30 de jan. de 2006
28 de jan. de 2006
Meu Amor vive de brisa
Flagrei o Minotauro vasculhando as gavetas da escrivaninha. Cínthia, vamos estudar mandarim. É a única solução que antevejo, salvo as paredes de correntes penduradas. E ainda me perguntam, se as marcas são de chicote. Chicotinho queimado, tesouro. Vuuuuuuu... Te mostrei a tatuagem? Na pélvis estava escrito: Bruno Fornazze. Nem quando os pêlos crescerem, será coberto o vislumbre do inferno. Eita, grutinha, quente da porra. Você não ia fazer no cofrinho? O Naz preferiu na frente. Melhor do que piercing. Ela aceitou contrariada. Ele se apropriara do corpo da Cinthia, mas a alma era de Deus; enquanto estiver eu por perto, alimentado sua mente com palavras. Ah! Marcinho você é tão inteligente. Já lhe disse, se eu fosse inteligente estaria em Salamanca, observando os patinhos correrem atrás da mamãe deles? Como é mesmo aquela palavra? Ensimesmado. O telefone interrompera nosso chá. Atendi. Sete palavrões para me convencer da estima que sentia por mim. Eu te amo, declarou-me o sumo pontífice. Papá. Papa. Papão. Atendia como eu bem lhe chamasse. Naz, ela está no banho. Ele pediu-nos que estivessemos no restaurante às nove horas . Passeio completo. Chegamos 10 minutos atrasados. O maitre nos recebeu sorrindo. Encontraram um fuzil que só ele sabia desmontar, levantou-se e saiu. Deixou a garrafa pela metade. Eram sempre as mesmas histórias. Se o celular tocasse, podia ser no meio da trepada, ele vestia a calça, arrancava as meias pretas de dentro do sapato, calçavá-los e saia abotoando a camisa azul. Sempre a mesma. Amante de rituais. Começa de baixo para cima para não se peder. Do dedão-do-pé à orelha. Do calcanhar à nuca. Nossos pés, segurados com as mãos, como se fosse possível fundi-los. Eu relutava. A Cinthia se submetia. De cabeça para baixo havia poucas rotas de fuga. E cade a sua? Você vai pagar?... Fala lá com o Montalvão. ...pelo centímetro quadrado da minha pele. Bota preço. Não estou à venda. Como não queria ser estripado, antes de ser arremeçado contra o espelho, disse-lhe que para ele seria de graça. Além de irritar, o que você quer? -- me perguntou, acariciando-me o pescoço. Devagar, murmurei. Dentro da Cínthia havia um néctar diferente. Cheirava à brócolis. Na posição que me encontrava, me convenci que ele tinha razão em controlar nosso quotidiano, mesmo que para isso espionasse nossa privacidade e pusesse estranhos para nos seguir, nos observar. Sim. Eu tenho um diário, no qual você é o antagonista da minha história. Sinta-se privilegiado. Só me lembro de quem amo, no momento em que estou escrevendo. Seu hálito me refresca. Já tomou cialis? Disseram que só de soprar a brisa... Quando estou saltando a 9.000 pés de altura (acreditava em tudo que ele dizia; a Cinthia, não.), penso na gente, no que iremos inventar na próxima vez que nos encontrarmos; ouço, mentalmente, seus gritos, os gemidos da Cínthia. Só há uma sensação melhor do que saltar de pau duro. Ele me beijou. Afastei-lo ao me levantar. Que aconteceu? Nada, Cínthia. Só não estou com paciência para ficar dando atenção a gente bêbada. Não sei como você agüenta o hálito dele. Perfume dos trópicos, me dissera uma vez. Aquilo foi no início.
27 de jan. de 2006
Episódios amalgamados
26 de jan. de 2006
O gosto que me arde na boca
Só podem estar de férias. Oh! Meu Amor, estive tão ocupado. Nunca mais ele atualizou o weblog. Isso também me incomoda. Escrever à noite me entorpece, mais do que me incomoda. Até parece que estou de volta à universidade, dormindo durante a viagem, passando da parada de ônibus, sendo acordado. Por quem? Poderia ter sido com aqueles cafés-da-manhã, servidos na cama, acordado com beijos. Meu hálito azedo. É desse azedo que gosto, minha vinagreira decantada, ele me respondia. Meu Amor, não ousa pronunciar meu nome. Entendo-lo. Eu faria pior. Ama-lo-ia e o descarta-lo-ia na manhã seguinte. Sem trocar números de telefones. Sem promessas. Sem esperanças. Aos poucos, vamos revelando os segredos sussurrados durante o jantar no apartamento do senador; ou ainda; aos poucos, vou lhes mostrando os detalhes da decoração da mansão do Almirante. Não sei se interessa. Me permita ser vulgar, leitora, essa frase me ressoa doloridamente: "Eu te amo, vagabunda. Você é só minha, puta. Te quero demais." Por que ele inverte o gênero? Até quando suportarei prededores de roupa presos a bainha da minha camiseta? Tenho péssimas lembranças: "Pensei que você havia desertado?" O corpo arqueado mal conseguia se equilibrar na lustrosa muleta de titânio. As rosas olhavam para o chão por vergonha de serem mais bonitas do que eu, a sobra do bagaço da laranja da terra. A fervura da calda do doce me trazia mãos a me acariciar a cintura. Sai para lá. Me solta. Não tinha mais esperanças de algum dia compartilhar das nuvens, cujas curvas ontem à noite me ensinaram a soltar pipas. Foi bom? Desconfio de quem me permite repuxar suas estrelas. Razoável.
11 de jan. de 2006
GLAUCO DAMMAS
10 de jan. de 2006
Teoria do Caos: bibliografia introdutória
"A essência dos Caos". Edward N. Lorenz.
9 de jan. de 2006
7 de jan. de 2006
Membro da Minustah confirma suicídio de general
Ilse Losa (1913-2006)
SESC-2006. Nós encontraremos lá.
6 de jan. de 2006
Ná Ozzetti - site oficial
O rascunho que não fui capaz de escrever, ontem à noite, por causa de uma preguiça ensurdecedora
(Os astrofíscos devem fazer idéia de quem vem lá.)
5 de jan. de 2006
Laurence Sterne (1713 - 1768)
Não tem.
Não tem.
Não tem?!
Tem. Oba!
Pena que estejam de recesso branco.
Fundação Biblioteca Nacional
4 de jan. de 2006
Abacaxi corta o apetite
Márcio, vai almoçar! Agora, não. Estou escrevendo. E foi assim o dia todo. Vá almoçar. Estou sem fome. E o almoço? Depois. Mousse de maracujá? Deixe-a aí. Tem anis. Ahn-hã. Como se escreve hecatombe? Hmmm... o significado da palavra vai distorcer a idéia do texto. Mordera o nó do dedo da mão esquerda. Vasculhava a memória a procura de outro substantivo. Perfume achocolatado. Veio imediatamente a imagem da fumaça lhe penetrando a pele. As cinzas brancas calmamente depositadas no cinzeiro. O olhar desaprovando a partida compulsória. Telefona, assim que chegar? Lógico! E o beijo? Adeus. Escrever não mais afugenta o arrependimento da saudade que me estrala no peito. Se o Bruno soubesse que não mais será servido almoço aqui na loja, faria galhofa do meu apetite. Estou mandando a barca te buscar, 11h30, pode ser? Seria sua fala. Não te falei que você estaria melhor ao meu lado? Fantasiar a existência de um amante lhe ajudava a superar a humilhação. O Marcinho não almoçou hoje. Pode parar! Você fala que não é para se preocupar com ele. Não te entendo! A vida me empurra para prostituição dissimulada. Ninguém mais me agüenta ouvir lamentar a sorte. A aliança, trouxe guardada no bolso da paletó.
Ouvindo Edu Lobo cantar "Berimbau":
Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza, camará
22 de dez. de 2005
A ausência em todos nós
Uma imagem nunca será capaz de transmitir o alívio que ela estava sentindo. E podem chamar Milcho Manchevski.
Largou os cartões de natal em cima da mesa. Esqueceu o estabilizador ligado. Saiu descabelada pela casa, tropeçando nos brinquedos do caçula espalhados pela cozinha, com a gaiola do canário na mão. (Presente do homem lhe fazia gozar todos os dias por telefone.) Foi ao vizinho que lhe devia favores, pedir que cuidasse do seu filhinho, até seu retorno. "Eu sabia que aquele velho branco, gordo, peludo e barbudo algum dia me seria útil."
Ela estava em êxtase, sob efeito da espera dos últimos onze meses. (Ele soube induzi-la). Um comprimido, um gole d'água; mais um, outro gole; o último e pegou uma banana na fruteira. Comer uma fruta, lhe traria a certeza de que os comprimidos chegariam ao estômago. Foi ao banheiro da empregada e jogou suas cartelas de esperança no vaso. "Adeus, balinhas. Feliz Natal para vocês também. Deu descarga. "Nunca mais nos veremos." Olhou-se espelho, ajeitou a franja. "Já pensou em ser morena?" Passou pela cozinha, sem se comover com as louças ensaboadas, que ainda lhe aguardavam. Arrumou tudo de qualquer maneira e se despediu do escorredor de pratos, mandando beijo. Feliz Natal, meu amor! Para você também, phalaenopsis, Feliz Natal! (Regou a orquídea por desencargo de consciência). Boas Festas, Geladeira! Felicidades, Seu Fogão! Olhe lá hein, Dona Pia, não exagere na gordura; se despeça do tanque por mim. Foi fazer as malas.
No Rádio Táxi, demoravam a atender. "Alô? Bom dia! Por favor, eu gostaria de falar com o Ramirez." Olhou para o guarda-roupa. Franziu as sobrancelhas. Levaria apenas o chinelinho preto. (Outro presente do amante que ela só conhecia por fotos, voz e webcam). Pegou estojo de maquiagem (motivo de tantas brigas) e o colocou debaixo do travesseiro da cama da irmã. "Não vou mais precisar disso." Desistiu de levar mala. "Nem valise." O charme seria desembarcar sem nenhuma bagagem, além da edição de luxo, em original, D' El Ingenioso Hidalgo de Don Quijote de la Mancha. (Presente de quem? A não ser do homem que conhecia seus sonhos, seus segredos, suas pretensões.) "Ele me apoia." É por você que estou lutando contra esses moinhos-de-ventos. -- dizia a dedicatória escrita atrás da fotografia. Cheirou a contra-capa como se fosse o pescoço dele. Respirou fundo. Acreditava que não bastava ser bonita, gostosa, sedutora e elegante. Tinha que ser culta, mesmo que não fosse inteligente. Abraçou-se com o livro.
Banho tomado. Cabelos presos. Saiu apressada em direção ao local combinado com o amigo taxista. Se trancara a casa, não se lembraria. Pensava apenas em embarcar, na confirmação do check-in. Enquanto aguardava, em pé, em frente a agência bancária, tirou da bolsa o caderninho de capa de couro de búfalo e escreveu: "22 de dezembro de 2005." Lembrou-se imediatamente da avó; do velório, dos crisântemos brancos, da vontade de se jogar na poça de lama, da rama de philodendron, que quase foi esquecida. "Dona Virgínia, não se orgulharia de mim." Escreveu alguns versos com letra miúda, trêmula, ágil Fechou o caderno, sem ainda guardá-lo na bolsa. "Vou fazê-lo vir me buscar." Tarde demais. O táxi freara a poucos centímetros dela: "Oi, Gostosa!" Ela teve certeza que deveria abandonar aquela vida. Entrou no táxi, pediu que a levasse ao aeroporto. Contou-lhe a novidade.
Ofegava, se confundia, trocava data e lugares. Ele apenas balançava a cabeça: "Você, é doida, gata!" Mostrou-lhe as passagens para provar-lhe o que estava dizendo. Ele estacionou no acostamento. Pisca-alerta ligado. "Vai ter coragem de deixar a gente?" Ela prometera escrever todos os dias, sem censura ou vergonha. Enviaria-lhe fotografias nas quais ela estaria mergulhando num mar de recifes azuis. Ele pigarreou. "Se você nunca deixou-se fotografar, porque faria agora?" Ela estava quase arrependida de tê-lo chamado, quando ele contornou o balão do aeroporto. Ao estacionarem no desembarque, ele ainda lhe perguntou: "Vai mesmo?" Ela não lhe respondeu, preferiu beijar-lhe. Um longo, melado, profundo, beijo de língua, enquanto acariciava-lhe o zíper da calça de brin bege. "Quando você volta?" Ela já estava longe. "Antes do dia quinze", gritou, "Feliz Natal!" Por ela, poderia ser nunca mais. Rebolando mais do que de costume, encaminhou-se a balcão de atendimento. A moça pediu que se apressasse. Todos já haviam embarcado. Nem ouviu a atendente desejar-lhe boas festas.




