23 de fev. de 2006

Aguardando o chamado


WAITING FOR A WORK, originally uploaded by cutangus.

Os Lábios-Carnudos pronunciaram meu nome ao sentir meus olhos procurando os seus. Meninas-dos-olhos âmbar. Dante sonhava com Beatriz, eu sonho com você. todas as noites é contigo que me deito. Não há como me sentir só no minúsculo quatro frio das nossas esperanças. São seus braços que me apertam quando imagino ouvir o rangido da porta, minutos após. A janela aberta alimenta minhas fantasias. Você ameaçou me visitar. Que venha, então, com a sirene ligada anunciando urbi et orbi o seu amor tolhido, encolhido, colido por mim. Fico feliz pela sua linda família. Pelo caminho que escolheu. E se não é feliz, conforme me confessou por e-mail, talvez seja pelo orgulho que me obriga a negar-te. Não sei dividir seus beijos com mais ninguém. Queria aprender. Sei que você está aguardando o meu chamado, um bizu (de acordo com seu jargão). Recomendo que leia um livro, enquanto espera, assim você não perde seu tempo pensando na gente.

Efeito Katilce

Seriam os internautas imbecis, ou há uma conspiração para imbeciliazar as pessoas? Nenhuma, nem outra. Talvez as duas e mais algumas. Só sei que desliguei a televisão diante do fato dos âncoras terem dado tanto importância à celebridade instantânea. Eu tenho um liqüidificador ou um moedor-de-carne na sala-de-estar? É uma serra-elétrica afiada pronta para derrubar o que tiver pela frente. Quero a minha digital, o quanto antes.

Luciana Gimenez entrevista Mick Jagger

Eis um casal que eu adoraria ver juntinhos. Sim! Tenho lá minhas fraquezas. Essa magreluda é uma delas. Como diria uma amiga, não basta ser bonita, gostosa, bem-nascida, perspicaz; tem que ser poliglota. Anciãs iletradas em coreano, anciões surdos-mudos em alemão. O ator que domina diversos sotaques (dialetos) brasileiros. A menina que fala gírias (dialetos) de distintos grupos sociais. Na escola acesso a quatro idiomas. Você não se confunde? Não. Me pergunta em espanhol, ao me ver responder ao cumprimento de uma colega da turma de francês. Aproxima-se um outro colega, perguntando qual poema do Whitman que havíamos escolhido para recitar no Festeirol. Não me decidi. Você é muito enrolado. São todos tão lindos. A moça não conseguia lembrar o poema escolhido por ela. Só me vem o título em espanhol. Há! Há! Há! Há. É da escola de línguas que me lembro quando assistia à Miss Gimenez. Eu a entendo, por isso não a julgo e mesmo se não a entende, não a julgaria; pelos menos preciptadamente.

22 de fev. de 2006

"Me sinto frustrado por não ter diploma"

Ôh, presidente, faz favor. Academia deveria ser para aqueles que possuem espírito investigado, que esqueceriam da humanidade para viver da e para pesquisa científica apesar das dificuldades. Abnegação, em suma. Convenhamos, nem todo mundo tem paciência para testar hipóteses, sendo que muitas vezes descobrimos aquilo que todos já sabiam. Conheci pessoas que detestavem discussões infindáveis. Seriam eles os chamados pragmáticos? O saber são vários e todos extremamente válidos. Não supervalorizo um conhecimento, em detrimento de outro. Apenas, acredito que o ensino médio deveria passar por uma REVOLUÇÃO, no sentido exato que essa palavra encerra. Poderia começar com bibliotecas escolares amplas, iluminadas, acervo multimédia com um catálogo inicial de 10.000 (!) obras, cadeiras e mesas confortáveis, notebooks por mesa com acesso rápido a web (com filtros, hehe), aberta 24 horas por dia. Isso custaria uma fortuna, diria os pessimistas. Que nada! Iríamos atrair investidores, ávidos por formentar o capital social. Acho que vou convocar uns amigos para que elaboremos um Projeto de Lei, (agora você foi longe demais) ou escrever uma cartinha para Dilma Rousseff (enlouqueceu!) já que me parece que a coordenação da campanha estará sobre seu comando. Frustação seria me acomodar.

(I Can't Get No) Satisfaction


Show Rolling Stones - Rio, originally uploaded by bgoyanna.

Enquanto voltava da sessão, me perguntava se haveria um artista brasileiro capaz de reunir mais de um milhão de pessoas, aqui ou em qualquer lugar do mundo, num estreito calçadão, onde pés eram carinhosamente pisoteados. Não há. Principalmente, quando o único (?) motivo era cantar(?) com seu ídolo.

A propósito, quantos milhões de cópias eles já venderam no Brasil? Devem ter sido muitos, visto a quantidade de pessoas que se diziam fãs. Talvez, leitora, leitor, vocês estejam sentindo um ressentimento recender. Ele queria ter estado lá. Só se fosse para ser um homem-bomba. BUM! O Mr. Jagger não perderia o rebolado.

Irrito-me com esses estrangeiros que abusam do status e do poder econômico para nos seduzir e nos obrigam a realiar suas fantasias mais depravadas. Eu me recuso. A Literatura não me permite ser moralista, mas apoiado na crônica na qual nossa Clarice Lispector critica o programa do Chacrinha, declaro que preferiria o exílio, a ter que me sujeitar ao que pensam ter poder.

Lula tenta cortejar o voto evangélico

Se der tudo certo, passamos a impressão ao mundo que somos uma sociedade ecumênica, tolerante. Minha ingenuidade me dilacera os ânimos.

21 de fev. de 2006

Sonhar com lírios

Agora que sou beneficiado, incentivo o e-commerce; as comodidades, as vantagens. Esquece isso. Vamos à promotoria agora de manhã. Você terá coragem de denunciar o torturador depois de ter ido para cama com ele? Ele nunca vai sabem quem o delatou. Até porque se tivesse sido algo mais que sexo, teria piedade daquele pequerrucho volume dentre as pernas, que se tornou descomunal quando você aproximou da boca, né? Poxa, filé, finalmente. Finalmente? Desde outubro estava a procura desse protótipo de Highlander. E ele me chamando de meu amor. Oh, perfume, danado, gostoso. Ah, o amor. Por causa dele, vou refletir.

20 de fev. de 2006


Sign..., originally uploaded by holysloot.

Primeiro pensamento ao levantar da cama: "até estancar o sangue."

18 de fev. de 2006


Crocus #2, originally uploaded by Lord V.

O cansaço sobrepõem a vontade.

17 de fev. de 2006

Puliças da Core realizam um churras pré-carnavalesco, um dia após carnificina na Rocinha.

Seriam eles antropógafos?

Los idiomas celtas

Será que tem algo a ver?

Uma Leitura de Tristão e Isolda à Luz da Crítica Feminina

Burro, burro, burro. Incorrigivelmente burro. Eu não sabia.

190, originally uploaded by FabioMarim.

Foi convidado à formatura do fulaninho. Vou declinar do convite. Só não sei como.

16 de fev. de 2006

Hablemos chino

Há! Há! Há! Há! Há! Há! Pode ser mais que divertido

"Inglês não será mais vantagem no mercado de trabalho"

Mandarim ou árabe?

Povos e Civilizações

Uma vela. Fósforo. A lanterna!

Edmund Husserl

Fenômeno para ele é consciência enquanto fluxo temporal de vivências, apresentando intencionalidade enquanto estrutura, ou seja, consciência de algo.

Schelling

É por onde gostaria de começar. Por causa do conceito de liberdade.

Leibniz

Há! Há! Há! Me gustas quando callas

São Tomás de Aquino

Devagar, divagar, vagar.

Platão

No mundo das Idéias

Aristóteles

"(...) uma base de acesso aos textos de Aristóteles traduzidos em língua portuguesa, e às suas interpretações contemporâneas."

15 de fev. de 2006

"Viagem de astronauta brasileiro é marketing, diz militar"

Gostaria muito de dizer a esse Comandante que não há mal nenhum no marketing em si. Problema seria, o uso que se faz e e se fará dele. Se a viagem não traz avanço tecnológico, traz com certeza avanço GEOPOLÍTICO. E disso, temos certeza que o Ten. Brigadeiro-do-Ar entende; caso contrário, não estaria onde está, (ou não?) Portanto, trata-se no mínino de uma leviandade sua entrevista à FDS.

"Mulher e amante morrem asfixiados dentro de motel"

Seria engraçado, se não fosse trágico.

Pesquisa consolida recuperação de Lula

-- Não creio que a diferença seja de votos voláteis, visto a entrevista do presidente ao Pedro Bial.
-- Tu votarias em mim?
-- Depende, você vai se lançar por qual partido? Eu voto no partido.
-- PFL
-- De jeito nenhum! A proposito, tenho um amigo da liderança jovem do PSDB, com pretensões ao executivo nacional, extremamente conservador. Nunca mais quis sair com ele. Hipocrisia me irrita.
-- Estranho. Era para ele ser liberal.
-- Progressista. O que mais existe é entendido com visão política retrógrada.

Ele virou-se de costas e terminou de tirar a espuma do corpo, sem me responder se nos encontraríamos hoje.

14 de fev. de 2006

Abençoai-nos, São Valentino

Você se ausenta muito de Brasília? Não. Enfaticamente respondeu. Trabalho no Gabinete do Comando. Conheço gente lá. Quem? Isso é irrelevante. Para você! Quem você conhece lá? Tive que explicar que de fato não conhecia ninguém, apenas prestávamos serviços. Beijos sufocantes me obrigaram explicar como era a prestação de serviços, as compras, as vendas, a emissão de notas fiscais. (Como se ele já não soubesse. Queria apenas me forçar a falar.)

Você me saíra um perfeito espião. Trabalho na Inteligência. E você confia uma informação dessa a quem acabou de conhecer? Há meses estava na sua rota. A colisão seria a qualquer momento. Isso me cheira à Bárbara? Diríamos que ela seria nossa madrinha. Barbárie. Vou matá-la. Ela te disse que sou comprometido? An-ham. (Cínico!) Vou me aproveitar barbaridade do bárbaro vigor que ostentas e nunca mais vamos nos ver, pelo menos nus -- suados e agarrados, refletidos no espelho do teto.

Fiz força para sair de debaixo do cavalo e mostrei-lhe quão gentil cavaleiro, eu estava disposto a ser. Estou acostumado a maiores, disse-lhe. O riso de deboche ecoou por todo quarto. A expressão de dor me traiu. Só agora me dou conta que meus parentes e amigos podem vir a ler isso. Imprimir e ler. Estupefatos. Decepcionados. Irritados. Atônitos. Estarrecidos. Não posso fazer nada. Sorry! Minha leitora me paga para eu ser imaculamente pornográfico. Onde eu estava mesmo?

O cu pedia água; a garganta, arrego. Implorei que jorrasse o que tivesse ainda para jorrar. Terminasse com a sessão de espasmos. Não tenho pressa. Não sei se vou ter esse prazer de novo. (Canalha!) Procurei seus lábios. Infligir um terço da dor que eu sentia, ao mordicá-los. Quer namorar comigo? O mito irlandês estava diante de mim. Fruto da ironia, do improvável. A dúvida. Hesitei diante a mudança. Preciso pensar. Saber como vou fazer para devolver as chaves sem despertar a erupção do Vesúvio. Acalmar a fúria diante a provável separação. Estou me sentindo mal, por ter (estar traindo) aquele que me alimenta os sonhos. Mas essa solidão somada a essa ausência... Ele veio em boa hora. Posso voltar à minha leitura. Agora vou conseguir me concentrar.


James Joyce-21, originally uploaded by jpfinley.

Um pouco de cultura e munido de boa vontade, assim estou enfrentando Finnegans Wake (Ai, ai, só quer ser o culto), doravante FW. Deseja-me sorte. Nessa salada de frutas, sirvo morangos amassados; caso contrário, o torto fumegante sobe na cama para dizer bom-dia-meu-amor.

Há cinco dias o romance-poema estava me esperando sobre o criado-mudo. Entrei no apartamento, como se estivesse indo salvar, das chamas do incêndio, um idoso. O molho de chaves zombava de mim. Perdi uma sexta-feira, um sábado e um domigo de leitura. (Por que será que ele insiste?) Gritei, ao saber por telefone que eu deveria (logo) buscá-lo. Pensei que ele também estava lá. Tranqüilamente, me despedi dos meus pares e decolei em direção da Lua. Disfarcei minha euforia. Não queria mostrar-lhes minha frágil felicidade. Aqui é proibido sorrir, já que ser feliz tornou-se impossível (Por quê? Explica-nos se for capaz).

Quando se fala ou recomenda muito algum romance, filme, exposição, o que se seja; das duas uma: ou você se decepciona, ou derrete-se de gozo. (Haveria a opção da indiferença, esqueceu-se?) Não me decepcionei, contudo (cuidado com essas vírgulas), a leitura gaguejada está longe de me lembrar o foda de ontem à noite: a leitada escorrendo pela minha bunda, o cacete batendo no meu rosto, com a glande sendo esfregada nos meus lábios; o indicador grosso me rasgando o cu. O dedo médio, depois o anular. Prazeres distintos, baunilha. Nenhum possui a pretensão de substituir o outro. Até porque, parece que o dia de ontem não anoiteceu. Nem a agenda sobre a cama prova que encontrei alguém que só diz me querer. Só se for nu, de cabeça pra baixo com as pernas a procura de apoio. Não achei graça. De novo, não faço. Meu nariz escorrendo sangue, um pedido safado de desculpas. Mesmo assim, ele consegue ser mais carinhoso que os outros.

13 de fev. de 2006


g27iwb, originally uploaded by deantimes.

No convite estava escrito: 20h. Cheguei às 17h para ajudar no que fosse preciso. Posto a mesa, fui ao supermercado comprar uns kalanchoes para enfeitar os banheiros. Branco, amarelo, laranja e vermelho. Acabei por comprar, também, duas echeveria laui para as mesas de centro e um pachypodium lamerei de um metro e meio de altura (eis auma das vantagens em se morar perto de um hipermercado). O canto da sala respirou aliviado. A anfitriã se atrapalhara com o assado. Na garrafa de Chandon restava uns quatro dedos, se muito. Você não vai beber nada. Esqueceu-se que não bebo. Sugeri ao garçon que utilizasse uma bandeja menor. Passa uma sensação de informalidade. Os convidados chegaram prontualmente, visto o fato de todos terem que se levantar cedo no outro dia. O rapaz que entrou por último, atrás da moça de vestido esvoaçante de flores azuis, chamou minha atenção Chamaria de qualquer um. Fotogênico, ombros largos, rosto quadrado, uma garrafa de vinho na mão, Luigi Bosca. Respire fundo, Marcinho. Não olhe mais na direção dele. Minha amiga me procurava com os olhos, movendo discretamente a cabeça. Chamou-me com um balançar de mão. Refugiei-me no banheiro. Quando abri a porta, fui surpreendido por ela segurando o rapaz pelo braço. Marcinho, esse é o Mucuri. Prazer. Estendi-lhe a mão. Sorri contrangido. Prazer é todo meu. Você, lavou essa mão? Cala boca, Bárbara. Ela não perdia a piada.

Ele tinha um dôssie sobre mim, conforme me confessou na varanda, antes de brindarmos aos noivos: o que estava lendo no momento, cineastas preferidos, a razão das minhas cólicas, meus planos para 2006. Vou degolar a Bárbara. E mudo de tão calado, sem conseguir organizar o raciocíno, fitava-lhe o cinza que lhe coloria os olhos, podia ver o vazio que se tornara minha mente. O garçon passou por nós e nos ofereceu da bandeja. Ele se esqueceu do forro. Antes que eu recusasse a gentileza, o Mucuri pegou uma taça e me entregou. Seria grosseria recusar? Provei do vinho antes de brindar a nossa saúde. Esse seria o primeiro vexame da noite. O segundo foi lhe dizer que gostaria de vê-lo novamente. Quer ir ao cinema, amanhã? Você gosta de acampar? -- me perguntou. Vamos para varanda. O som alto não nos permitia mais conversar. Se permiti que me abraçasse, foi descuido. Se perguntei o que seria aquele volume debaixo da jaqueta foi pura inocência alimentado por um hálito de gengibre. Eu me assustei com sua resposta, ele ficou constrangido. Não deveria andar armado. Concordo. Vim direto de uma missão para cá. Ah... Tá! Ele mentiu tão bem, que senti vontade de acreditar.

11 de fev. de 2006

O amor por sua vez, não acaba jamais.


what I'll do for art, originally uploaded by reiscakes.

Oui. J'ai une blog. A maturidade adquirida me permite confirmar suas dúvidas. Sim. Eu tenho um blog. Não há mistério, apenas uma vontade arroxeada de forrar com flores de bougainville o caminho que deixarei para trás. Despedidas podem comprometer nosso contrato. Não ouse me chamar pelo meu primeiro nome.

10 de fev. de 2006


Brasília, originally uploaded by Mel Toledo.

Chove torrencialmente na capital.

Agudás: O Brasil no Benin

"Nunca mais o Brasil dará as costas para a África." Podem chamá-lo de populista, de demagogo. Mas uma frase dessa só poderia ter saído da boca de um estadista.

9 de fev. de 2006

Cronologia da crise das caricaturas de Maomé

O Editor-chefe do jornal dinarmaquês "Jyllands Posten" demorou demais a pedir desculpas. Deveria pedir perdão, pois acredito que eles refletiram muito antes de publicar as charges. Em nome da suposta liberdade de imprensa, podemos publicar o que quisermos? Creio que não. O bem-estar coletivo sobrepõe-se sobre a liberdade expressão. Não seria do interesse da Impressa noticiar um fato que causaria caos. Ou seria? Espalhar temor, medo e preconceito ao noticiar uma pandemia que se transmite com muita facilidade.

Apoiado na sátira, pode-se atacar os que estão no comando das instituições. O ataque deveria vir de quem está dentro do sistema e não de quem de fora tem uma imagem distorcida. Quem ver de fora ver melhor. Depende das intenções. Parafraseando Comte-Sponville, uma coisa é um judeu contando piada sobre judeus; outra coisa é um neonazista contando a mesma piada. O humor pode aliviar, ou pode nos humilhar. Serve para alimentar a esperança (A Vida é Bela) ou reforçar o preconceito. Admiro-me Copenhague passando por esse vexame. E eu que pensava que a Europa fosse educada. Queria só saber quem está por trás das publicações charges? Estou a correr atrás de hipóteses.

8 de fev. de 2006

(...) Ele é igual a puta de boate; quer receber o máximo, no menor tempo possível. Depois eu vejo o que tem essa máquina.

7 de fev. de 2006

"A Estética da Desgraça" ou "Os Figos"


Kaki kui, originally uploaded by Hobo pd.

O que tenho a dizer sobre a XV Feira Internacional do Livro de Havana (XV FILH 2006)

Olha só como resgato uma informação, diário: Qual é mesmo o nome daquele escritor cubano renegado pelo regime?Filmaram suas... confissões? O protagonista do filme foi indicado ao Oscar de melhor ator... ele era espanhol... Huevos de Oro. Bigas Luna... O telefone tocou. Realizei uma venda. Não me pergunte para entregar onde, pois já me esqueci. Quando voltei ao editor de texto, já tinha um nome: janvier. Pesquisa no Google. Nome de semana?! (Segunda-feira em francês, Márcio! Paris ainda povoa teu inconsciente? Safado! Que decepção!) Nenhuma referência à cinema. Respiro fundo. O movimento dos meus olhos demostram que estou tentando me lembrar de alguma coisa. Ah! Ele foi o protagonista de Carne Trêmula. No quinto link, seu nome: Javier Barden (rabiêre báredêm, rabiêre báredêm, rabiêre báredêm, rabiêre báredêm, rabiêre báredêm, rabiêre báredêm, rabiêre báredêm, rabiêre báredêm, rabiêre báredêm, rabiêre báredêm). Volto ao Google. Nova pesquisa: Javier Barden. Pesquisa avançada. Espanhol. Teria ganhado tempo, se tivesse pesquisado logo quando me veio "Huevos de Oro". Pára de se lamentar, que te sirva de experiência para acreditar na tua intuição. Ele clicou no primeiro link, sem se importar com o que se abriria. Droga! Volto à página anterior. Quarto link. Comercial demais. Achei! "Antes que Anochezca (Before night falls, 2000)". Página demorando a carregar. Reinaldo Arenas. Google. R e i n a l d o A r e n a s. Eita! REYnaldo Arenas.

Percebi um certo estigma, por trás das "reportagens" e "resenhas". Porque ressaltar SOMENTE o sofrimento e as dificuldades? Até parece que só as minorias são perseguidas. Senti também certo folclore sobre a prática sexual. Se as mamães não encontram escondido nos pertences dos seus filhinhos objetos simulacros de vagina, assim como os agentes de polícia dizem encontrar na casa de homossexuais executados vibradores e chicotes, ora é porque seus filhinhos, mamães, não encontram algo que pudesse substituir uma boceta. Até porque, conformamo-nos resignados com a mão macia, a bananeira fria, a cabra fedida. Aliás, leitora, permita-me esta digressão: quando minha psicóloga criticou a avidez com que as minorias sexuais (ficou bem melhor!) copulam, não consegui replicar-lhe. Apenas um sentimento me dizia: ela não tem razão. Eu sentia dentro de mim seu ranço estereotipado, fustigando minha auto-estima. Hoje, tenho gana de bater na porta do consultório dela. Doutora, a senhora já testemunhou o desembarque, na Base Aérea de Brasília, ou em qualquer outra Base, de algum pelotão do Exército oriundo de missões internacionais? Não?! Nossa! Estou surpreso, tratando-se de uma consultora da ONU. Os casais se cumprimentam de um jeito tão familiar. Gritam, pulam, se jogam para cima, se abraçam (e não se soltam), se beijam de deixar a língua aparecer. Indiscrição total. Se fosse permitido arrancariam a roupa por ali mesmo. Perdem para a recepção feita pelo labrador quando o dono vai buscá-lo no hotel (nem sei se hotéis para cães podem ser chamados de hotéis), após as férias no litoral norte daquela ilha no Pacífico. Na hora do coito. Jesus! A ponto de nos esquecer que somos feito de carne. O desejo é tão intenso que anestesia tudo. Não há dor no prazer. Se as minorias comportam-se com voracidade, especulo eu, permita-me, Doutora, seria vontade sinceramente contida. Vontade de estar lá, participando da Feira, na condição de observador, apesar da arbitrariedade (peixe duro, este, danado de rasgar). Eu sou feliz, o que não que dizer que esteja satisfeito. Quanto mais me repreendem, veladamente, mais forte me sinto.

P.S.: Reconheço a irrelevância da minha opinião. Cumpro apenas meu dever.

6 de fev. de 2006

4 de fev. de 2006

Entre o lençol e o travesseiro


SANY0534, originally uploaded by quox xonb.

O mármore branco, liso, puro e limpo. Minhas mãos de alpinista agarrando-se ao frio das lágrimas em propensão. Corre, rápido. Salta, alto. Bloqueado. Estrada interditada. Não pára. Ultrapassa os carros pela direita. O sonho acaba aqui. Queria contar-lhe tudo, mas o espaço acabou. F!-se Como eu ia dizendo, o monumento de mármore era ínfimo diante minhas viagens carne-siderais. Onde você vai passar o carnaval? Na p! que te p! As moças fitam-me gulosas os cacos que se desprendem de mim. Vem no colo da mamãe. Do colo do útero à laringe gripada. Atchim! Espirros intermináveis. Cheiro úmido de própolis. P! Eu sou g! Berlim deserta testemunhava a profunda expedição à Rua das Flores, estreita, longa, polens de rosas suspensos no ar. Respiro a essência fálica sem provar do néctar adocicado, nos cachaceiros; salgado, nos maconheiros; insípido, nos anjos que ruflam suas asas sobre a cidade. Com se diz obrigado? Não precisa, basta sorrir. Perdi-me nas frestas do museu. As pessoas, preocupadas, procuravam pelo artilheiro. Quero um Goethe. Brilhar em Frankfurt. Desejos válidos na megalomania dos humildes. Leio a Cabala, deixada sobre a sobrea mesa. Meu fundamento torna-se válido. Permito que o rio circunscreva por dentro das minhas entranhas, gozo. Relaciomentos fechados. Você sabe fazer feijoada? E preparar caipirinha. Só não sei amar. O que a rua não me ensinou, o que na escola não aprendi. Berlim, Berlim. Ao subir a escadaria da universidade, na fachada de entrada, li: Seja bem-vindo à Berlin.

Mulheres nos campos de futebol

Eis o perfil de mulher que me atrai sexualmente. Não se intimidam diante das adversidades. Se precisarem mata uma cobra. Se precisarem mostra o pau.

3 de fev. de 2006

Deu branca


DSCN2959, originally uploaded by fanglei zhuang.

O relógio da parede marcava 4h12. Estava ajudando não sei quem a carregar uns pacotes. Vamos parar aqui, preciso ir ao banheiro. Vamos naquele outro bar. -- disse-me--, apontando o outro lado da rua. Vamos! Levantei-me abruptamente da cama, joguei o coberto de lado e encurvado me dirigi ao banheiro. No escuro. Doía demais. A contração não cedia. Vontade de me deitar no chão. O que jantei, ontem à noite? Refrigerante, um pequeno pedaço de mussarela. Você não se alimenta corretamente. -- acusaria-me o gastroenterologista. Os intervalos entre as refeições são muito espaçados. -- comentaria a nutricionista. Você recusa comida? -- inquiria a psicóloga. Inútil, ouvir suas vozes. A louça gelada do sanitário. Preciso de uma toalha. A água morna (quente mais do que de costume) desviava minha atenção. Agachei-me, encolido feito um feto. Contrito, puxei uma Salve Rainha. Várias. Sempre em momentos extremos clamo por Ela. Já havia rogado por muitos nomes da Mãe, quando um filete de sangue coloriu de vermelho o fundo da banheira. Calma. (Há! Há! Há! Ele está com parvovirose.) Com o dedo no orifício, procura estancar o sangue. Amanhã (no caso, hoje), eu vou ao médico, nem que tenha que passar oito horas na fila do Pronto-Socorro. Poderíamos classificar sua prosa como literatura gay? -- perguntou o entrevistador. Sinceramente, -- respondi --, estou mais preocupado em saber, se o que eu escrevo pode ser considerado literatura. Assim fui me desvencilhando do entrevistador, diante uma platéia ávida por um autógrafo. Todos a portar o meu mais recente romance. A capa grossa, o encadernamento de luxo. Os murros na porta. O relógio da parede marcava 6h50.

2 de fev. de 2006

Amores-perfeitos provocam dor de cabeça


golden afternoon, originally uploaded by raspberrytart.

Colecionava notas falsas de 20 reais. Provas de amor. Posso ser presa por falsificar sentimentos. Rodas perfumadas. Toma tudo, amor, para você se recuperar logo. Dormiu. Posso ir embora. Ahn?! Preciso dormir, sonhar que essa noite existiu. Quanto mais me escamoteiam, com mais intensidade retalho minha carne. Pisoteio descalça cacos de vidro. Sobras do pára-brisa. Sou uma puta, dessas que preocupam quando seu rufião passa o final de semana sem dar notícias. Pega-se virose quando se sobe o morro? Atchim! Excesso de trabalho. Ele está em missão, me dizia a escrivã. Descansa por mais uma semana, querido. Podemos ir à ponte JK, fotografar o nascente. É lindo. Você a espreguiçar, quando entro no quarto. Meu nascer-do-sol às duas horas da manhã. Para que buscar lá fora, o que eu tenho aqui dentro? Chove intensamente, fraco se comparado a tempestade que desorganiza meu raciocínio, ao preparar suas malas. O que você me perguntou, mesmo? Olhos verdes acinzentados tosse. Cobre a boca com a mão, boceja, brinca de alisar a cabeça raspada. Deixa o cabelo crescer, paixão. De jeito nenhum. Cansei. Olho pelo janela do ônibus. Os carros nos ultrapassando em alto velocidade. Apostando pega? Você não existe mais. Me esquece, falou! Sim, senhor. Me esforço para esquecer a xícara de chá quente entornando em cima do cobertor. Ah, os cactos. Secaram. Amarro a boca do saco de lixo, com a impressão de ter jogado algo mais junto com os vasos. Aos poucos me desfaço DO QUE VOCÊ CHAMOU DE LAR. Cavouco com graveto a terra estorricada do canteiro da varanda do que era nosso quarto, quatro paredes azuis claras a sufocar nossas pretensões. Deveria deixar isso para profissionais. Talvez, se molhasse... Confiro a data de validade do saquinho de sementes. Corre-se o risco delas morrerem antes de germinar. Abro os sulcos, semeio as sementes, sem ânimo para cubri-las. Olho para elas e me pergunto: para quem?

1 de fev. de 2006

Depois do mergulho


Paranoá, originally uploaded by velhojr.

Senhor Alberto, a moça que caser-se com esse menino vai ser muito feliz. Basta, dizer que quero me casar para chover pretendentes. Oxalá, em Barcelona, seja igual. Como diria o faixa marrom de jiu-jitsu: ff de qualidade. ?????. Foda fixa, mané. Pow! Um dos motivos que deixei de freqüentar sua casa. Pá! Aiêee. Que brincadeira mais sem graça. Boxer só aceita carinho, quando o dono está por perto. Caso contrário: nhac! E meus ossos espalhados pela garagem. Você é veado, mas é gente boa. Nunca consegui sentir mais do que afeto de amigos de colégio pelo Eduardo; por mais que massageasse seus ombros, coluna, lombar, coxa e panturrilha. Os pé, me recusava. O rosto, desejava. Ele é enrustido, mas é gente boa. Me dá pigarro, quando estou chupando a Giulia. Parace que engoli um pentelho. Você tem cabelos no céu da boca. Gargalhadas ressoaram pelo jardim. As ráfis tremeram assustadas. Um décimo do timbre grave, me faria milionário. Corajoso é você. Meus amigos têm uma imagem distorcida de mim. Inteligente, bonito, corajoso. Não sou nada disso. Por mais que eles tentem reanimar meu coração, fracasso todos os dias quando me deito. Sou vencido, todas as manhãs quando acordo. Ao ser perguntado, se havia tomado anabolizantes esteróides, Eduardo me detalhou todo processo, com orgulho de quem venceu um toreiro na arena. Não era sobre isso, que queria conversar. Lápis e papel esquecidos na mochila. Gravador envelhecendo no criado-mudo. Que escritor queria ser eu, se não portava lápis e papel. Nomes de remédios desconhecidos para serem lembrados. Pesquisa no Google. No Orkut. Sondo minha memória, imprecisão. Vou preparar um dose para você. Depois, é só levantar uns pesos. Vou te acompanhar de perto. Montar sua série. Você está muito magro. Olha só essas saboneteiras. Na micareta, vamos pegar todas. Meu olhar denotava desconfiança. Ele falava sério. E aquele rapaz que morreu? Não soube fazer o negócio. Tomaria, apenas com acompanhamento médico, -- disse-lhe, ao calçar o tênis. E o que eu sou?-- perguntou-me, fitando-me com raiva. Se der complicação, rasgo meu diploma. Vou fazer um ciclo para você... E antes que ele concluísse a fala, disse-lhe que meu problema não era aquele. As pessoas teriam que me aceitar exatamente do jeito que eu sou. Com tudo de ruim e de bom que eu trago. É, mas nem você mesmo se aceita. Ele estava aprendendo comigo a ser cruel. Para não sair nocauteado: A maior prova de resignação foi ter recusado enganar os olhos azuis da moça do Xsara branco. Ele riu, jogando a cabeça para trás. Como se fosse possível esconder um desejo que provoca cobiça nas mulheres. Sonhei com ela, madrugada de hoje, servindo-me leite condensado com os dedos. A Cínthia vai se remoer de ciúme. O Naz vai pedir para conhecê-la. E o Eduardo, achou que eu estava desconversando.

31 de jan. de 2006

No banco detrás


...and again, originally uploaded by mhatilda.

Não faça isso. Vá lá. Diga-lhes o quanto você os ama. Permita que a maria-fumaça serpenteie os labirintos do seu coração. Prefiro manter-me à parte. Eu poderia ser preso por desacato. Nunca mais jamais. Observo de longe quem entra, quem sai; os falsos, os sinceros. De manhã traço trilhas alternativas; à tarde provo dos picolés de chocolate ao leite ( às vezes de coco ao leite, também ); à noite, acaricio meu sexo, perdido em imagens de calças pretas, desbotadas. Rostos anônimos, caveirados. Sua despedida entrou ragando dessa vez. Não me encare desse jeito, querido. Bastou seu olhar de ódio para eu me arrepender da promessa. Ele é imaturo, devasso, mentiroso, hipócrita. como ele podia estar com medo da penunbra, se o que ele gostava mesmo era acalmar presídios? Medo tive eu do seu olhar de raiva. Precisava ir embora sem ao menos deixar um bilhete? Com o dinheiro da pernoite comprei um bracelete de presente para filha de uma amiga. Bem-vindo à maioridade, Natália. Juro que, se eu não estivesse me comprometido até o gargalo, convidaria ela para jantar. Olhares de soslaio me convertem.

30 de jan. de 2006

[ filmes gls ou quase ]

Para me lembrar o quanto era divertido ser cinéfilo ( ao seu lado).
Há um novo psicotrópico circulando pelas estradas desertas do Lago Sul. Espero que tenha facilitado. Anfiteatro da Conha acústica, 4h32 da madrugada, às margens do Lago Paranoá. A dormência acompanhada de surtos alucinatórios, para depois desaguar na euforia dos campeões, a impedia de distingüir os graves. Alguém a puxou pelo braço, antes que se reiniciasse a sessão de cachorrinhos pelados choramingando afeto. Ritual de passagem menos ritual de acasalamento. O sentido que nos escapava. Os gritos interropiam minhas anotações. Desconfiava da tecnologia que sempre o servia. As folhas soltam navegavam nas águas oculares. Consagraram o Príncipe ao brindar com espumante. Os cacos de vidros das taças ainda estão lá. Beijos na boca, que guardava diversos sabores, retificavam o ingresso. Agora, chega Cínthia. Vamos embora. Amanhã, vocês vão treinar? Cínico. Certamente, vossa alteza. Quando pensávamos que estávamos livres, o Marcelo estacionou seu astra hatch vinho ao lado da gente. Entra no carro, entra no carro. O Gustavo que me perdoe. Eu havia alcançado o limite da minha elasticidade. Marcelo desceu do carro e nos cercou. Se me dessem pedinho, transpunha aquele muro. Não era o caso. Vamos conversar. O clareamento dental o deixara mais lindo do que já era. Sensível. Não imagina que havia o que melhorar naquele rosto que nos fascinava. Beijou a mão da Cínthia, piscou para mim. Foi cumprimentar os rapazes, enquanto esperávamos encostado no carro. Qual a desculpa que vamos dar para ele? Nenhuma. Vamos ver o que ele vai nos propôr; como você sabe, não será nada demais. Você vai sozinha. Estou cansado. De jeito nenhum. Sem você, não tem graça.

28 de jan. de 2006

Meu Amor vive de brisa


Vista de Resende, originally uploaded by marciamaia.

Flagrei o Minotauro vasculhando as gavetas da escrivaninha. Cínthia, vamos estudar mandarim. É a única solução que antevejo, salvo as paredes de correntes penduradas. E ainda me perguntam, se as marcas são de chicote. Chicotinho queimado, tesouro. Vuuuuuuu... Te mostrei a tatuagem? Na pélvis estava escrito: Bruno Fornazze. Nem quando os pêlos crescerem, será coberto o vislumbre do inferno. Eita, grutinha, quente da porra. Você não ia fazer no cofrinho? O Naz preferiu na frente. Melhor do que piercing. Ela aceitou contrariada. Ele se apropriara do corpo da Cinthia, mas a alma era de Deus; enquanto estiver eu por perto, alimentado sua mente com palavras. Ah! Marcinho você é tão inteligente. Já lhe disse, se eu fosse inteligente estaria em Salamanca, observando os patinhos correrem atrás da mamãe deles? Como é mesmo aquela palavra? Ensimesmado. O telefone interrompera nosso chá. Atendi. Sete palavrões para me convencer da estima que sentia por mim. Eu te amo, declarou-me o sumo pontífice. Papá. Papa. Papão. Atendia como eu bem lhe chamasse. Naz, ela está no banho. Ele pediu-nos que estivessemos no restaurante às nove horas . Passeio completo. Chegamos 10 minutos atrasados. O maitre nos recebeu sorrindo. Encontraram um fuzil que só ele sabia desmontar, levantou-se e saiu. Deixou a garrafa pela metade. Eram sempre as mesmas histórias. Se o celular tocasse, podia ser no meio da trepada, ele vestia a calça, arrancava as meias pretas de dentro do sapato, calçavá-los e saia abotoando a camisa azul. Sempre a mesma. Amante de rituais. Começa de baixo para cima para não se peder. Do dedão-do-pé à orelha. Do calcanhar à nuca. Nossos pés, segurados com as mãos, como se fosse possível fundi-los. Eu relutava. A Cinthia se submetia. De cabeça para baixo havia poucas rotas de fuga. E cade a sua? Você vai pagar?... Fala lá com o Montalvão. ...pelo centímetro quadrado da minha pele. Bota preço. Não estou à venda. Como não queria ser estripado, antes de ser arremeçado contra o espelho, disse-lhe que para ele seria de graça. Além de irritar, o que você quer? -- me perguntou, acariciando-me o pescoço. Devagar, murmurei. Dentro da Cínthia havia um néctar diferente. Cheirava à brócolis. Na posição que me encontrava, me convenci que ele tinha razão em controlar nosso quotidiano, mesmo que para isso espionasse nossa privacidade e pusesse estranhos para nos seguir, nos observar. Sim. Eu tenho um diário, no qual você é o antagonista da minha história. Sinta-se privilegiado. Só me lembro de quem amo, no momento em que estou escrevendo. Seu hálito me refresca. Já tomou cialis? Disseram que só de soprar a brisa... Quando estou saltando a 9.000 pés de altura (acreditava em tudo que ele dizia; a Cinthia, não.), penso na gente, no que iremos inventar na próxima vez que nos encontrarmos; ouço, mentalmente, seus gritos, os gemidos da Cínthia. Só há uma sensação melhor do que saltar de pau duro. Ele me beijou. Afastei-lo ao me levantar. Que aconteceu? Nada, Cínthia. Só não estou com paciência para ficar dando atenção a gente bêbada. Não sei como você agüenta o hálito dele. Perfume dos trópicos, me dissera uma vez. Aquilo foi no início.

27 de jan. de 2006

Episódios amalgamados

Ligaram para você do Ministério da Cultura. Fudeu! Péi! Pow! Ela varria como se a vassoura tivesse culpa. Senta ao de lado sem cruzar as pernas, à procura do ângulo perfeito. Respirou fundo, naquela multidão não era ela mesma. Menininha escolhia a caixa de charuto para o namorado. Ele vale. Ela valia. Vou levar essa moço. Qual meu desconto, se eu pagar à vista? Presente. Ela recusou. Não se pode presentear com um presente que acabara de ganhar. O vendedor insistiu. Vou levar outra, então. Ele umedeceu os lábios que a lembrava a piaçava escondida atrás da porta da área de serviço. Vamos aproveitar para malhar o quadril, esfregar na cara dele toda sua vergonha e se despedir sem deixar o número do telefone. Da próxima vez, trago o Dagorbeto, só para mostrá-lo, para provar, que agora sou uma mocinha crente nas instituições falidas. Olha, amor, foi aqui que comprei teu presente. Senhor Douglas de educação espanhola se engasgou no ritmo do passo doble, nas cordas da castanholas. Amanhã, ele estará repoussando sobre a terra quente do descampado, o sangue talhado, os dedos furados. Conversaram como se fossem amigos de infância, separados à força pela enxurrada. Dagoberto mudou. Ela foi torturada, antes de morta. Assuntos profissionais que se recusara a compartilhar comigo. Pediu licença aos rapazes. Foi ao banheiro tirar um cílio que a incomodava.

26 de jan. de 2006

O gosto que me arde na boca

Só podem estar de férias. Oh! Meu Amor, estive tão ocupado. Nunca mais ele atualizou o weblog. Isso também me incomoda. Escrever à noite me entorpece, mais do que me incomoda. Até parece que estou de volta à universidade, dormindo durante a viagem, passando da parada de ônibus, sendo acordado. Por quem? Poderia ter sido com aqueles cafés-da-manhã, servidos na cama, acordado com beijos. Meu hálito azedo. É desse azedo que gosto, minha vinagreira decantada, ele me respondia. Meu Amor, não ousa pronunciar meu nome. Entendo-lo. Eu faria pior. Ama-lo-ia e o descarta-lo-ia na manhã seguinte. Sem trocar números de telefones. Sem promessas. Sem esperanças. Aos poucos, vamos revelando os segredos sussurrados durante o jantar no apartamento do senador; ou ainda; aos poucos, vou lhes mostrando os detalhes da decoração da mansão do Almirante. Não sei se interessa. Me permita ser vulgar, leitora, essa frase me ressoa doloridamente: "Eu te amo, vagabunda. Você é só minha, puta. Te quero demais." Por que ele inverte o gênero? Até quando suportarei prededores de roupa presos a bainha da minha camiseta? Tenho péssimas lembranças: "Pensei que você havia desertado?" O corpo arqueado mal conseguia se equilibrar na lustrosa muleta de titânio. As rosas olhavam para o chão por vergonha de serem mais bonitas do que eu, a sobra do bagaço da laranja da terra. A fervura da calda do doce me trazia mãos a me acariciar a cintura. Sai para lá. Me solta. Não tinha mais esperanças de algum dia compartilhar das nuvens, cujas curvas ontem à noite me ensinaram a soltar pipas. Foi bom? Desconfio de quem me permite repuxar suas estrelas. Razoável.

11 de jan. de 2006

GLAUCO DAMMAS

Estava respirando o ar que vinha das salinas, quando encontrou uma cereja inteirinha no fundo da taça de sorvete. Ofereceu ao Guilherme, como se fosse a aceitação do convite feito na noite passada.

10 de jan. de 2006

Teoria do Caos: bibliografia introdutória

"Caos, Uma Introdução". Nelson Fiedler Ferrara e Carmen P. Cintra do Prado.
"A essência dos Caos". Edward N. Lorenz.
No Buraco do Tatu, quebrou a suspensão do carro. Sorte dela estar passando uma viatura do BPTran.

9 de jan. de 2006

Cinthia ou Cínthia. Com ou sem "h"? Se errasse, teria que começar tudo de novo. Desistiu de escrever o cartão. Vou entregar pessoalmente.

7 de jan. de 2006

É pau, é pedra...

ironia

Membro da Minustah confirma suicídio de general

Foi uma boa desculpa, para desmanchar o mal entendido. Mas ela não queria papo com o comandante.

Ilse Losa (1913-2006)

Se algum dia foi patinho feio, precisou esquecer. Os convidados haviam chegado.

SESC-2006. Nós encontraremos lá.

Pretensiosa. Atrevida. Irresponsável. A menina-mulher entrara no bar para mais um dia de trabalho, pensando nas entrelinhas da fala do namorado. (Eles ficarão noivo em Agosto) Por que você escreve? Perguntara-lhe. Não é "por que", amor. É para quem. Escrevo para ti. Mesmo que não consiga alcançar a clareza que nos cega quando vamos comungar.

6 de jan. de 2006

Ná Ozzetti - site oficial

Na melodia de curvas frouxas, antepasto para o pecado servido de molhinho.

O rascunho que não fui capaz de escrever, ontem à noite, por causa de uma preguiça ensurdecedora

Nunca mais feijão, nunca mais tomate, nunca vôo de avião. Seria um versinho safado de tão ritmado (com direito a metaplasmo) se ela não tivesse sido acordada de madrugada com suas emaranhadas víseras rosadas marcando a cadência da argüição: Gostaríamos de saber, a princípio, o que a senhorita entende por Belo? Acho que ele está sob condicional, não? Ô! Toc, toc, toc, toc, Bummmmmm! Ai, Barriga! Assim você me machuca. O trocadilho é inevitável, perdão. Dr. Gastro, meu intestino conversa comigo em horas inapropriadas. Os flatos e as eructações continuam te incomodando? Só os flatos Dr. Gato. Só os flatos Doutor. Vamos fazer mais um exame? Deixa-me perguntar antes à D. Conta-Corrente. Amor, o Dr. Gastro disse... Pode ir, mas não me peça para ser seu acompanhante. Na dureza de uma cadeira de couro, num hospital escurecido pela espera, compusemos redondilhas de amor a um canalha mal-agradecido. Será que ainda vai demorar? Não se refiria ao atendimento, conheçia bem o esquema. Falava da epifania; não a do Senhor, mas aquela discutida pelos críticos literários. No livro que trouxera dentro da mochila, a colega de classe havia grifado com caneta vermelha o suposto momento de revelação. Su, como está isso no original? -- disse apontando no texto, o trecho em que em se lembrou do romance da Clarisse Lispector que não havia terminado de ler. Cíntia, não se preocupa com isso agora. Seu momento de êxtase atropelado pela amiga viajada pelos cinco continentes. Ela achava que nunca mais encontraria outro. Antes que a enfermeira lhe chamasse, deparou-se com a beleza da verdade, toda ela dialética, assim quis interpretar. Colocou o marcador de livro na página errada e puxou conversa com o senhor que acabara de se sentar ao seu lado. A concretude daquela companhia lhe intensificou a revelação. Era para isso que os intestinos lhe chamara às 3h da madrugada. Ela não se costumara com o jeito irônico que a vida lhe tratava.
Ouvindo Lenine cantando "Ninguém faz idéia."
(Os astrofíscos devem fazer idéia de quem vem lá.)

5 de jan. de 2006

Laurence Sterne (1713 - 1768)

Não tem.
Não tem.
Não tem.
Não tem?!
Tem. Oba!
Pena que estejam de recesso branco.

Fundação Biblioteca Nacional

Nos direitos autorais das nuvens de fumaça que me circunscrevem, extraio mexilhões. Censure as garças, enquanto o sol não se espreguiça.

4 de jan. de 2006

Abacaxi corta o apetite


104N, originally uploaded by menta90.

Márcio, vai almoçar! Agora, não. Estou escrevendo. E foi assim o dia todo. Vá almoçar. Estou sem fome. E o almoço? Depois. Mousse de maracujá? Deixe-a aí. Tem anis. Ahn-hã. Como se escreve hecatombe? Hmmm... o significado da palavra vai distorcer a idéia do texto. Mordera o nó do dedo da mão esquerda. Vasculhava a memória a procura de outro substantivo. Perfume achocolatado. Veio imediatamente a imagem da fumaça lhe penetrando a pele. As cinzas brancas calmamente depositadas no cinzeiro. O olhar desaprovando a partida compulsória. Telefona, assim que chegar? Lógico! E o beijo? Adeus. Escrever não mais afugenta o arrependimento da saudade que me estrala no peito. Se o Bruno soubesse que não mais será servido almoço aqui na loja, faria galhofa do meu apetite. Estou mandando a barca te buscar, 11h30, pode ser? Seria sua fala. Não te falei que você estaria melhor ao meu lado? Fantasiar a existência de um amante lhe ajudava a superar a humilhação. O Marcinho não almoçou hoje. Pode parar! Você fala que não é para se preocupar com ele. Não te entendo! A vida me empurra para prostituição dissimulada. Ninguém mais me agüenta ouvir lamentar a sorte. A aliança, trouxe guardada no bolso da paletó.

Ouvindo Edu Lobo cantar "Berimbau":

Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza, camará

3 de jan. de 2006


, originally uploaded by Junior Diggs.

Escondi meu sorriso numa dissimulada escovação de dentes.

22 de dez. de 2005

A ausência em todos nós


Para onde ir?, originally uploaded by bom_de_ver.

Uma imagem nunca será capaz de transmitir o alívio que ela estava sentindo. E podem chamar Milcho Manchevski.

Largou os cartões de natal em cima da mesa. Esqueceu o estabilizador ligado. Saiu descabelada pela casa, tropeçando nos brinquedos do caçula espalhados pela cozinha, com a gaiola do canário na mão. (Presente do homem lhe fazia gozar todos os dias por telefone.) Foi ao vizinho que lhe devia favores, pedir que cuidasse do seu filhinho, até seu retorno. "Eu sabia que aquele velho branco, gordo, peludo e barbudo algum dia me seria útil."

Ela estava em êxtase, sob efeito da espera dos últimos onze meses. (Ele soube induzi-la). Um comprimido, um gole d'água; mais um, outro gole; o último e pegou uma banana na fruteira. Comer uma fruta, lhe traria a certeza de que os comprimidos chegariam ao estômago. Foi ao banheiro da empregada e jogou suas cartelas de esperança no vaso. "Adeus, balinhas. Feliz Natal para vocês também. Deu descarga. "Nunca mais nos veremos." Olhou-se espelho, ajeitou a franja. "Já pensou em ser morena?" Passou pela cozinha, sem se comover com as louças ensaboadas, que ainda lhe aguardavam. Arrumou tudo de qualquer maneira e se despediu do escorredor de pratos, mandando beijo. Feliz Natal, meu amor! Para você também, phalaenopsis, Feliz Natal! (Regou a orquídea por desencargo de consciência). Boas Festas, Geladeira! Felicidades, Seu Fogão! Olhe lá hein, Dona Pia, não exagere na gordura; se despeça do tanque por mim. Foi fazer as malas.

No Rádio Táxi, demoravam a atender. "Alô? Bom dia! Por favor, eu gostaria de falar com o Ramirez." Olhou para o guarda-roupa. Franziu as sobrancelhas. Levaria apenas o chinelinho preto. (Outro presente do amante que ela só conhecia por fotos, voz e webcam). Pegou estojo de maquiagem (motivo de tantas brigas) e o colocou debaixo do travesseiro da cama da irmã. "Não vou mais precisar disso." Desistiu de levar mala. "Nem valise." O charme seria desembarcar sem nenhuma bagagem, além da edição de luxo, em original, D' El Ingenioso Hidalgo de Don Quijote de la Mancha. (Presente de quem? A não ser do homem que conhecia seus sonhos, seus segredos, suas pretensões.) "Ele me apoia." É por você que estou lutando contra esses moinhos-de-ventos. -- dizia a dedicatória escrita atrás da fotografia. Cheirou a contra-capa como se fosse o pescoço dele. Respirou fundo. Acreditava que não bastava ser bonita, gostosa, sedutora e elegante. Tinha que ser culta, mesmo que não fosse inteligente. Abraçou-se com o livro.

Banho tomado. Cabelos presos. Saiu apressada em direção ao local combinado com o amigo taxista. Se trancara a casa, não se lembraria. Pensava apenas em embarcar, na confirmação do check-in. Enquanto aguardava, em pé, em frente a agência bancária, tirou da bolsa o caderninho de capa de couro de búfalo e escreveu: "22 de dezembro de 2005." Lembrou-se imediatamente da avó; do velório, dos crisântemos brancos, da vontade de se jogar na poça de lama, da rama de philodendron, que quase foi esquecida. "Dona Virgínia, não se orgulharia de mim." Escreveu alguns versos com letra miúda, trêmula, ágil Fechou o caderno, sem ainda guardá-lo na bolsa. "Vou fazê-lo vir me buscar." Tarde demais. O táxi freara a poucos centímetros dela: "Oi, Gostosa!" Ela teve certeza que deveria abandonar aquela vida. Entrou no táxi, pediu que a levasse ao aeroporto. Contou-lhe a novidade.

Ofegava, se confundia, trocava data e lugares. Ele apenas balançava a cabeça: "Você, é doida, gata!" Mostrou-lhe as passagens para provar-lhe o que estava dizendo. Ele estacionou no acostamento. Pisca-alerta ligado. "Vai ter coragem de deixar a gente?" Ela prometera escrever todos os dias, sem censura ou vergonha. Enviaria-lhe fotografias nas quais ela estaria mergulhando num mar de recifes azuis. Ele pigarreou. "Se você nunca deixou-se fotografar, porque faria agora?" Ela estava quase arrependida de tê-lo chamado, quando ele contornou o balão do aeroporto. Ao estacionarem no desembarque, ele ainda lhe perguntou: "Vai mesmo?" Ela não lhe respondeu, preferiu beijar-lhe. Um longo, melado, profundo, beijo de língua, enquanto acariciava-lhe o zíper da calça de brin bege. "Quando você volta?" Ela já estava longe. "Antes do dia quinze", gritou, "Feliz Natal!" Por ela, poderia ser nunca mais. Rebolando mais do que de costume, encaminhou-se a balcão de atendimento. A moça pediu que se apressasse. Todos já haviam embarcado. Nem ouviu a atendente desejar-lhe boas festas.

21 de dez. de 2005

Os clientes se espremendo até serem atendidos e o conselheiro se recusando a falar português. Não foi difícil anotar seu pedido, sou até capaz de dizer de qual região da França ele seria. Difícil foi responder às várias perguntas em francês. Na próxima vez que eu encontrá-lo na sauna, vou chamar-lhe a atenção. Boas Festas!

20 de dez. de 2005

Serenidade, Distanciamento e Boas Festas!


Moth Orchid, originally uploaded by dallsoppuk.


Felizes sãos as lesminhas a comer os brotos das phalaenopsis. Marcinho, você viu o lesmicida? Não. Deve está debaixo do tanque. Elas não tem que se preocupar com compras, pisca-piscas, presentes, cartões de Natal, Ceia, convidados, recepção, contas a pagar, insolvência. Na noite do dia 24, após a Missa do Galo, na Santo Antônio, vou me misturar aos convivas, ao voltar para casa; provarei da salada de alface americana, broto de alfafa, capuchinha e tomate-cereja (tudo sem vinagre, sal ou azeite para não tirar da boca o gosto distante da hóstia consagrada); mortificar a carne, ouvindo histórias de excessos, olhares de intimidação. (A polícia sabe torturar mesmo quando em traje de gala.) Talvez seja uma noite agradável na qual se fará amor no quarto do filho do meio dos anfitriões.

Ele estava ansioso, compreensível. Eu continuava a sustentar a mentira. Mais da metade dos muitos presentes debaixo da árvore destinava-se a ele. Num ato de generosidade, abriu o guarda-roupa e me disse: Pode escolher o que você quiser, -- para alguns segundos depois, concluir: se você não for cuspir. Contive minha vontade de empurrá-lo contra o guarda-roupa, não por ele ser mais forte do que eu, mas por ter testemunhado o quanto ele poderia ser covarde.

Com o peito arfando, colei-me ao seu corpo (tentativa desesperada de mostrar-lhe que era amor), ignorando o receio de mais uma vez ser afastado. Nenhuma palavra, nenhum gesto. Apenas o fluxo da corrente sangüínea a denunciar seu desejo. Minha boca embebida do ar da sua respiração, aguardava seu consentimento. Minha imagem invertida na sua pupila, me dizia: não se atreva. Faça o que lhe pedi. Não inventa moda. Se ao menos ele desviasse o olhar, poderíamos voltar ao jogo, terminar a partida, destrancar a porta. Mas preferia fitar-me tal qual um cão de rua em posição de briga. Ele queria que eu avançasse, para ter o prazer de se afastar. Eu queria não ter acompanhado meu pai, na véspera de Natal. Situação semelhante em que me encontro agora. Talvez seja essa a causa da minha má vontade em relação a tudo e a todos. Não posso fazer disso um drama.

Atualizado (18:40): Enquanto me dirigia à biblioteca, agora à tarde, estalou-me uma idéia: onde eu tenho buscado segurança e refúgio? Ora, na Literatura consagrada. Portanto, guri, não fuja de teste.

Oficina Poética no Portal Literal ou O Dom de Fluir

Todos os dias, acessava o Portal Literal, para ver se já havia começado a oficina desse ano. Que surpresa! Poesia. Sinto medo e vergonha -- como estou cansado de repetir aqui para o DiCla e vocês, meus estimados leitores, enjoados de saberem. Será que um leitor de Homero, Dante e Lorca não conseguiria, sem naufragar, escrever um versinhos atrevidos ? (Ler não significa estudar.) Talvez me falte mesmo uma musa, uma forte razão que me faça saltar do trambolim sem ter recebido treinamento . Se eu cair sem jeito, já era. Coragem! Faz de conta, pirlimpimpim, que eu sou (de novo?) o soldado Rostov a combater os franceses (no nosso caso, as palavras) sob o olhar auspicioso do Imperador Alexandre I. Ainda não sei como termina aquela história, mas a nossa pretendo que tenha um final coerente. Mãos à obra.

19 de dez. de 2005

---------- Forwarded message ----------
From: Márcio
Date: 19/12/2005 13:17
Subject: Nothing compares to you. Lembra-se? (versão revista)
To: Beatriz Vilazanti

Sugar,
Oi! Sou eu. Escrever-lhe, hoje, tornou-se minha prioridade. Custei a tomar coragem. Os meses nos atropelam e depois ficamos com vergonha dos amigos por se manter tanto tempo afastado daqueles cujas lembranças sempre nos alegra.

Dias desses... minto, em julho, estava lendo "Cem Anos de Solidão" quando me lembrei de você me falando do trecho das formigas carregando um Buendía. Caramba! Onde elas estão? Lia, lia, lia e nada das tais formigas aparecerem. Será que era um detalhe irrevelevante?

Vi borboletas, bananeiras, toceiras de begônias, participei de expedições, de guerras, chorei, ri, praguejei, a ponto de me esquecer delas, jamais de você. Preciso escrever para Vila, preciso escrever para Vila. Para contar-lhe que me mudara para Macondo (como se me fosse possível).

Surpreendentemente, elas surgiram, minúsculas, avermelhadas, uma porção delas, saindo por várias frestas, subindo por todos os cantos, frustando os amantes, carregando o nenen. Demorei acreditar. O Gabo construíra um castelo de cartas (como baralho me fascina) e puxara aquela que servira de alicerce para as outras.

Desmoronei junto. E nada me aliviava do choque de realidade que a ficção me causara.
Refeito, voltei ao cotidiano. Peitar a Dona Relidade, pode ser divertido, descobri. Mas sem ficção estava desconfortável. Busquei, então, acalento com quem poderia me ajudar: primeiro Dostoievski, depois Clarice, em seguida, Lobo Antunes, Joyce, Oscar Wilde, Homero, Fernando Pessoa, Dante Aliglieri, Samuel Rawet, (quem mais me serviu de escora este ano?) Tolstói, Sófocles, Lorca, alguns teóricos enfadonhos e outros romancistas desgastados pela publicidade que dispensam citação.

Nem sei como consegui, entre faxes, e-mails, telefones e clientes, (Sim. Continuo aqui na loja.) acompanhar histórias tão distintas. Às vezes, me sentia tal qual uma abelha perdida no Jardim do Éden, noutras, um solista desafinando no ensaio aberto do coro sinfônico, ou ainda, um submarino emergindo no espaço marítimo de outras nações sem permissão. Entretanto, percebi que tal busca me ajudava a ser persuasivo com clientes, quaisquer que fossem. Corre até o boato que me tornei empresário do ramo de flores. Mentira. Nego e renego peremptoriamente. (Nós, brasilienses, principalmente os candangos, adoramos promover intrigas.)Posso ter fechado vultosos contratos. Recebido muitas cantatas. Recusado presentes e favores. Nem assim. Flores são negócios da família, nunca foi o meu. Você bem sabe.

É óbvio que o hábito de fazer a loja de sala de leitura tem me gerado conflitos, causado aborrecimentos. Contudo, minha vontade tem prevalecido, visto ver sincera. Não se preocupe. Estou bem. Comércio pode ser um bom lugar para colecionar tipos: ora bizarros, alguns hilários, outros taciturnos, ou ainda, dissimulados (meus preferidos).

É para um tipo assim, que prepararei o arranjo que estou lhe enviando. Gostaria que fosse como antes, flores para alegrar ainda mais sua noite de natal. Paciência. Vou imaginar que seja, escrevendo um conto inspirado na sua emoção ao receber flores de um amigo que há muito tempo não recebia notícias. Conseguir, não sei se vou. Caso consiga, receberá em breve, carta minha.

Está escutando ? ... Jingles all the way... Preciso ir. Não posso mais.

Beijos de boas festas!

Marcinho


P.S.: Enquanto lhe escrevia este, enviei-lhe, acidentalmente, uma cópia incompleta, sem revisão, em parágrafo único. Desconsidere, por favor. Isso que nos acontece quando teimamos em escrever no local de trabalho. Beijos!

16 de dez. de 2005

Tâmaras, damascos, nozes e avelã

Estava lendo a entrevista do astronauta Marcos Pontes (eu pularia a apresentação em flash), quanto meu eixo foi deslocado: "Nessa atividade, aprendemos a conviver com nós mesmos." Ele se referia a solidão que provavelmente sentiria na Estação Espacial Internacional. Creio que solidão seria uma dor crônica, para qual não haveria morfina suficiente no mundo para aliviar. A enxurrada arrancando o asfalto, arrastando pessoas, galhos, lixo e minha esperança de um Natal menos gigolô possível. Quem sabe Papai Noel resolve entregar, na noite do dia 24, meu presente atrasado de muitos natais. Podia ser aquele senhor que está lá fora fumando, segurando uma latinha de cerveja, cujo o charme estimula nossa libido nessa madrugada de 15° C. Atípica. Gordinho, alto. Cabelo curto, grisalho. De sobretudo preto. Meu muro de Berlin... melhor, minha muralha da China. Estamos a uns 20 metros de distância, separados por uma porta de vidro. Ele entrou na pajero. Foi se embora. De tanto olhá-lo, enquanto conversava com um jovem rapaz, provavelmente seu funcionário, passou a me encarar. Marrento. Desviei a mira lasciva e me concentrei nos índices pluviométricos de ontem à tarde, quando Dona Chuva resolveu inundar o hall de entrada da casa dos nossos excelentíssimos senhores senadores... Não vou passar a véspera da noite de Natal aguardando atendimento no Pronto-Socorro do HRAN. A dor é suportável. Consigo rir quando me perguntam o que é um pontinho preto pendurando numa árvore. Consigo falar, andar e comer; sozinho. Só não consigo perdoar. Que o telefone toque ad infinitum!
P.S.: Minhas queridas leitoras e meus estimados leitores, desculpem-me se tenho estado ausente. Não respondo mais e-mails, tampouco comentários. Conecto-me ao MSN somente para sanar dúvidas urgentes. Não navego em seus respectivos weblogs. Sei que não se justifica, pois quando a gente quer de coração, encontra-se tempo. Mas tenho me desdobrado em muitos (Ora! Todos estamos muito ocupados.) tal qual a Grace de Dogville. Lembram-se quando escrevi uma crônica sobre a comoção que este filme me causou? Pois é! Ontem, ao sair do consultório, com a boca inchada, agradecido ao Doutor Cirurgião, me lembrei da Grace. Dela correndo para lá e para cá, preocupada em agradar a todos, em ser eficiente, sem opções, a não ser servir. Grace sou eu. E só agora me dei conta disso.

13 de dez. de 2005

Vou aumentar a dosagem da medicação, para ver o que acontece com o meu humor.

9 de dez. de 2005

8 de dez. de 2005

Bem próximo de nós


Campo, originally uploaded by ludzorzi.

Uma confissão de amor: um pau de arara desativado, atrás do Complexo Penitenciário da Papuda ( a uns 20 Km da Praça dos Três Poderes). Não era nada do que eu imaginava. Fiquei desapontado, assumo.
-- Então, vamos?
-- Você me fez trazê-lo aqui para quê? Curte o pôr-do-sol.

No horizonte, chamava-me atenção a chuva bem delimitada. Sentia ânsia de vômito. As barras da minha calça infestada de sementes de bidens pilosa me incomodavam. Não vou mais a restaurante nenhum. Vamos embora, não estou me sentindo bem. Imagens de Auschwitz me vieram à mente. Não deveria ter assistido ao documentário.

6 de dez. de 2005

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Roberto Benigni: entrevista na ISTOÉ

ISTOÉ – A sátira política é dos seus gêneros prediletos. Qual é a sua opinião sobre a política?
Benigni – Como disse o jornalista Eugenio Scalfari, “a sátira é contra o poder, caso contrário não é sátira”. Porém, algumas personalidades atraem mais que outras. Por exemplo, Berlusconi (primeiro-ministro italiano). Mesmo se ele não tivesse tanto poder, seria satirizado porque ele atrai os cômicos. A sátira é a democracia que chicoteia a si mesma. Não sei fazer teorias sobre a sátira, talvez Dario Fo possa fazer melhor do que eu. O prazer de fazer rir é como o leite materno. Imagine que eu estou mamando aquele néctar... Eu não paro para pensar. Vou ficar olhando e pensando no sabor do peito? OK, eu sei que o seio não é o órgão mais apto para eu me explicar. (grifo nosso)

5 de dez. de 2005

Sorvete de pétalas rosa-menina, cobertura de espinhos


Snow and Flowers, originally uploaded by destinatio.

Disse-lhe que minha flor predileta era tulipa. Desapontado disfarçou o sorriso. Bobo. Desdenho todo o amor por mim.

2 de dez. de 2005

E saíram à caça


Caça de Combate, originally uploaded by joabe_brill.

Quando vi o Ten. Coronel atravessando a rua, em direção à loja, minimizei a caixa de entrada do outlook e sai imediatamente do campo de visão dele. Contive o sorriso. Pensei em beber água. Não dava mais tempo. Ele já havia entrado na loja. Esperar ele não podia. Estendera-me a mão, sem esperar minha defesa. A sauna, na cabine. A boate, na dark room. O estacionamento, no motel. Disfarçar que não o conhecia era fácil, difícil foi fingir que havia sido apenas sexo avulso de tão casual. Vamos fazer tudo de nova, mas dessa vez diferente? Anotei seu pedido sem compreender claramente o que ele dizia. A letra antes legível, rabisco. Mostrei-lhe as anotações para que ele conferisse a encomenda. Falhas seriam punidas com cadeia. Diante do meu nevorsismo, ele se confundiu. Jantar formal? Não sei. Acho que sim. Com certeza. Perguntado sobre as cores e as flores: Confio no seu bom gosto. Comecei a explicar-lhe como seriam os arranjos: Está ótimo! Perfeito! Ele poderia ter-me dito: calma. Não tenho pressa. Mas preferiu reclamar da dor de cabeça: estou sem almoçar até agora. (Já se passava das quatro horas.) Ele ainda se lembra de julho. Gostaria que tivesse esquecido.

Embora o test-drive na esquina dos beijos amanteigados, lamentasse todas as fossas enterradas em pedras de gelo, resistimos às água de coco-verde deflorada nas costas. Que costume bizarro misturar sexo com comida! Terça-feira da semana passada. Hoje, choverá diferente. Me sufoca, me bate, me espanca. Sou sua flor em botão. Ele acreditou. E ele acreditou. Insensato. Irresponsável. Por mais que nos esforcemos, o travesseiro ronrona à noite. Não dói, porque o cansaço não deixa. O sorriso banguela causava tristeza à vizinha da casa da fachada verde. Detalhe importante para um dente de siso. Ela estende as fronhas quando nos preparamos para partir. Agora é tarde, princesa, depois te conto. Suspiros de leve atenuaria nossos olhares d-e-s-c-o-n-f-i-a-d-í-s-s-i-m-o-s. Não consigo. Não dá liga. Ele chegou à quinze minutos. Me acena lá de fora. Já pedi que não viesse me buscar no serviço. Disfarço. Passo a mão no cabelo, finjo que estou ao telefone. Estou vulnerável. Do estacionamento, pode-se me ver movimentando dentro da loja. Se fosse o sniper... Ele está sendo inconveniente. Ascendeu um cigarro. Está decidido a me esperar. Test-drive no barracão da obra. Já me arrependi de tê-lo beijado. Cofiou a barba grisalha. Fuma tranqüilhamente como se estivesse acabado de gozar em cima de mim (sonha!) e eu aflito, arrependido, com vontade de me dar um tiro. Ele nem é tão bonito assim, nem tão gostoso assim. Eu era apenas a vontade de enlouquecê-lo de desejo. Brincar de beijar na boca. Tê-lo de joelhos, a me mordiscar os artelhos. Só de cueca na cama, a procurar estrelas no céu da boca com a ponta dos dedos molhados na vodka. E eu a negar-lhe a saciedade. Quero te ver de cueca branca, da próxima vez. Ele balbuciou latidos roucos. Se você quiser posso chamar uma amiga. Enfermeira do HFA. Há! Há! Há! A fantasia de todos nós. A classe que nos perdoe. Disse-lhe que bastava, nós dois. Queria um relacionamente fechado. Esse foi o meu erro. Ele vai investir numa instituição falida. Vai perder dinheiro.

Duração do efeito da cocaína

Euforia
Alforria
Eu iria
Se não fosse mais baixo.

1 de dez. de 2005

Chuva de Ouro


Mais um céu =P, originally uploaded by Érica_Roll.

Vou aguardar os apagadores me ensinarem a interpretar a sinfonia das poças de lama. O irascível problemático agente da ordem me cumprimentou. Estou feliz. Três a zero. Não soube eu prolongar o prazer. Sou estúpido, quando lírico. Paulistano doente por uma perfumada carreira de salmão, ele me convidara novamente para plotar a Avenida Paulista. Garoto arisco. Minha fama chegou a Beijing. Coração despetalado. Agressões verbais. Não escolho signos lingüisticos para externalizar a cólera que se alimenta do meu fígado. Nunca imaginei que seria capaz de dizer-lhe não. Quiçá... Não. Por atrás dessas nuvens, poderíamos acompanhar o suicídio do Sol. Ele se sensibilizou. Meu cinismo me assusta, mas é assim mesmo. É só tomar cuidado para não queimar as mãos. Vamos tomar uns gorós? Naquele boteco, onde há mais homens lindos que cerveja gelada? Fitei-lhe os olhos e murmurei uma desculpa qualquer. O agente se inquietou, estendeu-me a mão e falou num idioma que me surpreendeu: por favor. Óculos escuros resolverão o problema. Está fazendo um ano, amor. Estávamos distribuindo preservativos no setor hoteleiro e você fletando com as recepcionistas, só para me ver espumando. Por mim, ele morreria sem me conhecer novamente, estava eu mudado. Senti falta da sua boca me mordiscando a orelha, me repuxando o lábio inferior. Agora, pretendia me esconder atrás da comitiva de ursos brancos vestidos de ternos escuros. Promovo um bacanal, se você quiser, me dissera. Promessas perderão a validade quando chegarmos à Praça dos Três Poderes. Abelha perdida. Lábios ainda inchados. Além do mais, fantasia nos pêlos do joelho significam sonhos decifrados. Tão difícil de entender, não? Respirei fundo e me soltei do abraço que me acalmava. Queria um namorado, não um amante. Beijei-lhe com carinho, procurando o amor que ele trazia preso na garganta. Poderia fazer essa experiência, ir embora para São Paulo, até a aflição ceder, o desejo por mim esmaecer, mas ele não estava sendo convincente. Feliz Natal! -- lhe disse ao me despedir. Ele baixou a cabeça. E até agora não me respondeu os e-mails.

30 de nov. de 2005


Kennedy, originally uploaded by theblue.

Mamãezinha, a senhora sabe o quanto te odeio, mas não quero que saia por aí me chamando de ingrato. Obrigado por aquilo. Como? Não entendi. Obrigado, por ter me dito (o trocadilho chulo é proposital). A senhora poderia ter optado por interromper sua gravidez, não me oponho ao seu direito conquistado, contudo, pergunto-lhe sem esperança que me respondas, porque seguiu com a gestação, se no final ia me deixar sozinho. Foi para você ir se acostumando.

29 de nov. de 2005

Por enquanto, não consigo mastigar, mas consigo escrever. Ler me distrai do pós-operatório. Medo. "Os Irmãos Karamazovi" ficou esquecido sobre a cama, emaranhado no edredon cor-de-rosa. Alessandra, Alesandra, Alessandra. Tenta relaxar, Marcinho, não cai uma agulha, sem que Deus saiba. Podia detalhar o sexo, ansiolítico natural, mas prefiro falar dos cirurgiões, da assistente. O desconto funciona mesmo? Funciona, sim. Consegui pensar rápido antes da anestesia. Cinco por cento. Já é alguma coisa. Imagine se fosse um aumento de cinco por cento na taxa selic? Eles riram. Me senti do povo. Deixei a sala de cirurgia sem esclarecer minhas dúvidas. Não era capaz nem de responder as perguntas. Até ali, tranqüilo. Vamos embora. Tchau, Senhor Doutor, Senhora Doutora e Senhora Assistente. Obrigado. Fiquem com Deus. Ainda não chove. É uma bênção. Tenho me agarrado a Ele, prometido fazer a lição sem queixas ou reclamações. Tem que fazer, não tem? Então faça. Não posso mais protelar. Pude ouvir o osso sendo raspado. A Assistente me fazendo cócegas com suas histórias de identidade dobrada dentro do bolso da calça. Senhora, cuidado! Eu sou escritor, tenho um blog. Suas falas podem virar literatura nas minhas mãos. (Ih! começou a pretensão.) Todos rindo e eu sentindo um alívio. Se estão rindo, é porque não está havendo complicações. E se eles forem sádicos? Papai do céu, nos havíamos conversado que nunca mais nos envolveríamos com esses tipos, por mais ricos, belos e charmosos que fossem. E pensar que por causa de um perverso, estava sendo aberto e costurado. Espero a Alessandra me ligar. Esqueci meu livro em cima da cama. Eu sei, eu sei. À noite, eu te levo. E quem me faria companhia, enquando chove? Beatriz. Sob efeito do Paraíso que faltava. Sim. O Paraíso de Dante. Anestésico natural. Tanto que acabei de escapar de um assalto. A cidade torna-se fisicamente violenta, mas do que a Ética permite.

28 de nov. de 2005

Fedor Dostoievski

Estou apaixonado. Finalmente. No começo me aborrecia, agora não consigo largá-lo. Presinto a dor do vazio que me desorientará ao ler a última frase, assim como em "Cem Anos de Solidão". Para mim essa seria uma das diferenças entre um clássico universal e um best-seller. Este, ao terminarmos a leitura, corremos atrás de outro, tal o adicto a procura do entorpecente. Aquele, nos mata para qualquer outro pensamento que não seja por quê?

Book3, originally uploaded by Erunion.

Acho que foi a Marfa Ignatievna. Desconfio também do Aliócha.

26 de nov. de 2005

Estamos todos bem

A morte é tão feia, tão feia, que acaba se tornando simpática. Rezo para que ela seja boa comigo e com quem quero bem, mas quase sempre ela é perversa. Nos acorda de noite, tocando o interfone. É o jeito. Entra, senta-se. Quer um cafezinho? Uma água? Aceito um aperitivo. Então, ela nos distrai, nos faz rir (daí o humor negro), elogia nosso cabelo e, finalmente, nos mata. Sim. Mata-nos. Porque a estima por quem falecera revestia o ventrículo direito do meu coração. Falta de ar. Deixa de frescura e vá ligar para funerária, meu papel termina aqui. Nossos sentimentos. Me dá um abraço e vai se embora.

Se me fosse permitido, escolheria morrer por uma efermidade, não por acidente. Eu sofreria muito é verdade(tem morfina, pra quê?), incomodaria muito mais (quando se tem herança, não é incômodo nenhum), em compensação, ninguém levaria um susto (susto mata, sabiam?), ao contrário, seria um alívio. Foi melhor assim. Ele foi descansar (nós também). Ao observar a chuva a fustigar o pára-brisa, imaginei-me eu a enterrar meu pai. Foi difícil conter o choro, como está sendo agora. Daria um interessante capítulo de introdução. Depois. Da morte, só consigo rir.

25 de nov. de 2005

Em suspensão até segunda ordem


180 words/hour, originally uploaded by Emaratioryx.

Não esperava ler "Harry Potter and the Half-Blood Prince" antes do carnaval. A fila andou rápido. Será que lá na Inglaterra, assim como no Brasil, a editora doa um volume para as bibliotecas? Creio que não. Do contrário, teria um carimbão na falsa folha de rosto. Então, o diretor da Cultura Inglesa (filial Brasília) aceitou o argumento das bibliotecárias que dessa vez, mais do nunca, transcorreriam longos angustiantes quinze dias para os pottermaníacos: Já chegou? Ainda, não. Ai, Meu Deus! Levar quinze dias para ler o Harry Potter! Só pode ser aluno do Intermediário. O nervosismo da garota recendeu no frio da biblioteca. Hermione Granger. Eu fui mais discreto: Oi, Kathy, tudo bom? Teria como eu dar uma olhadinha na lista de espera? Claro, meu anjo. Você não vai acreditar? Ela virou o monitor para que eu mesmo visse. Você é o próximo! Li meio incrédulo meu nome na tela do computador. Nunca tive tanta dúvida que aquele nome fosse o meu. Nem na lista dos aprovados do vestibular da UnB, fui tomado por tanto cepticismo. Tantos homônimos espalhados pelo país, deve ser outro... Se eu te contar, leitor, que ao sair do igloo-da-Kathy , abri a porta para a moça que ia devolver o livro, tu acreditas? Elegante morena de olhos azuis, magrela de tão alta, cachecol (ou echarpe?) vermelho enrolado no pescoço, perdida numa mini saia jeans. Fleur Delacour. Ela se dirigiu a uma cabine multimídia e passou toda a tarde aperfeiçoando sua pronúncia. Foi melhor assim, o desencontro me permitiu testemunhar um crime. Sou péssimo fisionomista, Doutor.

24 de nov. de 2005

A mão-de-gato dos blogs

Português oral castiço me irrita, prinpalmente quando o falante não se importa com a textura das cores. Imaginem a importância das cores para um pintor. Pois é! Eu sou assim: cor e luz, ritmo e melodia.
Pessoas restritas só servem para me certificar que há muita gente mal intencionadas neste país, ou ingênuas.

Fontes não identificadas esquentam noticiário e iludem leitor

"(...) Esse recurso da denominação vaga de fontes com informações cruciais não é novo na imprensa brasileira. (...) No período da ditadura, era comum encontrar "segundo fontes militares" nas reportagens para maquiar falhas na apuração, plantações de meias-verdades ou meias-mentiras e até mesmo opiniões pessoais dos jornalistas. (...) Está se tornando monótono e motivo para não acreditar integralmente no que se lê."

A Lebre e o Leão ontem à noite na fila do cinema.


Ride the tiger, originally uploaded by RandomMoth.

Sempre depois do coito tomávamos vermífugo. Ela se achava a esclarecida. A tia-madrinha explicava minusiosamente detalhes da genitália feminina, da masculina, como se limpar, o ciclo mestrual, como se desvencilhar de canalhas que "só querem nos ver sofrer." (Ela tinha experiência.)

Eu, por minha vez, procurava os livros, os quais apenas folheava. Não entendia absolutamente nada. Agora percebo que era minha ansiedade não me permitia me concentrar, portanto compreender o que se lia. Não sofria de uma idiotice pressumida. De uma coisa, eu sabia: camisinha era um método contraceptivo eficaz, desde que associada com outros métodos e não podia se confiar na tabelinha.

Todo mês por volta do dia dezessete, eu a perguntava: Laurinha, desceu? Ainda não, mas não se preocupa. Minha tia me explicou que meu ciclo ainda é irregular. É normal atrassar. Eu que comesse minhas unhas até o sabugo. Você, perguntou o que seria aquela dor que eu sinto. Ah! me esqueci. Deve ser doença venéria...

Uma manchinha arroxeada na glande me levou à visitar o consultório de uma renomada infectologista aqui na capital, dez anos mais tarde. Vai ali para aquele canto. Pode baixar as calças. A cueca. Agora expõem para fora a glande. Minhas pernas tremiam. Eu precisava sentar. Com a mini laterna focando a região pélvica, diagnosticou a médica: é um mancha de nascença. Pode vestir a roupa e lavar as mãos naquela pia. Eu queria ter lhe fazer várias perguntas, mas estava com vergonha. Hoje, eu sei que dor era aquela que eu sentia. Mas por que, então, a Laurinha nunca engravidou?

P.S.: Na realidade, ela estava mais para uma tigreza. Unhas grandes, coloridas de tão estravagantes que me marcavam as costas. Eu gostava. Nem sempre. Tenho orgulho das minhas cicatrizes e exibir minhas costas ossudas. Isso aqui foi uma louca. Explico, fingindo indiferença. Me restava, então, ser um lebracho. Admiro-me a misericórdia dela, em nunca ter me devorado a tenra carne que insistia em dizer sim, quando eu queria dizer não.

23 de nov. de 2005

Vou ter que fazer uma intervenção, não posso protelar mais; dissera-me o cirurgião. Poderíamos marcar domingo pela manhã. Era uma gentileza que ele estava fazendo a um amigo. Domingo não posso, tenho compromisso. O dia todo? Todo o dia, vou ser fiscal num concurso. Não pode faltar? Até poderia, mas eu precisava do dinheiro. Se fosse urgente mesmo, ele me operaria imediatamente. Sábado à noite? Que favor era esse que aquele estranho devia ao nosso amigo em comum. Ele consultou mais uma vez agenda, contraiu os lábios. Vamos fazer o seguinte: vou atender essa senhora... não. Vai para casa. Vou te atender terça-feira.

Trechos dostoievianos: meus preferidos


DSC00894, originally uploaded by Erbi.

Interrompemos a leitura quando atiraram o pão traiçoeiro ao famélico cão. Em Moscou deveria ser diferente.

22 de nov. de 2005

Oncídios do Jardim Botânico


orchids, originally uploaded by ana_maria_.

Não há nada melhor do que estar desempregado. Até quando? Até dia vinte nove do corrente. Vou entrar na cápsula de vento. Me sentirei um pouco abatido, mas sairei mais forte. A verdade alimenta a disciplina. Hoje finalmente coloco as mãos no tratado para sempre. Quem sabe não publique uma fotos. (Exibido!)

21 de nov. de 2005

O que eu gostaria de ganhar de Natal?

Leia no meu diário de navegação que você vai saber, respondi ao Comte., ao ser ingadado o que gostaria de ganhar de Natal. Perdão. Não entendi. Um livro qualquer, simplifiquei. Eu sabia que estava correndo um risco. Mas ele não poderia ser tão burro, a ponto de me presentear com um Paulo Coelho. Por que não? Porque estes estão disponíveis em qualquer biblioteca perto de casa. Ah! E Schopenhauer não estaria? Acontece que estes eu sinto necessidade de grifar, riscar, anotar nas margens sinais que perderão o sentido ao longo da semana. O que impede de fazer anotações no best-seller? Com o trivial também se aprende. Não o que eu preciso saber para convencer ao Comte me ajudar a escolher o enxoval.
Quanto inveja me escorria do pênis ao presenciar o criolo usando fucking como se fossem vírgula. Será que consigo? Outro giro pelo salão? Esquece. Hoje serei o homem mais feliz do mundo ao colocar as mãos no verbo convencer. Quero esbofetar o filha-da-puta que me abriu as asas durante uma madrugada de barba-de-timão. Mau-humorado, metido a rico. Um dia, aqueles dentes podres terminarão de cair e eu terei o prazer de oferece-lhe uma maçã-do-amor. Ofereço por educação e por educação deve-se recusar. Ele provará do sarcasmo que me retalhava madrugadas de sábado. Me expunham ao ridículo, me menosprezavam. Vingo-me com estrelas, clívias e castanha-do-brasil, versos que solapam lágrimas críveis. Vou-me embora, levando a ampuleta, o cuco, a cadeira-de-rodas e a santa, muletas escondidas pelo quarteirão. A menina se comprometera a bordar o enxoval. Aproveitando o espaço e o tempo que acabou: também sinto saudade sua, amado leitor. Saudade de ler o que meus amigos andam produzindo.

19 de nov. de 2005

Bienvenue sur le site officiel de Charles Aznavour

As madeleines estavam crocantes. Pedi a tropa que não contasse nada a ninguém ao meu "patrão". Nem para ser eu. Eles não presenciaram o enólogo me explicando a diferença do r pronunciado em Paris do pronunciado em Nice. Em Paris é debaixo do queixo -- não precisava me tocar, já havia entendido o que ele queria. -- Na minha região é mais grutural. Porque eu fui dizer que entendia perfeitamente duas crianças conversando em francês. Admirado, surpreso, pronunciou fonemas entuberáceos. Ele inventa palavras em português. Arcaismo gauliscista. E a boca salivando começou a falar, a falar, a falar uma língua, que por milagre eu ainda compreendia. Quatro anos de terror e humilhação. Valeu a pena? Aprendi a aprender. A quanto tempo eu não conversava em francês? Meu sotaque é horrível, disse-lhe. "En fogeant que l'on devient forgeron." Tu parles plus vite, respondi-lhe. Foi a única frase que me lembrei. É malhando que se torna ferreiro, traduziu. Parles! E o medo dele me convidar para sair. Jantar. Ele se entusiasmou. Os seus olhos faiscavam esmeraldas. Fingi que não entendi a cantada. Ele riu. Poderemos ser amigos. Nada mais. Não estou disposto em saber se este francês conseguirá me atravessar do Oiapoque ao Chuí (não que percurso seja interessante.) As fronteiras continuam bem vigiadas, eu bem sei. Uma trepada não vale o risco. E quando o diplomata voltar à loja (Que seja breve, meu Santo Antônio) estaremos ouvindo Charles Aznavour, Edith Piaf e porque não, Manu Chao.