deus! Levar quinze dias para ler o Harry Potter! Só pode ser aluno do Intermediário. O nervosismo da garota recendeu no frio da biblioteca. Hermione Granger. Eu fui mais discreto: Oi, Kathy, tudo bom? Teria como eu dar uma olhadinha na lista de espera? Claro, meu anjo. Você não vai acreditar? Ela virou o monitor para que eu mesmo visse. Você é o próximo! Li meio incrédulo meu nome na tela do computador. Nunca tive tanta dúvida que aquele nome fosse o meu. Nem na lista dos aprovados do vestibular da UnB, fui tomado por tanto cepticismo. Tantos homônimos espalhados pelo país, deve ser outro... Se eu te contar, leitor, que ao sair do igloo-da-Kathy , abri a porta para a moça que ia devolver o livro, tu acreditas? Elegante morena de olhos azuis, magrela de tão alta, cachecol (ou echarpe?) vermelho enrolado no pescoço, perdida numa mini saia jeans. Fleur Delacour. Ela se dirigiu a uma cabine multimídia e passou toda a tarde aperfeiçoando sua pronúncia. Foi melhor assim, o desencontro me permitiu testemunhar um crime. Sou péssimo fisionomista, Doutor.

24 de nov. de 2005

A mão-de-gato dos blogs

Português oral castiço me irrita, prinpalmente quando o falante não se importa com a textura das cores. Imaginem a importância das cores para um pintor. Pois é! Eu sou assim: cor e luz, ritmo e melodia.
Pessoas restritas só servem para me certificar que há muita gente mal intencionadas neste país, ou ingênuas.

Fontes não identificadas esquentam noticiário e iludem leitor

"(...) Esse recurso da denominação vaga de fontes com informações cruciais não é novo na imprensa brasileira. (...) No período da ditadura, era comum encontrar "segundo fontes militares" nas reportagens para maquiar falhas na apuração, plantações de meias-verdades ou meias-mentiras e até mesmo opiniões pessoais dos jornalistas. (...) Está se tornando monótono e motivo para não acreditar integralmente no que se lê."

A Lebre e o Leão ontem à noite na fila do cinema.


Ride the tiger, originally uploaded by RandomMoth.

Sempre depois do coito tomávamos vermífugo. Ela se achava a esclarecida. A tia-madrinha explicava minusiosamente detalhes da genitália feminina, da masculina, como se limpar, o ciclo mestrual, como se desvencilhar de canalhas que "só querem nos ver sofrer." (Ela tinha experiência.)

Eu, por minha vez, procurava os livros, os quais apenas folheava. Não entendia absolutamente nada. Agora percebo que era minha ansiedade não me permitia me concentrar, portanto compreender o que se lia. Não sofria de uma idiotice pressumida. De uma coisa, eu sabia: camisinha era um método contraceptivo eficaz, desde que associada com outros métodos e não podia se confiar na tabelinha.

Todo mês por volta do dia dezessete, eu a perguntava: Laurinha, desceu? Ainda não, mas não se preocupa. Minha tia me explicou que meu ciclo ainda é irregular. É normal atrassar. Eu que comesse minhas unhas até o sabugo. Você, perguntou o que seria aquela dor que eu sinto. Ah! me esqueci. Deve ser doença venéria...

Uma manchinha arroxeada na glande me levou à visitar o consultório de uma renomada infectologista aqui na capital, dez anos mais tarde. Vai ali para aquele canto. Pode baixar as calças. A cueca. Agora expõem para fora a glande. Minhas pernas tremiam. Eu precisava sentar. Com a mini laterna focando a região pélvica, diagnosticou a médica: é um mancha de nascença. Pode vestir a roupa e lavar as mãos naquela pia. Eu queria ter lhe fazer várias perguntas, mas estava com vergonha. Hoje, eu sei que dor era aquela que eu sentia. Mas por que, então, a Laurinha nunca engravidou?

P.S.: Na realidade, ela estava mais para uma tigreza. Unhas grandes, coloridas de tão estravagantes que me marcavam as costas. Eu gostava. Nem sempre. Tenho orgulho das minhas cicatrizes e exibir minhas costas ossudas. Isso aqui foi uma louca. Explico, fingindo indiferença. Me restava, então, ser um lebracho. Admiro-me a misericórdia dela, em nunca ter me devorado a tenra carne que insistia em dizer sim, quando eu queria dizer não.

23 de nov. de 2005

Vou ter que fazer uma intervenção, não posso protelar mais; dissera-me o cirurgião. Poderíamos marcar domingo pela manhã. Era uma gentileza que ele estava fazendo a um amigo. Domingo não posso, tenho compromisso. O dia todo? Todo o dia, vou ser fiscal num concurso. Não pode faltar? Até poderia, mas eu precisava do dinheiro. Se fosse urgente mesmo, ele me operaria imediatamente. Sábado à noite? Que favor era esse que aquele estranho devia ao nosso amigo em comum. Ele consultou mais uma vez agenda, contraiu os lábios. Vamos fazer o seguinte: vou atender essa senhora... não. Vai para casa. Vou te atender terça-feira.

Trechos dostoievianos: meus preferidos


DSC00894, originally uploaded by Erbi.

Interrompemos a leitura quando atiraram o pão traiçoeiro ao famélico cão. Em Moscou deveria ser diferente.

22 de nov. de 2005

Oncídios do Jardim Botânico


orchids, originally uploaded by ana_maria_.

Não há nada melhor do que estar desempregado. Até quando? Até dia vinte nove do corrente. Vou entrar na cápsula de vento. Me sentirei um pouco abatido, mas sairei mais forte. A verdade alimenta a disciplina. Hoje finalmente coloco as mãos no tratado para sempre. Quem sabe não publique uma fotos. (Exibido!)

21 de nov. de 2005

O que eu gostaria de ganhar de Natal?

Leia no meu diário de navegação que você vai saber, respondi ao Comte., ao ser ingadado o que gostaria de ganhar de Natal. Perdão. Não entendi. Um livro qualquer, simplifiquei. Eu sabia que estava correndo um risco. Mas ele não poderia ser tão burro, a ponto de me presentear com um Paulo Coelho. Por que não? Porque estes estão disponíveis em qualquer biblioteca perto de casa. Ah! E Schopenhauer não estaria? Acontece que estes eu sinto necessidade de grifar, riscar, anotar nas margens sinais que perderão o sentido ao longo da semana. O que impede de fazer anotações no best-seller? Com o trivial também se aprende. Não o que eu preciso saber para convencer ao Comte me ajudar a escolher o enxoval.
Quanto inveja me escorria do pênis ao presenciar o criolo usando fucking como se fossem vírgula. Será que consigo? Outro giro pelo salão? Esquece. Hoje serei o homem mais feliz do mundo ao colocar as mãos no verbo convencer. Quero esbofetar o filha-da-puta que me abriu as asas durante uma madrugada de barba-de-timão. Mau-humorado, metido a rico. Um dia, aqueles dentes podres terminarão de cair e eu terei o prazer de oferece-lhe uma maçã-do-amor. Ofereço por educação e por educação deve-se recusar. Ele provará do sarcasmo que me retalhava madrugadas de sábado. Me expunham ao ridículo, me menosprezavam. Vingo-me com estrelas, clívias e castanha-do-brasil, versos que solapam lágrimas críveis. Vou-me embora, levando a ampuleta, o cuco, a cadeira-de-rodas e a santa, muletas escondidas pelo quarteirão. A menina se comprometera a bordar o enxoval. Aproveitando o espaço e o tempo que acabou: também sinto saudade sua, amado leitor. Saudade de ler o que meus amigos andam produzindo.

19 de nov. de 2005

Bienvenue sur le site officiel de Charles Aznavour

As madeleines estavam crocantes. Pedi a tropa que não contasse nada a ninguém ao meu "patrão". Nem para ser eu. Eles não presenciaram o enólogo me explicando a diferença do r pronunciado em Paris do pronunciado em Nice. Em Paris é debaixo do queixo -- não precisava me tocar, já havia entendido o que ele queria. -- Na minha região é mais grutural. Porque eu fui dizer que entendia perfeitamente duas crianças conversando em francês. Admirado, surpreso, pronunciou fonemas entuberáceos. Ele inventa palavras em português. Arcaismo gauliscista. E a boca salivando começou a falar, a falar, a falar uma língua, que por milagre eu ainda compreendia. Quatro anos de terror e humilhação. Valeu a pena? Aprendi a aprender. A quanto tempo eu não conversava em francês? Meu sotaque é horrível, disse-lhe. "En fogeant que l'on devient forgeron." Tu parles plus vite, respondi-lhe. Foi a única frase que me lembrei. É malhando que se torna ferreiro, traduziu. Parles! E o medo dele me convidar para sair. Jantar. Ele se entusiasmou. Os seus olhos faiscavam esmeraldas. Fingi que não entendi a cantada. Ele riu. Poderemos ser amigos. Nada mais. Não estou disposto em saber se este francês conseguirá me atravessar do Oiapoque ao Chuí (não que percurso seja interessante.) As fronteiras continuam bem vigiadas, eu bem sei. Uma trepada não vale o risco. E quando o diplomata voltar à loja (Que seja breve, meu Santo Antônio) estaremos ouvindo Charles Aznavour, Edith Piaf e porque não, Manu Chao.

18 de nov. de 2005

Festa do Beaujolais Nouveau termina em violência na França

Tenho que ligar para o Fontenelle afim de formalizar minha situação perante o partido, já que sou militante de fato. O que significa (se eu conseguir falar com ele) que a noite será de vinho tinto demi-sec escorrendo por polegares soltos. (Que inveja!). Por que tem que se acabar tudo em chuva de leite, quando poderia ser um simples caroço de azeitona? Porque não consigo dizer não, quando mãos passeiam no girassol do meu bíceps.

Escondido debaixo da cama

Enquanto os proxenetas se perdem em compras, reputação de cigarra me penetra a pele. Um amigo me ligara para saber se o papel moeda do nosso diploma voaria ao ser queimado. Não sei. Trata-se de uma outorga. Que as traças se refestelam no pó de leite. Eita! O Chefão acaba de assumir compromissos para os próximos anos. Fone de ouvido é ouro. O que o Fernando queria saber é se eu continuava com "aquela fudelância" (expressão dele). Tremor de pálpebras. Ele acreditava nas minhas histórias, fruto de uma etnografia capitaneada que não tive coragem de apresentar aos meus colegas de classe. Dipsomaníacos. Talvez agora o Fernando tivesse interessado em desbravar as latinhas e os latões. Procurava por dicas, sugestões. Não vale a pena. Nem por isso vamos usar cintos-de-castidades. Cintos só para prender o pescoço em latões de cobre. A violência se configura entre meus desejos. Impressão, tola. Depois dizem que o arroz será servido a todos. Jesus! O Chefão é muito irônico: "se vocês leram as reportagens..." Vou parar por aqui. Não consigo nadar no linha imaginária do equador, antes preciso dizer que nosso chefe se retratou. Amanhã trago detalhes. Para não me perder na curva do comum.

17 de nov. de 2005

Dentro do Toyota

Ao lusco-fusco, da Praça dos Três Poderes, via-se que as luzes do gabinete ainda não haviam sido acessas. O arranjo de rosas coral não poderia ter servido de desculpa suficiente para uma intimação. Lá estávamos. O polícia me flagrara antes da última colherada. E as novidade, Dr. Márcio? Nenhuma, Dentinho, nenhuma. Fiquei em dúvidas se lhe confiara meu novo imbróglio. (Ele poderia me julgar um promíscuo.) Dentido, você se lembra daquela história do estripador do cerrado? O conselheiro?! Claro! Haverá uma performace no assoalho do lago depois de amanhã. Queria saber quantos meses o dentinho levaria para se ajoelhar diante o estante de vendas do cacos adocicados da fábrica de refino de telúrio. Corta o cabelo. Faz a barba. Depois a gente conversa sobre quantos cães serão necessários para curar nossas nuvens oscilatórias. Vocês se amaram? Só permiti que facas de plásticos me ensinassem a capturar borboletas azuis. Massa podre com Beaujolais. Ninguém nos observava, com exceção as esculturas nigerianas. Antílopes machos mordiscando-se. Aproximei-me da orelha esquerda do Dentido, sua boina ainda suja de sangue seco. Acho que até o final do ano me caso. Casar-se para sair de casa, assim como as moçoilas faziam? Não convém. Ele me ama. Para o conselheiro, você não passa de um pedaço de pé-de-moleque moído. Refiro-me aos óculos de São Francisco de Assis. Ele vai me vencer todas as noites de sol sem ninguém para me explicar como se cozinha beringela. Não obstantes as curvas soltas, examinei minuciosamente o nó, sinal que os óculos profanos do Santo agiria sobre minhas fantasias. Dentinho praguejou, chamou-me de fraco e me aconselhou a não comentar com o diplomata meus planos. Este poderia pensar que eu queria vida fácil ou que estava chamando-lhe para o rola. Dificilmente, acredito em laranjas, principalmente quando muito azedas. Em retribuição a minha educação, provei da ironia do conselheiro: Dr. Márcio.

Próximo capítulo , oxímoro domingo: o coronel a me esmagar a mão.

São Google, olhai por nós plagiadores.

Feliz por observar o mar calvo. Me coçando por causa da chuva de pires. Simultaneamente, equilibrado na risca do rejunte.

Pixies: Discografia completa

A poesia declamada me escorria pelos pés. Os versos ainda ondulam na superfície do lago, posso tocá-los. Mas prefiro ser empalado pelos agentes da polícia federal no horário de almoço. Se não fosse por eles, eu ainda estaria passando fome. Me parece que estamos voltando ao cotidiano, atravessando o céu numa caça emprestado. Ei, piloto! O que é isso aqui na minha orelha? (Assim me parece mais fácil rascunhar.) Vamos tentar construir uma ponte na impossibilidade dos desfavorecidos. Foste à missa do arcebispo? Não, apenas escrevi um conto como se fosse ele um religioso russo. Ui! Deixa-me ler. Ih! Já limpei a lixeira. Fez bem. Não faça mais isso, me dissera o embaixador. Eu também queria lhe dizer: não faça mais isso, nem se fosse durante um sonho onde meu primo se relevasse um poeta de quizomba. Se houve um sentindo na vida, ele se escondeu de mim, talvez por isso não sou mais moderador. Pixies se espalharam por toda minha infância de leite-de-soja em pó. Não sinto saudade dos flatos que era obrigado a reter. Foi-se o incomodo, restou a microfonia. E a fúria, que não é uterina, mas sente-se capaz de criar. Agora chega, ultrapassei por demais a margem esquerda da folha de papel almaço.

16 de nov. de 2005

Nicolás Bratosevich

Sempre da direita para esquerda. De cima para baixo. Daqui a pouco passa. A enxurrada limpará nossas pélvis. Ainda está ouro? Fundição à fórceps.

Ricardo Piglia

Vencemos contra-argumentando com as idéias do proxeneta. Estrelas próximas saltitaram sobre o mar. Ondas no ermo caminho. Resta-me enxugar com a manga da camisa azul-aço a lágrima pelo perdido sopro.

Fundacion Mempo Giardinelli

Brilhos de poeira no tortuoso caule da brisa molhada. Prazer.

8 de nov. de 2005

Espane os móveis


bsb, originally uploaded by Miss Favs.

"... tudo aquilo que me disseste sábado, por telefone, ainda desperta no meu estômago desejos fédidos. Eu te amo, Bobão. Não é por causa do cavanhaque, aliás, desenho perfeito, que vou me desfazer do molho de chaves suíças. A dor se transformou num leve incomodo, nada próximo do sorriso braquiproctofilista do papai Ursinaldo Diego Pórfiro. De novo, não, por favor. Não sou mais aquele efebo. Quero morrer puro como rastilhos de sal que se secam sobre minhas maçãs, as quais você nunca mais beijou, em público, na fila de cinema, para as outras bichas morrerem de inveja. Elas que morram daquela outra coisa lá. (Sim, gosto de lhe ostentar feito troféu.) Nós dois seremos sempre parceiros das confidências ouvidas atrás da porta. E nem que as folhas caíssem quando você soprasse no meu ouvido fantasias proibidas até para nós que temos a mente arregaçada de tão liberal, nem assim, eu poderia fazer aquela diferença milimétrica. Serve-me, mais chocolate, a imagem do jeans se rasgando me deixou carente. Seus beijos não suprem mais as comportas da minha Itiquira. Cachoeira, amor. Nem me lembro da diferença entre gotas tingindo minhas costas (nuas) e latinhas de cerveja nos esperando para brindar nosso único aniversário que deveria ser comemorado. (Estou simplicando para você.) Sinto falta das suas amigas. Apenas das falas, não das ações. Sou aquele ciumento que não se importa em iniciar um interrogatório, as duas horas da manhã. Tudo nosso, aconteceu de madrugada: as velas, o carro, a mãe, seu padastro, seu filho, por que agora seria diferente? Tenho receio da cena da embriaguez volte repaginada. Só para não usar uma palavra. Vou dar uma fumada e volto em seguida para dizer-lhe que estou aos poucos levando meus livros para aquilo que você teima em chamar de forte e eu teimo em chamar de esconderijo. Lar, um dia, talvez, só Deus sabe. Que me importa a chegada da chuva. Os pintores não virão mais."

31 de out. de 2005

MENU DO DIA


take it easy, originally uploaded by a.L.

Di Cla,

Encontrei esse jogo da confissão que está circulando pela blogosfera no Sisifo's Curce, blog da nossa querida amiga Dayse. Tentei desvincular o alter ego, construído arduamente ao longo desses três anos, de quem ora lhe escreve. Espero que você não se incomode. Pretensão, às vezes cansa. Posto a explicação, vamos ao jogo:

Eu não sei:
1.Agradecer
2.Mentir
3.Guardar segredos
5.Pedir desculpas
6.Amar
7.Escutar
8.Dividir
9.Despedir-me
10.Compor sonetos


Eu sei:
1.Presentear
2.Atar nó borboleta
3.Preparar paella
4.Escolher vinhos
5.Receber convidados
6.Apresentar pessoas que não se conhecem
7.Dançar bolero
8.Divergir de opiniões
9.Reconhecer méritos
10.Nadar de costas


Tenho medo:
1.dos Ciumentos
2.dos Paranóicos
3.dos Carismáticos
4.dos Auto-confiantes
5.de Freiras

Não tenho medo de:
1.Assessores
2.Deputados
3.Senadores
4.Fazendeiros
5.Conselheiros
6.Embaixadores
7.Capitães
8.Comandantes
9.Almirantes
10.Brigadeiros
11.Generais
12.Delegados
13.Advogados
14.Promotores
15.Juízes
16.Desembargadores
17.Párocos
18.Empressários da noite
19.Filhinhos-de-papai
20.Leões-de-chácara


Detesto:
1.Marrentos
2.Gozadores
3.Atrevidos
4.Arrogantes
5.Extremistas
6.Alcóolatras
7.Vitimistas
8.Investigadores
9.Promíscuos
10. Rosas vermelhas

Sou fissurado por:
1.Cílios
2.Seios
3.Glúteos
4.Lábios finos, grossos; pequenos grandes e grandes pequenos
5.Prepúcios

Eu nunca:
1.Soltei pipa
2.Briguei na rua
3.Tomei banho de chuva
4.Respondi minha madrasta
5.Participei de ménages à trois, gang-bang ou sessões de SM

Eu já:
1.Sofri luxação no pulso
2.Apanhei com fio de ferro-de-passar-roupa
3.Fugi de casa
4.Reprovei de ano
5.Trafiquei
6.Roubei
7.Prostitui-me
8.Experimentei drogas
9.Recebi herança
10.Fui violentado
11.Cantei em coral
12.Dirigi elenco teatral
13.Interpretei papéis femininos
14.Jantei em Embaixada
15.Desci de rapel
16.Cavei valas
17.Pratiquei espeleologia
18.Xinguei professor em sala de aula perante testemunhas
19.Venci uma causa
20.Escrevi cartas de amor
21.Brinquei de roleta-russa
22.Observei uma autópsia
23.Presenciei tortura psicológica conduzida por oficiais do Regimento da Polícia Montada do Distrito Federal
24.Simulei estupro
25.Fui vítima de afogamento
26.Quebrei óculos-de-sol
27.Consultei cartomante
28.Montei e desmontei um fuzil Colt M-16
29.Devolvi aliança de compromisso
30.Compus sonetos

24 de out. de 2005

"Dogville e a poesia" - 12/9/2005 - Digestivo Cultural - Michel Laub - Ensaios

Sinto vergonha de dizer simplesmente: gostei desse filme. Sinto-me um idiota por não conseguir escrever uma análise no mínimo inteligente. Um dia quem sabe, consiga explicar a mim mesmo por que os filmes do Lars von Trier me causam prazer. Preciso pensar e pensar toma tempo, dinheiro, sem contar as dores nas costas, no estômago e na mãos (mas isso seria irrelevante). Dogville é um filme de e para intelectuais? Que seja! Gostei, mesmo não sendo um. Minha estupefação impede que as palavras se aproximarem de mim. Preciso descarregar essa vertigem em alguém, com alguém: "Telefone desligado ou fora da área de serviço." Talvez ele não seja a pessoa mais indicada. Sessões de cinema podem ter sido uma forma dissimulada de justificar o abuso e eu nunca havia me dado conta.
Enquanto os pais saíam, as crianças aproveitavam para preparar brigadeiro (não me lembro da receita). Indiferente. Da última vez, sobrevoamos de helicóptero o lago, coberto por algas. Ganha-se bem? Depende. Pode-se dizer que me arrependo dos fragmentos de rochas despreendidos com a pressão da vontade. Retornava àquela caverna ainda com o arranhado dolorido. Você deveria saber sobre essa vegetação. Eu somente sabia me prevenir contra possíveis dilacerações. Não soletre verbos que juntos não podemos conjugar. Não tenho nada a ensinar a ninguém, nem a mim mesmo. Você tem experiência. Ele tinha experiência de tanto assistir filmes de sacanagem na internet. Eu poderia ser preso. Eu amarraria frouxamente o nó, simulando um acidente. Cortaria a corta que me sustenta. Faria meu último rapel. Ele era tão forte, robusto e me saía com essas fraquezas imbecis. Viu porque você não pode ter uma arma? Eu te amo e você me ama. E nosso sexo é muito mais gostoso por essa razão. Molho madeira às duas horas da manhã. A intimidade que nos permitira preparar brigadeiro, pelo simples prazer de sujas nossas mãos de margarina.
-- Bom dia, meninos!
-- Bom dia, Dona Judith, tudo bem? A gente acordou a senhora, né?
-- Não durmo enquanto o Marden não chega.
-- Demostra o quanto a senhora e o Dr. Custódio se preocupam...
-- E não é só com ele.
Difícil não se emocionar quando ela me abraçou. Marden nos cobriu com seus longos braços, nos apertando desnecessariamente. Dr. Custódio acabara de entrar na cozinha nos surprendendo naquela posição enigmática. Rimos, soltamos gargalhadas. Ele fez cara de "vocês vão acordar a vizinhança." Cumprimentamos-nos. Procurou por uma colher no escorredor de pratos e sem pedir licença, se serviu do brigadeiro ainda quente, na panela mesmo.
-- Hmmm... Já podem se casar.

17 de out. de 2005

Sábado passado


Bang!, originally uploaded by cactusthesaint.

Estimado Comte Mandágora,

Desculpa a demora em respondê-lo. As flores tem me exigido integralmente. Semanas de quinze dias. Quando não são elas, são as mães de noivas indecisas, decorações colossais marcadas em cima da hora, fornecedores que esquecem pedidos, funcionários mal-criados. Para ter idéia, trabalhei todo o feriado decorando o salão de festa do clube ao qual você é associado. Será que tivemos trabalho? Colocamos girlandas em todas as pilastras, inclusive as duas da portaria. Não reclamo.

Acabo por me divertir, seja ao observar os clientes, seja ao escrever mensagens de-feliz-aniversário. Certas horas, atinjo o ponto ótimo do estres: esteja eu atualizando o site ou escrevendo um fax, sempre toca o telefone. Duas, três ligações simultaneamente surgem em seguida; madames que insistem em opinar na confecção dos arranjos com se entendessem de arte floral entram na loja esquilibrando-se elegantemente em saltos escandalosamente finos; motoristas apressados que mal se lembram do nome das flores que vieram comprar insistem em serem atendidos prontamente; ou pior, namorados apaixonados que não conseguem escrever um simples declaração de amor nos pede ajuda. "-- Isso é com o Márcio. Ele que é bom nisso." E não é que o coitado espera? E não é que tenho que escrever algo interessante e original baseando-me no vago e impreciso ela-curte-os-Strokes? "Que banda é essa caramba?" (Hmmm... Estou gostando.)

Desdobro-me em vários, sempre sorrindo, sempre atencioso. Para quê? Se não posso gritar por socorro, quando a banheira transborda. Não sei se essa correria me possibilitaria escrever um romance, uma coletânea de causos, talvez. Mas não espere por isso, prefiro tal você costuma sugerir: "vamos explorar a imaginação." Preciso beber da fonte, mesmo sendo de tempos em tempos. Pode me ligar, se for mais fácil para você.

Respeitoso abraço,

Marcinho


"(...)" <(...)@dpf.gov.br> escreveu:

>Caro Marcinho!

>Que saudades! Afinal, há quanto tempo não nos comunicamos?
assunto proposto seria, para mim, ótimo, uma vez que li todos os livros da série. Só falta o lançamento. Poderíamos falar de Lord Vald-Mort, inimigo número um de Harry e quais suas tramas para eliminar o bondoso e inocente Potter. Além da influência da literatura infantil, não na política econômica, mas na economia de mercado dos países emergentes.
Apenas uma curiosidade: você sabia que J.K. Rowling era muito pobre? Levava sua filha para a escola e para economizar energia de calefação em sua residência, ficava num Pub, perto da escola, que possuia aquecedor. Enquanto isso começou a escrever a série Harry Potter. Hoje é mais rica que a Rainha da Inglaterra.
>Atualmente estou um pouco sem tempo, em face de um curso que estou coordenando, de 19:30 às 22:40h. Talvez 4ª-feira que vem, dia 12 de out, esteja disponível para nossa conversa.
>Sinceramente, gostaria muito, Marcinho. Forte abraço!
>
>P.S.: Você foi suficientemente claro!



>Comte Mandágora

>> Bom dia, Comte Mandágora!
>>
>> Há muito tempo estou querendo te escrever, mas não sei se deveria. Qual assunto abordar? O lançamento do novo livro da J.K. Rowling no castelo escocês não seria apropriado visto o fato de eu ainda não conhecer tão bem as aventuras do Harry Potter, quanto gostaria. Contudo, se estives com tempo, poderíamos nos encontrar para conversarmos sobre os rumos que a literatura infantil contemporânea está tomando e se tal fato influencia as politicas econômicas das países emergentes. Pense a respeito.
>>
>>Frt abraço!
>
> Marcinho
>
> P.S.: Meu novo e-mail: (...)@gmail.com
> P.S.S.: Espero ter sido suficientemente claro. A que ginástica mental você me obriga!
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-- Ah! O Senhor sabia que o Deputado Alberto Fraga é lobista da Taurus? Fonte quente.
-- O Márcio quer me convencer a votar no SIM.
-- De forma alguma, o senhor é voto consolidado. Apenas queria lhe passar a informação. Não é só uma questão de segurança, mas de altos interesses econômicos.

6 de out. de 2005

Orelha de pitbull (nunca ninguém havia me feito tal observação).


Van Gogh Monet., originally uploaded by JucaFii.

Tenho me esforçado para postar apenas uma vez por semana, de preferência às segundas-feiras, contudo, por mais que eu tente me manter afastado da web, algo me suga ao ciberespaço, ao mesmo que alguém me empurra para fora dele. Algo e alguém se desentendem e minha vontade de estrangulá-los se dissipa, quando descubro que as Circunstâncias estão se encarregando de cumprir meu desejo.

Tem sido extremamente difícil conviver entre desesperançosos. Ambiente tão rico quanto o Saara. Pára de reclamar. Encare a situação com estágio probatório a um cargo qualquer no Senado, ou na Câmara, ou quem sabe naquele Tribunal onde elevadores exalam à nenúfares azuis . Tenho aprendido a engolhir sapos. Minha imaginação os transforma em rãs e nós sabemos do ossinho da coxa levemente apimentada estralando na boca. Apenas suponho.

Olho para cima como se estivesse visto uma lagatixa. E quando você não puder olhar para cima, Márcio, alguém, que não seja sua terapeuta, vai te estender o lenço? Não. Minhas lágrimas retóricas se comportarão exatamente conforme o texto, uma embaixadora vai entrar na loja, estimular meu poder de persuasão, me levar o sorrir:

-- Você tem rezado, Márcio?
-- Tenho.
-- E já aconteceu um milagre na sua vida?
-- Ainda não.
-- Então está rezando pouco.
-- Espera ai... me aconteceu uma milagre ontem à tarde.

E as lágrimas vieram doce o suficiente para ela espontaneamente me abraçar entusiamada. O almoxarife tatuado, testemunha privilegiada da cena, discretamente movimentou os lábios: "Deu ontem, né, seu puto? Foi rola, não foi?"

Atento-me ao fato que nem poderia estar registrando essa história. Através do link do Dicla no Orkut, alguns amigos podem me descobrir na via dupla. Temos que remover aquele link de lá, depois. Depois, mesmo. Conta logo o ocorrido no fila do Pão de Açúcar. Vangloria-se. Promova-se. Sei que é bem isso que deseja. Diga logo que o pangaré foi safo, que mandou bem, que faturou uma estirpe jurídica.

A latinha de coca-cola quente, a fila parada, a revista Veja, meu comentário sobre a capa ao senhor de gravata, a contribuição ao meu argumento, a troca de olhares no estacionamento, a hesitação, a discreta patolada acompanhada de um sorriso, que de tão tímida tornou-se elegante. Aproximei-me, estendi a mão, apresentei-me, recusei a carona, mas não a conversa.


-- Sou uma pessoa contundente. Bato de frente com o poder. Odeio Brasília. Só consigo permanecer aqui por temporadas.
-- Ela é cosmopoLIta...
--Éeh...
-- ... por causa do corpo diplomático, dos políticos... e provinciana ao mesmo tempo.
-- Exato! O provincianismo mata essa cidade.

Um traço da personalidade me convenceu a fazer o que, onde e como ele queria. Advogado experiente me induziu a falar sobre mim, sem receios, preocupações, abertamente. Descobrimos que somos vizinhos (apenas um kilômetro nos separava), que sua esposa conhece meus padrinhos e que não a nada mais gostoso do que comer torta gelada de chocolate com castanha-do-Brasil na Di Lorenza observando o chuvisco apressar o passo da moça que havia descido com seu labrador.

Finnicius Revém [Finnegans Wake]


22, originally uploaded by Márcio Hachmann.

"Poderá ser recomendável, numa primeira leitura, passar pelo texto sem a preocupação de explorar o que ele esconde. Quem se confia a jogos sonoros, ao ludismo de imagens e idéias, pode ler Joyce com prazer."

Fissura(do)

No nosso caso não há sutura que corriga a imprudência.

A Paixão Segundo Martins ( Die Martins-Passion 2003)


IMG_5445, originally uploaded by supercommon.

Perco-me entre acordes, antes de tomar café-da-manhã, saudade de quando ruído (grunido) me vibrava a carne.

SEPULTURA : Official Website

Link puxa link, olha só onde caí, Leitor. Sim. Houve uma época que aquele menino com jeito de CDF ouvia Sepultura escondido de todos. Os moleques do bloco, com suas roupas pretas, suas correntes pesadas, expressões sissudas de tão marretas, fumando maconha (na época nem imaginava que fosse) nunca imaginariam que o germe da transgressão vigorava dentro de mim. Eles odiariam ainda mais se descobrissem que eu escutava a banda preferida deles (nem era minha favorita). Numa rodinha de conversa, na festa de aniversário de uma amiga em comum, quase ponho a perder ao corrigir o nome de uma música. Foi automático, desde então, nunca mais corrigi ninguém em público.

Novae: A astúcia venceu a soberba por Emir Sader

Um post atrás do outro. Só posso estar dodói. Virose? Não. Raiva. Constipação (chupa mais jabuticaba). E quando elas me atacam, me automedico com silêncio (O Fornazze o conhece bem.) Está tudo perfeito. Não discordo. Opino pouco. Sugestões não proponho. O porco transforma-se em cordeiro, a ponto de falarem que a supresa que prometi para essa semana seria a publicação de um livro que supostamente haveria escrito. Para quê?

"O senhor sabia que tenho um artigo publicado na SBPC, fruto de uma pesquisa sobre latossolo vermelho?" Ou seja, publicar seria de menos. Eu quero respeito. Se meu comportamento/moral/ética/ atitude/idéias incomodam alguém, isso seria problema pessoal dele. Até porque, não prejudico ninguém; ao contrário, me desdobro para ajudar, sem fazer qualquer tipo de cobrança depois. Serviço voluntário conta muito para onde vou. Entretanto, minha paciência envia sinais de saturação.

Casar-me (e mudar-me) seria fuga. Prefiro o combate. Permanecer pregado na tela do computador, como de fato fosse dono. Se querem jogar paciência, pinball, conversar no Messenger, ou ver mulher pelada, faça-os em casa, onde, caso a máquina seja contaminada por vírus, worms ou trojans , não prejudiquem outrem.

Uma vida pela vida

Agradou-me muito a proposta do ministro Jacques Wagner: reabrir o debate com os atores diretamente envolvidos na transposição do Rio São Francisco (não tenho opinião formada, até por minha bacia hidrográfica seria outra). Questões complexas encondem nos seus meandros sutilezas que para revelá-los pode-se levar décadas, vide o caso da da Unificação Européia, por exemplo. Portanto, querida prima, vou demorar o quanto for necessário para lhe escrever aquela dedicatória. Por que complicar o que é simples, me perguntaria, você. Porque é a resolução das questões mais difíceis que lhe garantirá uma vaga no curso de Engenharia Aeronáutica. Aceito seus contra-argumentos.

4 de out. de 2005

Cordel do Fogo Encantado

Pronto. Dançar me alterou o humor. Suado e bem-humorado. Por que essa cara amarrada, então? Não pretendo ser modelo para propaganda de dentrifício. "Até poderia." Vamos para o treino. Espero que não me quebrem meus dedos, o que tenho de mais precioso, depois da língua.

3 de out. de 2005

O Cérebro Nosso de Cada Dia

Depois de dois propanolol, consigo compreender a ironia da vida.

2 Posted by Picasa



-- Professor, não tem amarelo escuro.
-- Improvisa.
Assim tem sido, graças ao General Cartógrafo. Trilha das capivaras mapeada apenas mentalmente; "... fazendo covardia com os bichinhos." Minutos de espera. Esperaria mais, se lábios indisciplinados pudessem me responder. Cansado de sentir o suor gotejando nas minhas costas, leventei-o com a força da respiração e se vamos falar sobre sexo, leitora (não trago nenhuma novidade) culpe os serviços de CVV congestionados, a banca de jornais fechada, a video-locadora aberta. Dois rapazes conversando enquanto fumam. A vídeo-locadora está aberta! Vazia. Digo aos rapazes para ficarem à vontade, "só estou olhando", nem precisava. Onde estão os pornôs? Na pasta preta, seu burro. Cinco grossas pastas pretas de folhas-de-plático, apenas os encartes. Surfar na web sairia de graça. Sorrisos francos para webcam. (...) Enviar, aceito. Enviar, salvo. Encontros de cartões de crédito, após uma longa e prazerosa conversa. Quinze cervejas... Eu precisa de sexo, não de companhia, já que ninguém nem nada seria capaz de suprir a carência por mussarela derretida às cinco horas da manhã. Observar a cópula dos heterosexual (você ainda se lembra?) poderia ser interessante. "Marciiiiiiiiinho!" Assutei. Lógico. Érika me abraçou sem me dar tempo de reagir. Os rapazes entraram. Acabei sendo persuadido a alugar "Doce Novembro". Quase a arte que imita a vida imita a arte. Para confrontar, aceitamos a sugestão do atendente: Monster. A Érika entrou em êxtase quando lhe contei que não havia assistido a nenhum dos dois. Fujo de Oscar. Deveria fugir dos preconceitos que me revestem, impendindo de telefonar para os amigos que de repente nos surpreendem. Fios loiros dourados trançados me ajudaram a improvisar. Loiras são muito perigosas. Os mapas nem de longe correspondem ao ideal, mas foram traçados. E era apenas isso que importava. Não era o caso de usar maquiagem. (voltar pra revisar)


1 Posted by Picasa

1 de out. de 2005

Paradoxo xoxo: Duelo (réplica)

Posso ser quem eu quiser, virtualmente. Meus bíceps exalam polens de girassóis. Aquela tatuagem riscada no dia que provei do veneno sustenido Lá Bemol. Tranqülizantes às três horas na Praça dos Três Poderes, meu coração acelerado preste a me matar. Meu outro coração me chamando de fraco. Duas putas de rodoviária se oferecendo a 1 real. Para me acalmar ,o Bruno começou a cantar Ave Maria de Gounod. Baixo desafinado sacudindo com os trimbres minha carne sapecada. Minhas mucosas cheirando à polvora, dos seus dedos sujos de tantos pecados. Eu pedia mais, mais perto, mais forte, mais fundo. Até que desmaiei.

Blog paralelos

Observo o movimento e não vejo nada, além do minha massa cinzenta estigmatiza. Entrei no Messenger. Onde guardei os convites?

26 de set. de 2005

Chuva pesada. Enfiar o dedo na goela, nada adiantaria. Desde ontem após o sessão interrompida porque o cinema desabou, perseguia o rapaz de paletó azul-marinho, gravata preta e cavanhaque conhecido de algum lugar. O rapaz não se esconderia tanto se não tivesse um passado em comum com a testemunha. Em algum local haviam se cruzado. Disseram boa noite um ao outro, e se afastaram sem se apertar as mãos. Não era possível (não havia necessidade) . O rapaz se despediu da testemunha com um simples aceno de cabeça, suficientemente significativo para estragar os planos do amante. E a testemunha foi taxada de paranóica quando disse já ter visto o rapaz em outro local.
-- Deve ter sido numa sauna.
-- Provavelmente.
-- Como?!

Os amantes olharam-se, amunciando uma discussão. Que de fato aconteceu, de madrugada, em casa, no lençol branco manchado de sêmen, sangue e resquícios de fezes.

-- Porra! Você tem que fazer uma higiene...
-- Por que você não parou quando eu pedi?
-- Rebolando feito uma puta, você queria que eu parasse?
-- Tanto queria, que o lençol está sujo. Vamos combinar o seguinte: quando eu ficar calado por mais de três segundos, você me solta.

Assim ficou combinado. Até que uma das partes resolveu pedir desculpas. E começaram tudo de novo, inclusive uma discussão tola por causa da interpretação do Ed Motta para Bye bye Brasil.
Graves e agudos foram ouvidos da portaria. Pensou-se em chamar a polícia, mas tal idéia foi rejeitada por causa do espírito coorporativista da classe.

24 de set. de 2005

Em carta a seus alunos, Marilena Chauí fala sobre onipotência da mídia


Canus familiaris, originally uploaded by asmundur.


Nem sei quantas vezes interrompi a leitura para tomar fôlego, rir, delirar de prazer, por causa do conteúdo dessa carta tão carinhosa de contundente. Que pena... ler os textos da Marilena Chauí, ou suas sugestões bibliográficas, não me faça ser seu aluno. Mas posso ser partidário. E serei, em breve. Ficcionista engajado. Você antevê a consequência disso, Marcinho? Vamos para o sacrifício, como se já não estivéssemos.

Sempre questionei os livros, o que dirá da midia, "empresas privadas e, portanto, pertencem ao espaço privado dos interesses de mercado". Não que eu seja contra propriedade privada, ao contrário. Apenas, reconheço a importância e o significado de se usar adjetivos (você, fala cheio de autoridade). Como escreveu um poeta: "A borboleta é apenas uma borboleta. A flor é apenas uma flor." E a midia, deste quando adquiri o vício de folhear vários jornais diariamente, abusa de adjetivos, o que dirá do coitado do futuro do pretérito. Não está muito difícil descobrir a quem a mídia serve (ao leitor é que não é.) Basta seguir a lógica das commodities, minha hipótese de trabalho.

CRISP - Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública

Brasil: as armas e as vítimas

Desarme.org: site com artigos sobre produção e circulação de armamento.

23 de set. de 2005

Desafios do Desenvolvimento

Hmmmm... Encontrei assunto para a hora do licor.

Fomos premiados


apricots, originally uploaded by Nayantara.

Venham todos comer damasco na sede da Polícia Federal em São Paulo. Às custas do Tesouro? Não. Cortesia dos carcereiros. Se não compraram, ao menos facilitaram a entrada. Imaginem, queridos leitores, uma fotografia do EX-candidato à presidência da República, Doutor Paulo Maluf, servindo champagne francesa aos agentes e demais autoridades. "É assim que se trata subalternos." Nada mais digno, afinal, a Polícia Federal tem trabalhado muito ("eu te liguei, amor, até ficar cansado de ouvir 'telefone desligado ou fora da área de serviço.' ") só não sabemos em prol de quem.

Minha fonte (não nos parece) se vangloriou no dia que prenderam sua excelência: "Me dê os parabéns. Em nome da coorporação, mereço." "Parabéns, respondi, por ter finalmente conseguido cumprir com sua obrigação. Agora sim, você faz jus ao salário que recebe. E o dinheiro, conseguiram repatriá-lo?" Ele desviou o olhar para ganhar tempo, formular uma resposta excepcional, acenou para o garçon: "Irmão..." Irmão? -- disse-lhe -- Ele se chama Amanai, Amanai San. Não estamos num pé-sujo.
-- Pois não, Doutor.
-- Irmão, traz outra cerveja, por favor. Você quer mais sashimi?
-- De atum, por gentileza.
-- E um de salmão.
-- Você precisa aprender tratar bem as pessoas.
-- E é você que vai me ensinar isso? -- Se você quiser, vou.


Se eu quisesse despertar a fúria do Vesúvio, bastasse quando estivéssemos em público mostrasse intimidade com um desconhecido, mas não o lembrei disso. Preferi morder-lhe o calcanhar:
-- Espero que ex-governador não tenha privilégios na prisão.
-- E não terá, disse-me, interrompendo o gole. Você tem minha palavra. Somos uma instituição séria.

Como queria que o celular dele atendesse. Gozar da autoridade. Ou saber em que hotel ele se hospedou para enviar-lhe uma cesta recheada de damasco secos (hmmmm, chega deu vontade) com uma garrafa de Johnnie Walker Red Label 12 anos. Pena que ele não tenha paladar, nem senso de humor.

Na PF, damasco e champagne para Maluf por Soraya Aggege

22 de set. de 2005

À caminho de uma sauna qualquer


Rust, originally uploaded by Jаnnis.

Mustang Sally

written by Sir Mack Rice

Mustang Sally
Guess you better slow your Mustang down
Mustang
Sally , baby
I guess you better slow your Mustang down
You been a runnin'
all over town
I guess I'll better put your big feet on the ground, oh yes, I
will

All you wanna do is ride around, Sally (ride Sally ride)
All you
wanna do is ride around, Sally (ride Sally ride)
All you wanna do is ride
around, Sally (ride Sally ride)
All you wanna do is ride around, Sally (ride
Sally ride)

One of these early mornings
You gonna be wipin' your
weepin' eyes, yes you will
I bought you a Vintage Mustang
Of nineteen
sixty-five
Now you comin' right signifyin' woman, no
You don't wanna let
me ride

Mustang Sally, baby, yeah
I guess you better slow your Mustang
down, yes you will darling, I hope you will
Going around running' all over
town
I'm gonna put your big fat feet on the ground, oh yes Sally, well, look
at here

All you wanna do is ride around, Sally (ride Sally ride)
All
you wanna do is just ride around, Sally (ride Sally ride)
All you wanna do is
just ride around, Sally (ride Sally ride)
All you wanna do is ride around,
Sally (ride Sally ride)
One of these early mornings
You gonna put your bad
bad feet on the ground, oh yes I will, Sally

Sally (ride Sally
ride)
Sally (ride Sally ride)
(ride Sally ride)
(ride Sally
ride)
(ride Sally ride)
(ride Sally ride)

Estranho quando me deparo, em blogues desconhecidos, com letras de música publicadas. O que deseja dizer o blogueiro? Para o leitor que acompanha freqüentemente o blogue, ou conhece o canditado a cronista, seria fácil (!) responder tal pergunta. Mas para quem aparece vindo do Google resta, no meu caso, a indiferença ou a desconfiança de que a letra não esteja correta. Gostaria de vez em quando, ler ao menos uma justificativa, diferente do "porque eu gosto" subententido. Pode ter sido uma lembrança, que ressoa infinitivamente; pode ser vontade de ter para si aquele melodia, no caso ritmo. Mas não nos cabe agora levantar hipóteses, até porque não apresentamos justificativa. Poderia deixar para o leitor que acompanha o DiCla, responder-nos. E deixo. Ele que contextualize o espaço-tempo na seqüência de posts com o conversa no MSN que apenas os dois envolvidos tem acesso; seguida da conversa no telefone, que além do mim todo o nono andar ouviu. Que discussão sarcástica! (Como foi? Conte-nos!) Que telefonema desaforado! (Reproduza-o!)
Este post serve ao leitor chegado através do Google, com a intenção de apenas salientar-me minha ignorância, em público, em relação ao Blues. (Que me importa isso?) Não se pode conhecer tudo. Concordo. Mas não se pode ignorar que um longínquo amigo considerado seja aficionado por Buddy Guy, cuja canção (depois de escutá-lo na web) esteve incluída num musical de Allan Parker. Sei muito pouco sobre meus amigos virtuais e eles de mim (apesar de acompanhar seus blogues), talvez por isso sejamos amigos somente virtuais. Também aprecio Blues. A ponto de não ter ainda conseguido escrever sobre a ação do Katrina em Nova Orleans. Robert, você poderia ter sugirado outro tema.

21 de set. de 2005

Declaração de amor


Saudades., originally uploaded by Fabio Cherman.


Minha flor, minha flor, minha flor. Minha prímula, meu pelargônio, meu gladíolo, meu botão-de-ouro. Minha peônia. Minha cinerária, minha calêndula, minha boca-de-leão. Minha gérbera. Minha clívia. Meu cimbídio.Flor, flor, flor. Floramarílis. Floranêmona. Florazálea. Clematite minha. Catléia, delfínio, estrelítzia. Minha hortensegerânea. Ah, meu nenúfar. Rododendro e crisântemo e junquilho meus. Meu ciclâmen. Macieira-minha-do-japão. Calceolária minha. Daliabegônia minha. Forsitiaíris, tuliparrosa minhas. Violeta... Amor-mais-que-perfeito. Minha urze. Meu cravo-pessoal-de-defunto (foto). Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte.

In: Andrade, Carlos Drummond. Poesia Errante. Record. 1988. 1ª Ed.

Lógico!


IMG_0042, originally uploaded by blurredvisionstudios.



Nos rebordos da chapada a guerrilha se esfumaça. Eis a ironia: ex-guerrilheiros foram finalmente alvejados, razão pela qual permitiram ascensão do grupo. Do mirante observo as emboscadas. Reprise do Fim-do-mundo. Plágio. Deputado canastrão.
Se fôsse nos EEUU, o político suicidaria com um tiro na têmpora, não por ter perdido os privilégios, mas por vergonha. Aqui em Bruzunganga, ele distribui autógrafo ao passear pelas ruas. Se o encontro na rua, escarro-lhe na cara. Não faça isso, Marcinho. O deputado gosta. Ele contratava go-go boys fluminenses para açoitá-lo enquanto não era convocado para apaziguar a gula dos correligionários. Há de se estudar lógica, sem esmorecer.

20 de set. de 2005


Takedown, originally uploaded by MacFlick.

Por alguns segundos, depois de meses de espera, pude vê-lo de longe. Aparentemente, ele está bem.

17 de set. de 2005

À cavalo


Mahood/McKenzie, originally uploaded by Ord.

Permita-me registrar dados biográficos, Dona Sintaxe.

Os leitores desse blog sabem que dificilmente comento com clareza acontecimentos que envolve meu ambiente de trabalho. Até porque não sei escrever como os cânomes exigem. Mas eu estou com fome. Então, escrevo para esquecer, não o estômago doendo, não a cabeça latejando, tampouco o socorro que se esquivou, mas para me esquecer do equívoco que cometi ao desistir do alojamento universitário, porque se eu tivesse aceito... Seria pior.

Essa sinusite que me faz achar que as pessoas fedem à galinheiro em dia de chuva, não é nada diante à frieza das paredes de cimento nu do duplex com vista para o lago (a universidade pública trata muito bem seus alunos). Minha sinusite adquirida (talvez pela quantidade de polens inalados) atrapalha apenas meu apetite. Não tenho hora para refeições. Como, quando meu olfato permite. Portanto, quando o almoço chegou, disse aos funcionários que fossem almoçar. Meu "patrão" sabendo que eles comem feito cachorros famigerados, mandou eu separar meu prato.

Obedeci, pois noutra ocasião os eles, avisados que eu ainda não havia almoçado, lamberam as panelas. Fiz meu prato (arroz, feijão, salada de tomate com cenoura e bife à cavalo), ou melhor, peguei a carne e coloquei na marmita do meu sobrinho (não sei por que mandam comida para criança se ela não almoça.). A marmita ficou em cima do microondas.

Voltei para o balcão, fui atender telefone, cliente, enviar uns faxs e disse para os funcionários irem finalmente almoçar (passava-se das 14 h). Acontece que me esqueci de avisá-los que não havia almoçado. Quatro horas mais tarde, quando meu apetite chegou, fui almoçar. "Onde guardaram a marmita? Comeram-na? Impossível. Havia comida para alimentar os animais do Zoo Hollembach por um mês."

Subi as escadas contando os degraus para não tropeçar em acusações sem provas e da porta da oficina, onde todos estavam preparando os arranjos de flores para o casamento de logo mais (ontem), perguntei para o engarregado pela copa, que se encontrava no fundo da oficina fuçando a unha com um canivete, se ele havia guardado meu prato. "Não! Não sei do seu prato, não!" Foi quando me lembrei do barulho vindo improvisada copa. "Não acredito que ele está lavando as louças." Meia-hora depois passa por mim com o saco de lixo. "Poxa! Hoje ele está disposto."

-- Danilo, você jogou fora a comida que estava em cima do microondas? -- perguntei-lhe.

-- Joguei.

Meu "patrão" permaneceu calado.

-- Inclusive a carne?

-- Foi.

-- Márcio, toma esse dinheiro e faz um lache. -- disse-me meu "patrão".

-- Obrigado! Perdi a vontade de comer. Até a minha dor-de-cabeça passou.

-- Eu ainda perguntei se todo mundo havia almoçado.

-- Guilherme, por favor, faz a entrega do Tribunal e passa no Habib's...

-- Compra quantas esfirras, chefe?

-- Pode trazer umas vinte... traz dois cocão.

-- Se é por minha causa, não precisa. -- gritei da minha mesa.

-- Você não pode ficar sem comer. -- argumentou meu "patrão."

Levantei-me da minha cadeira calmamente e me dirigi ao motorista.

-- Pode deixar que eu faço a entrega e compro o lanche de vocês, Guilherme. --disse-lhe com a mão estendida pedindo a chave do furgão.

-- Você não pode sair, não, Márcio. -- lembrou-me meu "patrão."

-- Eu não vou ter recolher os arranjos na Igreja?

-- Vai.

-- Então, preciso sair para fazer um telefonema.

Ninguém disse nada. Pois ouviram, quando a Emanuelle, pessoalmente, veio me entregar o convite do seu baile de formatura. "Você vai dançar a segunda valsa comigo." Prometi que iria. Peguei a chave, o dinheiro e fui responder uns e-mails.

-- Vai logo, Márcio. Está quase na hora do meninos irem embora.

-- Estou indo.

O motorista passou pela minha mesa e me fitou com um olhar de desespero. Pude imaginar o que ele pensou: "Porra, o veado vai pirraçar. Não acredito que vou perder esse lanche." Conclui o orçamento para o TST e o arquivei nos "rascunhos". Meia-hora depois, estava de volta. Comprei uma esfirra para cada e dos refrigerantes PET mais baratos.

-- Vem comer, Márcio.-- Já lanchei, obrigado. (Não sabe contar?)

Ao chegar em casa, passando pela cozinha, escutei:

-- O Márcio está sem almoço.

-- Eu lanchei.

-- Mas não almoçou.

-- Sabe porque, tia? Seu funcionário jogou a comida fora...

-- O quê?

-- ... com os bifes à cavalo dentro.

-- Vocês estão brincando.

-- Fartura né? Os pais dele devem amarrar cachorro com lingüiça.

-- Não, Márcio. Ele deve ter comido. Você precisa ver o jeito que eles comem.

-- Se ele comeu menos mau -- retruquei . Jogar fora é que não pode.

-- Você vai falar com ele, viu? Eu já queria tê-lo mandado embora, mas vocês o defendem.


Pedi a bênção, desejei boa noite. A decisão não cabia a mim. Subi as escadas tropeçando em dúvidas e medos: "...e se ele quiser nos fazer algum mal... quiser se vingar de mim... será que vou ter que voltar a sair sempre acompanhado? Com os amigos do Bruno! Por fim, acabei dormindo, a ponto de não ouvi ninguém vomitando sangue (?) às três da madrugada. Não sabe beber...

Hoje cedo, lá na loja, ninguém me cumprimentou e na hora do almoço...

-- Márcio, você come minha comida, tá? Mas guarda a marmita na geladeira, senão jogam fora de novo.

-- Jogam, não! O Danilo joga!

-- Eu jogo mesmo. -- respondeu se dirigindo a copa.

Ele perdeu a oportunidade de se desculpar. Paciência, possivelmente, não aliviaria minha fome.


UP DATE: Em decorrância dos fatos, recebi quinze dias de descanso. "Ah! Eu tenho direito à férias?" Minha mochila está pronta. Chapada dos Guimarães será o meu destino daqui três horas. E meus leitores, meu diário... ? Tenho que deixar algo substancioso para eles. Vou descongelar o contra-filé.

16 de set. de 2005

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Chorar é para os amadores, que não agüentam correr nos campos de soja sem espirrar. Agradeço à Força Interior por ter me ensinado a clarear os hematomas. Logo mais à noite, vou atender teu telefonema. Uma noite de sexo com o professor de natação vai me fazer bem. Pena ele ser tão enrolado. Não fique com raiva de mim. Não vamos beijar na boca. Dele quero só o descartável.
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Meu blog mais se parece um álbum de fotos. Consistência lingüística, desapareceu. Tenho pressa. Sou um menino ansioso que pega carona de madrugada em Mercedes ávidas por carícias de língua. Se nos protegermos farei muito mais do você pode imaginar -- disse-lhe. Ele gostou, pois me convidou para dar uma volta pelas estradas que circunscrevem a capital. Desconfio que ele quisesse comprar maconha. Sabia onde poderíamos encontrar, mas o Kant poderia interpretar aquele reencontro como uma prova de amor. E amor era o que eu menos desejava. O embaixador e eu entramos num acordo, já que ele era casado e eu comprometido com um (hoje afirmo com certeza de costelas amassadas) possessivo-narcótico-robusto que me policiava com digitais câmaras com infra-vermelhos, webcams e o caralho-de-asa, mas isso é outra história. O que nos interessa foi o acordo: contar quantas Oncidium Sarry Baby havia em cada haste. "Cem e quarenta e sete." Cento e cinqüenta e um, retruquei. Ele perdeu. Ligou para recepção pedindo a conta; enquanto fiquei jogando, do alto da janela da suíte, cinzas de Havana no lago.
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Não. Falta-me coragem suficiente para dizer tudo que eu gostaria.

O Manancial da Noite

Pena a letra ser tão pequena.
Estava correndo pelo eixão a procura da marca de sangue. A velha bruxa tristeza me toma pelas mãos e me traz de volta à realidade. Márcio, já são 6h30. Levantei-me grogue, com o corpo dolorido como se tivesse levado uma surra de cipó. Sinais vermelhos não significam nada.

15 de set. de 2005

Diálogo vazado do MSN ou escuta telefônica não autorizada

Assim que chequei em casa:

-- Porque você não apaga os spams?
-- Pelo mesmo motivo de você dirigir, ouvindo música. Gosto da falsa sensação de companhia.
-- Você vai começar? Problema seu ter preferido ficar em Brasília. Era medo do Roberto Jefferson não ser punido? De que adiantou? 156 deputados votaram a favor dele.
-- Sem contar os votos brancos, nulos e as abstenções.
-- Pois é! E eu aqui assinando 151. Isso é tortura sabia?
-- Se você está dizendo, deve ser mesmo.
-- Sabe no que estou pegando?
-- No mouse?
-- Nas suas passagens.
-- Não as trocou ainda?
-- Tenho esperança. Você não vai agüentar essa secura.
-- Bobagem! Estou me preparando para conhecer as pirâmides do Egito.
-- Mudou de idéia? Não iámos viajar pelo sertão.
-- O único sertão que me importa é aquele que não pode ser mapeado.
-- Você sabe que sobre esse assunto não posso falar.
-- Sim. Até prefiro. Vai ser melhor descobrir sozinho, com a falsa sensação de companhia.
-- Chegou gente aqui. Só um minuto.
-- Tenho que ir. Beijos. Até amanhã.

Blog do Moreno

Comenta-se sobre a terceira geração de blogueiros (jornalistas e intelectuais que se renderam à ferramenta). Só não entendo qual a vantagem em dar uma notícia esperada antes dos outros. Imaginam-nos como se fôssemos um pai ansioso esperando a notícia do nascimento do primeiro filho. Ele não quer saber se nasceu; quer estar ao lado, nem que seja de fora. Traga-nos um fato que altere o eixo de rotação das nossas vidas. A notícia da morte de um arrimo de família, por exemplo. Ele era isso. A partir de agora, são minhas memórias. Nossas. Não tenho direito de chorar, lamentar-me, reclamar, ou cobrar de Deus (se é que Ele realmente morreu). Fui feliz, mas do que mereci. Só não sei como vamos falar com a D. Concetta. Ninguém sabe.

Cheira a amônia


Kitty Karate, originally uploaded by DantesFedora.

Estava arrependido do produto da caça. Despelado urso leitoso as duas horas da manhã. "E essa solidão dos olhinhos, menino?" Nossa. Como ele pode perceber? Meus olhos castanhos já não conseguem sustentar mais a máscara que me impus. Precisava me sair bem, já que dali a pouco iria me envenenar em outra praça. "Nascemos e morremos só. -- repliquei -- Há de se saber trabalhar a solidão." O Trufa se admirou com o fato de eu ser existencialista.

Nunca os li. Sou analfabeto em alemão e meu francês só me permite ler gibi. "Você deve estar enganado." Talvez deva ter escutado alguém reproduzindo as idéias. Se me alimento da minha dor, autofagia, é porque aprendi de ouvido. E nada pior do que aprender a tocar violão de ouvido. Nada pior do que se servir da carne fria, numa madrugada fria, num banco de couro frio. Será que ainda quero conhecer neve? Com o Seu Jorge tocando vai ser difícil continuar. Mas preciso de algo que me levante. Nem visitar meus Favoritos, consigo. Assim não há porque prosseguir.

O celular toca. É o Urso. Será que ele se apaixonou? Trigéssima-primeira ligação. Vinte e cinco mensagens que não tenho coragem de ler. Ele que vá procurar outro submisso. Meu rosto ainda arde das bofetadas perfumadas e meu proctologista me ameaçara transferir meu caso para outro colega, caso eu viesse a tentar uma dilatação (fist fucking). Não pretendo Dr. Pode ficar tranqüilo. Nunca me passou pela cabeça. Dizer que "adoraria", foi apenas uma estratégia de sedução. Ineficiente diante do Trufa. Arrependimento de não tê-lo beijado até o amanhacer.

14 de set. de 2005

Ingenuidade


El poder de la cerveza Originally uploaded by Joserri.

Mindurim mijando no poste. Era no meu sapato. Eu, submisso, aceitei beijá-lo, porque sabia que ele não se lembraria do fato no outro dia. Não quero nada com ele, além de sexo casual. Se tivermos outra oportunidade, vamos beber com moderação. Eu gostaria de dizer isso ao Fulaninho: "Ele beija bem melhor que você." Não convém provocá-lo.

13 de set. de 2005

Sob a mesa


YammmYeee Originally uploaded by ~*FuLL MoOn*~.

Do teu almoço só quero a sobremesa.

Exclusividade


DSCF0008 Originally uploaded by Hound_Cat.

Acabo de me lembrar que meu Coração havia me pedido exclusividade.

Nos campos


Tulpenfeld Originally uploaded by Gakas.
Uma Mercedes passou por nós, sem pedir licença. Eu pediria, se tivesse juízo.

Tulpen, tulips, tulipas


tulpen Originally uploaded by roxydynamite.

Uma bomba de pétalas de tulipas preste a estourar debaixo da minha cadeira. Polens impregnarão as paredes revestidas de cicatrizes feitas à ferro frio. Pensei em fugir. Talvez me consultar com Doutora Médica. Talvez cumprir o acordo com a Doutora Psicóloga. Consultórios têm sido excelentes esconderijos. Entretanto, resolvi permanecer. Quero testemunhar o atentado, mesmo que eu seja o principal suspeito. Só assim junto provas da inoperância alheia. Tem neguinho que está com o cu na seringa. Não tem coragem de me encarar. Aguardemos.

12 de set. de 2005

Na grande sala dos fundos onde os vaqueiros articulavam boa noite suficientemente escura, dormi durante toda a escuta (essa, autorizada pela Atabaque). Corri. Não a tempo. Desencontrei-me dos selos preto-em-brancos. (Havia vários deles escondidos no pano-de-prato.) Por acaso pude acompanhar a partida contra a morte, noutra esquina. Colei suando a essa oportunidade de marrecos e consegui sublimar o vício. Quando me vi novamente diante do Sonífero (Obrigado, Msc. Adriana. Hoje, "elas" estão presas aos intestinos. Frias, frias.) fui contaminado por aquela reação nuclear. Nossa cota de plutônio, explosão de pipas no horizonte da Rosas-dos-Ventos. Um aparte, enquanto estou sendo lembrado pela canção do Apadrinhado (Qual?): Respeito muito as idéias e opiniões do Excelência THC, mas prefiro continuar comendo mandacaru. Até porque não há provas (Ainda). Voltemos ao pseudo-debate. Aquilo lá era uma paródia. Corpos desuntados de gordura humana. E antes de assistir ao espetáculo, passamos por Roma. Fomos cumprimentar Lady Windermere. Reconheci o vati quando seus amigos entraram na sala. Senti muito orgulho de mim mesmo.

9 de set. de 2005

Desertor


3 Poderes, originally uploaded by Leonardo Matoso.

É, Marcinho. Você se fudeu. Preso no berçário sem poder sair. Eu lhe disse, eu lhe disse. Não aceite nenhum favor. Agora você está amarado sem ao menos poder movimentar as mãos, de olhos vendados para notas frias, amordaçado murmurando palavrões. Não seja melodramático, Marcinho. Você gosta de comer esfirra na café-da-manhã. Você gosta da gorjeta que o grego lhe dá. O estrangeiro gostoso, caraca e peludo que nos atende com o cacete (oops!) para fora. Depois dizem que ele é maníaco. Quem está doente sou eu. Cem passos adiante fantasiado de coelhinho. Onde está sua bengala, Dr. Leão? (Vamos tomar uma cerveja, qualquer dia. Para o Senhor, abro uma exceção.) "Ainda vou descobrir o que você tanto faz nesse computador." -- me dissera o desafeto. Falar sobre tua vida é que não é. Há personagens mais interessantes para se conhecer. Seus toques escorre feito mijo roxo, não me serve, eu poderia responder... Eu precisava sair. Ir à biblioteca da universidade renovar uns livros. Mas não posso. Você pode fazer isso pela internet. Podia. Você pode renová-los pelo telefone. De novo? Pouco adiantou teu esforço, Márcio. Vá no horário de almoço. Não tenho horário de almoço. Vá à noite. Não tenho hora para ir embora. Ainda tive coragem de mentir para o embaixador: "Mas, você recebe um salário, não?" Vou embora para Foz de Iguaçu. Lá tenho alguém que me ama se escondendo atrás de relatórios, processos e afins. Minha fotografia escondida no fundo falso da agenda em branco. Será que o Bruno tem se masturbado olhando para ela. Eu poderia enviar-lhe umas fotos minhas. Nu dorsal, frontal, de quatro fazendo um oito. Ele ia chorar as setes quedas do rio, na minha foz onde ele não mais deságua. Acho que ele foi para lá. Preciso conferir essa informação. Será que ele me aceita? Será que ele me perdoa pelos consecutivos nãos. Vou deixar o apartamento com alguma imobiliaria. Não foi esse o combinado? "Como você quiser." A quanto meses estou remoendo essa história? Acaba logo com isso. Ninguém mais agüenta. Faça suas malas e vamos embora. É facil. Simples. Na cidade onde as estrelas caem em forma d'água. E submeter-me ao temperamento desequilibrado do Bruno? Sei não. Naquela tarde, lá na chácara do pai do Gustavo, para que ele ficou atirando para cima? Logo o Bruno que sabe o quanto custa uma munição. Estava se exibindo para quem? Ele estava com raiva. Aos poucos vou me lembrando porque preferi morrer no berçário a acompanhá-lo com honras militares. "Programa de proteção à vítima" Há, há, há! Até onde vai sua imaginação? Até Oort. Quando estou com preguiça. Vamos voltar ao Regimento Interno da Câmara. Eu não disse ao promotor que trabalhar no preparo de mudas de Araucaria angustifolia me faria bem. Lá estou eu novamente me recusando a usar as luvas. Não é isso. Eu as esqueci no lavabo.

8 de set. de 2005

Silver Fizz ao amanhacer

"O Coelhinho estava fazendo suas necessidades matinais e, quando olha para o lado, vê Seu Urso fazendo o mesmo.
Seu Urso se vira para ele e diz:
- Ei, Coelhinho, você não se incomoda de ficar com seus pêlos sujos de cocô?
O coelhinho respondeu:
- Não, isso é normal.
Então, o Seu Urso pegou o coelhinho e limpou o rabo com ele.
MORAL DA HISTÓRIA: "Cuidado com as respostas precipitadas. Pense bem antes de responder."
No outro dia, o Dr. Leão, ao passar pelo Seu Urso diz:
- E aí, Seu Urso. Com toda essa pinta de bravo, fortão, bombado; te vi dando o rabo pro coelhinho ontem.
MORAL DAS HISTÓRIAS: "Você pode até sacanear alguém. Mas lembre-se que sempre existe alguém mais filho-da-puta que você."


Bugs on the Dog Blanket, originally uploaded by salmonberry.

7 de set. de 2005

Céu de nuvens pesadas. (Não vai chover.) Gramas secas. Havia umidade suficiente para os espectadores. O que por si só já seria a novidade. Os cavalos disciplinados, as éguas olhavam para frente. Minha credencial enfeitava meu bolsilho, as autoridades enfeitavam meus olhos. Alegres. Quinta-feira, vou ter uma entrevista. Vou sobreviver. "Na quadra 12 do Setor Sul vende-se skunk." Informação irrelevante para o agente da Polícia Civil. O rapaz de boné amarelo, de camiseta cinza, cabeça raspada. Másculo. Branco cor de bronze batido. Seus olhos verdes assustam. Dois homicídios antes de completar dezoito anos. Preciso estudar Criminalística para entender o que o agente está dizendo. "Você também esteve pegando um sol, não?" Ele nem levantou a cabeça. Fez que ia me entregar um papel, hesitou. Fitou-me os olhos.
-- Você nunca mais me ligou. Está namorando?
-- Não. Quer dizer. Estou vindo de um fim de relacionamento. E estou bem. Se estou aqui enfretando essa multidão de conhecidos, é porque eu estou bem.

Olhei para o céu, não para ver a esquadrilha da fumaça, mas para segurar as lágrimas. Quando parei de olhar os aviões, os olhos do agente ainda estavam lá me aguardando. Felipe era seu nome. Cabeça raspada, másculo, olhos verdes. Tal qual o narcotraficante. Completamente diferentes. "E você está namorando?" Não devia ter feito essa pergunta, agora o Felipe vai pensar que estou interessado nele. (Porque não?) (E está mesmo). "Sou casado com minha profissão. Esqueceu-se?" (Tão novo e já comprometido.) "Mas isso não significa que eu não tenha meus rolos por aí." Reclamei do clima seco. Despedimo-nos com um aperto de mão (longo, apertado). Desejei-lhe bom trabalho. Antes de eu me afastar para nunca mais vê-lo, (as coincidências...) ao menos não pretendia, ele me perguntou onde havia errado. E antes que um dragão da independência me pisoteasse, me puxou para junto de si.

-- Sempre o herói antento a salvar e proteger os inocentes.
-- Quem precisa ser salvo sou eu... Vamos sair, qualquer dia, tomar alguma coisa, ir ao cinema.
-- Dezessete de março, o que me diz?
-- Amanhã à noite.
-- Sábado à tarde. Você deixa a arma, a funcional, o relógio e o celular em casa.
-- A carteira também?
-- Se você não se importar de dar entrada no hospital como indigente, tudo bem.

Ele riu, como eu nunca havia visto antes. Risos descontrolados. Chamava a atenção dos transeuntes. Não sei se ria de prepotência, por achar que nada, nem ninguém poderia lhe atingir; ou se ria de felicidade, por eu ter aceito o convite.

-- Posso lhe buscar meio-dia?
-- Você ainda se lembra onde eu moro?!

Ele se lembrava de muito mais, e eu esse tempo todo tentando esquecer.

6 de set. de 2005

5 de set. de 2005

Vou mergulhar na piscina de baratas novamente. Asco, se elas não proclamassem a Paz. A bandeja contava os passos. Desfalque de quinze sacas de cimentos. A Branca me fazia cobranças, confissões. Seu pai me quer. "Eu o aceitaria como genro, aquele lá não!" Ainda bem que o Fornazze estava longe o suficiente. Nossos lábios protegidos. Eu estava cochichando? Pelos corredores toda conversa ocorre ao pé do ouvido. Quanto mais político, quanto mais importante, mais inaudível. "Ela estava me convencendo a trabalhar na campanha. Deixei claro que não iria." Imprensado no muro chapiscado, com um braço pressionando meu pescoço, sustentei minha verdade. "Não gosto de ver você conversando com ela." Mas ele adorava me ver fodendo aquela bunda morena, ou me ver sendo fodido pela prótese calejada, ou ainda foder alternadamente nós dois, na fantasia dele, nós duas. O hálito da cerveja me incomodava mais do que o semi-estrangulamento. Dizer-lhe que estava me machucando, que estava doendo, só iria excitá-lo ainda mais. Dizer-lhe que estavam todos olhando, só serveria para ele me lembrar que todos ali lhe devem favores. "Vamos dar uma volta de moto, amor. Fazer uma trilha. Assim não haverá testemunhas, será mais fácil se desfazer do meu corpo." "Não, não. Eu gosto muito de você." Há quanto tempo não ouvia ele me dizer que me amava. Haveria desistido ou se conformado? "Gosta?! Não me ama mais?" Ele olhou para os lados, para se certificar que ninguém nos observava. As pessoas estavam mais preocupadas com a picanha assando. E sussurou. Só tive forças para corresponder ao beijo. Era um churrasco de despedida. Todos ficaram felizes.