11 de mar. de 2006
A ossada de US$ 150 mil
"A camisa parecia pesada até que Ennis viu que havia uma outra por dentro. As mangas estavam cuidadosamente colocadas por dentro das mangas da camisa de Jack. Era uma camisa perdida sua, ele pensou, há muito tempo atrás em alguma lavanderia. Sua camisa suja, o bolso rasgado, com botões faltando, roubada por Jack e escondida aqui dentro da camisa dele. As duas camisas eram um par como duas peles, uma dentro da outra, uma coisa só. Ennis apertou o rosto contra o tecido e respirou vagarosamente pela boca e pelo nariz, esperando que houvesse um resto de fumaça, de sálvia da montanha e do doce e salgado mau cheiro de Jack mas não havia nada, só a memória, o poder imaginário de Brockeback Mountain de que nada tinha restado a não ser o que estava nas suas mãos."
Annie Proulx (Trad: Adalgisa Campos da Silva,2006)
Ministério Público pede quebra de sigilo de usuários do Orkut
10 de mar. de 2006
9 de mar. de 2006
Blair garante a Lula investigação no caso Jean Charles de Menezes
Quando a discriminação vira notícia
7 de mar. de 2006
Presidente Lula em Londres
6 de mar. de 2006
Bolo de vento aos perdedores
Ao pôr os pés no chão: "até estancar o sangue." Enquanto estava arrumando a cama, reelaborei a frase: "deixa o sangue estancar, resmunguei." Seria uma frase interessante para inciar o post de hoje (20/02). Passaria a impressão de que havíamos ido além do simples desentendimento dos casais complicados. Não me entrego facilmente a quem se oferece sem pudor. Isolou-se debaixo das almofadas, até o dedo voltar a estralar. "Olha, o morto." -- disse a mal-amada. Oi, Helena! -- respondi, sem que elas esperassem, à amiga, que também deve ser uma mal-amada, porque mal casada, sei que é. Batom vermelho num aniversário de criança é sinal que está a procura de homem. Casal se esfregando ao dançar. Péssimo gosto. Todos aplaudiam. Exbicionismo tem hora e lugar. Você não vai ser servir? Não, obrigado. Quando estou contrariado nem apetite sinto, quanto mais vontade de fazer o social. Necessidade de voltar para debaixo da cama onde escondo aquela saudade moída. Estou apaixonado e todos desconfiam. Os telefonemas, os e-mails imprimidos, as idas ao orelhão, as fotografias digitais reveladas em papel couchê. (Para que ele guarde no fundo falso da gaveta da estante, o que se banalizou.) Passo uma mensagem pelo celular. Encontro marcado. É improvável que algum dia venha beijar-lhe a boca durante a cerimônia de formatura. Seria expulso imediatamente da coorporação e minha amiga me pergunta: Você tem fetiche? Muitos de nós temos. A sensação de segurança, de proteção. Disse-lhe que qualquer lugar seria muito perigoso ao lado dele. A hemorragia nasal nos atrapalhou qualquer intenção. E era o domingo de sol forte que eu havia pedido a Deus.
4 de mar. de 2006
A vasculhar históricos (II)
-- Marcito, são bonitas as alstroemérias?
-- Bonitas? Elas são lindas. Pena as pétalas serem tão frágeis. Elas são apropriadas para compor buquês compactos, daqueles usados quando vamos recepcionar alguém no aeroporto. As de cores quentes resistem por mais tempo.
-- hmmm...
-- Por quê?
-- Estou pensando.
-- Na roda?
-- Não. Apenas pensando.
A vasculhar históricos (I)
-- E aí, grande Marcinho, fmz?
-- Tranqüilo, Tobalo, e contigo?
-- Então, está é sua cara...rs.
(Ele se referia a minha fotografia no visor do MSN.)
-- Estou morrendo de vergonha de ti.
-- Sou eu mesmo. Flagrado ao acordar, rs
-- Ainda não lhe enviei os e-mails.
-- É até que você é um cara simpático...rs
-- Gentileza tua.
-- E os projetos? Conversou com o pessoal da COGER?
-- De perto até que engano. De terno então, nem se diga. Fui recebido como chefe-de-estado.
-- E eu sou feio de qualquer jeito..rs.
-- Que nada. Muitas vezes temos um certo charme que desconhecemos.
-- É, a mulherada sempre me diz isso...rs.
-- (...)
Há uma música do povo
3 de mar. de 2006
A vinte reais o vaso
A voz da Elis vindo de algum lugar da web. "Me deixas louca." Na lavanderia, meia hora atrás, fraquejei ao preencher o comprovante do cartão de débito. Esse não precisa assinar, senhor. Basta a senha -- me dissera a mocinha de piercing no supercílio. Porque ao conferir a data, a tempestade se fez dentre de mim. Está chovendo forte, não? Diz isso, senhorita, porque não olhou aqui dentro de mim. Peguei os ternos. Agradeci o gentil atendimento e resolvi enfrentar as linhas transversais que nos bloqueava a olhar. Paisagem dos sonhos, se plantasse milho. Gotas. Granizos. Enxurrada, lama. Queria entrar em casa antes que o Fornazze chegasse e descobrisse que eu havia lhe mentido. Sim. Ele chegou há dez dia e eu continuo me encontrando com o formando da turma do Oitavo. Você buscou meus ternos? Busquei, sim. Algo mais? Zombo da morte, que a raiva esconde.
Depois do almoço, vamos levar crisântemos brancos perfumados à lápide daquela senhora com quem sonho quando me deito cedo. Enquanto a lasanha termina de assar, ele tomará seu banho, sentará à mesa, vestindo apenas cueca. Branca, boxer. Vai me pedir que lhe sirva vinho. Tinto. Miolo. Ele me observará soprando o alpiste do Miro. Tecerá ditos monocórdicos sobre o buquê do vinho, sobre as uvas, sobre meus pés. Me pedirá um favor, e eu concentrado nas marcas que o cutelo faz na tábua-de-carne, me recusarei. O tomilho picado exala pela cozinha a senha. Me abraça pela cintura. Me convence a desligar o fogo do feijão com um beijo na nuca. E me explica minusiosamente os planos para essa tarde. Preciso ir ao cemitério antes, querido. Mesmo que seja só.
2 de mar. de 2006
Que sejam belos, mesmo forjados
Acabo de ver num grande portal da web fotografias do carnaval de Salvador. Foliões se beijando. Nenhuma ponta inveja, tampouco de excitação. Deve ser muito gostoso: axé, suor, saliva. E é mesmo. Contudo, falta um ingrediente aos modelos de abadá, aos fotojornalistas, que torne as fotos relevantes. Espontaneidade, a foto, tal qual beijo; melhor roubado. Não há porque forçar, quando ambos querem. (Ele queria no seu íntimo) Há de se entregar à gostosa surpresa do inevitável, principalmente quando não podemos nomear os desejos escamoteados para debaixo da mesa centro da sala-de-estar.
Nos han dado la tierra
Manipulação, Contramanipulação e persuasão no discurso Presidencial: mecanismos circunstanciais ou sempre atuais?
Alguns minutos depois, na outra mesa.
-- Você não vai mais me ajudar?
-- Estou aqui, qualquer dúvida me pergunte.
E nem o telefonema esperado ele quis atender.
Rainha fará pedido de desculpas velado por Jean Charles
Grã-Bretanha: Inglaterra, Escócia e País de Gales
Reino Unido: Grã-Bretanha + Irlanda do Norte, alguns territórios e várias possessões, entre elas, Falklands, vulgarmente conhecida como Ilhas Malvinas.
-- E a Commonwealth (Comunidade Britânica), primo?
Essa guria andou estudando. Ela quer me pegar.
-- Não sou enciclopédia. Nem tenho pretensão. Busque no Google.
-- Mas, Marcinho...
-- Posso te orientar na escolha dos links.
1 de mar. de 2006
Fênix em vigília
Do seu carnaval, só quero as cinzas. As vinte horas de sono ininterrupto. As dores a procurar asilo nas costas do escapulário. Nas nádegas desfraldadas. Um aconchego, para o rapaz que se aproximou sem se anunciar. Você se entrega facilmente aos gigantes. Pés de barro. Sujos. Fomos assentar um mármore na casa do Coronel. Relaxar o esfíncter e soltar a respiração. Seria uma fórmula, se não tivesse sido uma graça alcançada. Chora, sangra, espuma. Como é difícil te amar, Márcio. Amar? Me empresta o notebook que eu te mostro a face escura do sentimento enterrado, ontem à noite, atrás do canteiro de tomates. Vamos ao cinema amanhã? Depois da missa, respondi.
26 de fev. de 2006
Procuradora e ministro são alvo de grampo ilegal
25 de fev. de 2006
Quem são os marqueteiros políticos
-Querida, estamos rezando por vocês. Vamos atravessar essa tormenta sãos e salvos.
Agora, adiante a indefinição:
-Querida, estamos torcendo por vocês. E ainda vamos levar no primeiro turmo.
-Ah, Marcito. Que os anjos digam amém.
-Amém!
23 de fev. de 2006
Na última estante do corredor à esquerda
-Marcinho!
-Oi! Madrinha!
-Filhinho, você quer aproveitar o carnaval para ler o livro?
-Adoraria.
- Vou mandar o Biel pegá-lo para você e depois vai buscá-lo lá em casa.
-Claro, perfeito!
-Soletra aqui para o Celinho, o nome do livro.
-Espera aí, Madrinha, eu tenho o endereço dele na instante.
-Não acredito. Ele é o cão, Celinho! Já vai ter dar o endereço o livro. Fale aqui com ele.
-Fica mais fácil com o endereço, né, Dona Fatinha.
Enquando lhe escrevo, rezo para que ele não se confunda. É o volume 2. Vol 2. Não fui enfático suficiente. Mas se ele pegar o volume 1, vai ser divertido também. A propósito, não pega bem dizer que estou lendo JJ. Ou as pessoas acham que sou um gênio, ou me acham metido; como havia comentado João Silvério Trevisan, ao participar do chat da sua oficina literária. (Se não suporto o sarcasmo, não nasci para escrever.) Nenhuma das alternativas acima. É dever-de-casa que faço com surpreendente prazer. Qualquer dia, publico minha opinião sobre Finnegans Wake (como se isso fosse importante). Ai, então, poderei voltar ao boxe.
Aguardando o chamado
Os Lábios-Carnudos pronunciaram meu nome ao sentir meus olhos procurando os seus. Meninas-dos-olhos âmbar. Dante sonhava com Beatriz, eu sonho com você. todas as noites é contigo que me deito. Não há como me sentir só no minúsculo quatro frio das nossas esperanças. São seus braços que me apertam quando imagino ouvir o rangido da porta, minutos após. A janela aberta alimenta minhas fantasias. Você ameaçou me visitar. Que venha, então, com a sirene ligada anunciando urbi et orbi o seu amor tolhido, encolhido, colido por mim. Fico feliz pela sua linda família. Pelo caminho que escolheu. E se não é feliz, conforme me confessou por e-mail, talvez seja pelo orgulho que me obriga a negar-te. Não sei dividir seus beijos com mais ninguém. Queria aprender. Sei que você está aguardando o meu chamado, um bizu (de acordo com seu jargão). Recomendo que leia um livro, enquanto espera, assim você não perde seu tempo pensando na gente.
Efeito Katilce
Luciana Gimenez entrevista Mick Jagger
22 de fev. de 2006
"Me sinto frustrado por não ter diploma"
(I Can't Get No) Satisfaction
Enquanto voltava da sessão, me perguntava se haveria um artista brasileiro capaz de reunir mais de um milhão de pessoas, aqui ou em qualquer lugar do mundo, num estreito calçadão, onde pés eram carinhosamente pisoteados. Não há. Principalmente, quando o único (?) motivo era cantar(?) com seu ídolo.
A propósito, quantos milhões de cópias eles já venderam no Brasil? Devem ter sido muitos, visto a quantidade de pessoas que se diziam fãs. Talvez, leitora, leitor, vocês estejam sentindo um ressentimento recender. Ele queria ter estado lá. Só se fosse para ser um homem-bomba. BUM! O Mr. Jagger não perderia o rebolado.
Irrito-me com esses estrangeiros que abusam do status e do poder econômico para nos seduzir e nos obrigam a realiar suas fantasias mais depravadas. Eu me recuso. A Literatura não me permite ser moralista, mas apoiado na crônica na qual nossa Clarice Lispector critica o programa do Chacrinha, declaro que preferiria o exílio, a ter que me sujeitar ao que pensam ter poder.
Lula tenta cortejar o voto evangélico
21 de fev. de 2006
Sonhar com lírios
17 de fev. de 2006
Uma Leitura de Tristão e Isolda à Luz da Crítica Feminina
16 de fev. de 2006
Edmund Husserl
Aristóteles
15 de fev. de 2006
"Viagem de astronauta brasileiro é marketing, diz militar"
Pesquisa consolida recuperação de Lula
-- Tu votarias em mim?
-- Depende, você vai se lançar por qual partido? Eu voto no partido.
-- PFL
-- De jeito nenhum! A proposito, tenho um amigo da liderança jovem do PSDB, com pretensões ao executivo nacional, extremamente conservador. Nunca mais quis sair com ele. Hipocrisia me irrita.
-- Estranho. Era para ele ser liberal.
-- Progressista. O que mais existe é entendido com visão política retrógrada.
Ele virou-se de costas e terminou de tirar a espuma do corpo, sem me responder se nos encontraríamos hoje.
14 de fev. de 2006
Abençoai-nos, São Valentino
Você se ausenta muito de Brasília? Não. Enfaticamente respondeu. Trabalho no Gabinete do Comando. Conheço gente lá. Quem? Isso é irrelevante. Para você! Quem você conhece lá? Tive que explicar que de fato não conhecia ninguém, apenas prestávamos serviços. Beijos sufocantes me obrigaram explicar como era a prestação de serviços, as compras, as vendas, a emissão de notas fiscais. (Como se ele já não soubesse. Queria apenas me forçar a falar.)
Você me saíra um perfeito espião. Trabalho na Inteligência. E você confia uma informação dessa a quem acabou de conhecer? Há meses estava na sua rota. A colisão seria a qualquer momento. Isso me cheira à Bárbara? Diríamos que ela seria nossa madrinha. Barbárie. Vou matá-la. Ela te disse que sou comprometido? An-ham. (Cínico!) Vou me aproveitar barbaridade do bárbaro vigor que ostentas e nunca mais vamos nos ver, pelo menos nus -- suados e agarrados, refletidos no espelho do teto.
Fiz força para sair de debaixo do cavalo e mostrei-lhe quão gentil cavaleiro, eu estava disposto a ser. Estou acostumado a maiores, disse-lhe. O riso de deboche ecoou por todo quarto. A expressão de dor me traiu. Só agora me dou conta que meus parentes e amigos podem vir a ler isso. Imprimir e ler. Estupefatos. Decepcionados. Irritados. Atônitos. Estarrecidos. Não posso fazer nada. Sorry! Minha leitora me paga para eu ser imaculamente pornográfico. Onde eu estava mesmo?
O cu pedia água; a garganta, arrego. Implorei que jorrasse o que tivesse ainda para jorrar. Terminasse com a sessão de espasmos. Não tenho pressa. Não sei se vou ter esse prazer de novo. (Canalha!) Procurei seus lábios. Infligir um terço da dor que eu sentia, ao mordicá-los. Quer namorar comigo? O mito irlandês estava diante de mim. Fruto da ironia, do improvável. A dúvida. Hesitei diante a mudança. Preciso pensar. Saber como vou fazer para devolver as chaves sem despertar a erupção do Vesúvio. Acalmar a fúria diante a provável separação. Estou me sentindo mal, por ter (estar traindo) aquele que me alimenta os sonhos. Mas essa solidão somada a essa ausência... Ele veio em boa hora. Posso voltar à minha leitura. Agora vou conseguir me concentrar.
Um pouco de cultura e munido de boa vontade, assim estou enfrentando Finnegans Wake (Ai, ai, só quer ser o culto), doravante FW. Deseja-me sorte. Nessa salada de frutas, sirvo morangos amassados; caso contrário, o torto fumegante sobe na cama para dizer bom-dia-meu-amor.
Há cinco dias o romance-poema estava me esperando sobre o criado-mudo. Entrei no apartamento, como se estivesse indo salvar, das chamas do incêndio, um idoso. O molho de chaves zombava de mim. Perdi uma sexta-feira, um sábado e um domigo de leitura. (Por que será que ele insiste?) Gritei, ao saber por telefone que eu deveria (logo) buscá-lo. Pensei que ele também estava lá. Tranqüilamente, me despedi dos meus pares e decolei em direção da Lua. Disfarcei minha euforia. Não queria mostrar-lhes minha frágil felicidade. Aqui é proibido sorrir, já que ser feliz tornou-se impossível (Por quê? Explica-nos se for capaz).
Quando se fala ou recomenda muito algum romance, filme, exposição, o que se seja; das duas uma: ou você se decepciona, ou derrete-se de gozo. (Haveria a opção da indiferença, esqueceu-se?) Não me decepcionei, contudo (cuidado com essas vírgulas), a leitura gaguejada está longe de me lembrar o foda de ontem à noite: a leitada escorrendo pela minha bunda, o cacete batendo no meu rosto, com a glande sendo esfregada nos meus lábios; o indicador grosso me rasgando o cu. O dedo médio, depois o anular. Prazeres distintos, baunilha. Nenhum possui a pretensão de substituir o outro. Até porque, parece que o dia de ontem não anoiteceu. Nem a agenda sobre a cama prova que encontrei alguém que só diz me querer. Só se for nu, de cabeça pra baixo com as pernas a procura de apoio. Não achei graça. De novo, não faço. Meu nariz escorrendo sangue, um pedido safado de desculpas. Mesmo assim, ele consegue ser mais carinhoso que os outros.
13 de fev. de 2006
No convite estava escrito: 20h. Cheguei às 17h para ajudar no que fosse preciso. Posto a mesa, fui ao supermercado comprar uns kalanchoes para enfeitar os banheiros. Branco, amarelo, laranja e vermelho. Acabei por comprar, também, duas echeveria laui para as mesas de centro e um pachypodium lamerei de um metro e meio de altura (eis auma das vantagens em se morar perto de um hipermercado). O canto da sala respirou aliviado. A anfitriã se atrapalhara com o assado. Na garrafa de Chandon restava uns quatro dedos, se muito. Você não vai beber nada. Esqueceu-se que não bebo. Sugeri ao garçon que utilizasse uma bandeja menor. Passa uma sensação de informalidade. Os convidados chegaram prontualmente, visto o fato de todos terem que se levantar cedo no outro dia. O rapaz que entrou por último, atrás da moça de vestido esvoaçante de flores azuis, chamou minha atenção Chamaria de qualquer um. Fotogênico, ombros largos, rosto quadrado, uma garrafa de vinho na mão, Luigi Bosca. Respire fundo, Marcinho. Não olhe mais na direção dele. Minha amiga me procurava com os olhos, movendo discretamente a cabeça. Chamou-me com um balançar de mão. Refugiei-me no banheiro. Quando abri a porta, fui surpreendido por ela segurando o rapaz pelo braço. Marcinho, esse é o Mucuri. Prazer. Estendi-lhe a mão. Sorri contrangido. Prazer é todo meu. Você, lavou essa mão? Cala boca, Bárbara. Ela não perdia a piada.
Ele tinha um dôssie sobre mim, conforme me confessou na varanda, antes de brindarmos aos noivos: o que estava lendo no momento, cineastas preferidos, a razão das minhas cólicas, meus planos para 2006. Vou degolar a Bárbara. E mudo de tão calado, sem conseguir organizar o raciocíno, fitava-lhe o cinza que lhe coloria os olhos, podia ver o vazio que se tornara minha mente. O garçon passou por nós e nos ofereceu da bandeja. Ele se esqueceu do forro. Antes que eu recusasse a gentileza, o Mucuri pegou uma taça e me entregou. Seria grosseria recusar? Provei do vinho antes de brindar a nossa saúde. Esse seria o primeiro vexame da noite. O segundo foi lhe dizer que gostaria de vê-lo novamente. Quer ir ao cinema, amanhã? Você gosta de acampar? -- me perguntou. Vamos para varanda. O som alto não nos permitia mais conversar. Se permiti que me abraçasse, foi descuido. Se perguntei o que seria aquele volume debaixo da jaqueta foi pura inocência alimentado por um hálito de gengibre. Eu me assustei com sua resposta, ele ficou constrangido. Não deveria andar armado. Concordo. Vim direto de uma missão para cá. Ah... Tá! Ele mentiu tão bem, que senti vontade de acreditar.
11 de fev. de 2006
Oui. J'ai une blog. A maturidade adquirida me permite confirmar suas dúvidas. Sim. Eu tenho um blog. Não há mistério, apenas uma vontade arroxeada de forrar com flores de bougainville o caminho que deixarei para trás. Despedidas podem comprometer nosso contrato. Não ouse me chamar pelo meu primeiro nome.
10 de fev. de 2006
Agudás: O Brasil no Benin
9 de fev. de 2006
Cronologia da crise das caricaturas de Maomé
Apoiado na sátira, pode-se atacar os que estão no comando das instituições. O ataque deveria vir de quem está dentro do sistema e não de quem de fora tem uma imagem distorcida. Quem ver de fora ver melhor. Depende das intenções. Parafraseando Comte-Sponville, uma coisa é um judeu contando piada sobre judeus; outra coisa é um neonazista contando a mesma piada. O humor pode aliviar, ou pode nos humilhar. Serve para alimentar a esperança (A Vida é Bela) ou reforçar o preconceito. Admiro-me Copenhague passando por esse vexame. E eu que pensava que a Europa fosse educada. Queria só saber quem está por trás das publicações charges? Estou a correr atrás de hipóteses.
8 de fev. de 2006
7 de fev. de 2006
"A Estética da Desgraça" ou "Os Figos"
O que tenho a dizer sobre a XV Feira Internacional do Livro de Havana (XV FILH 2006)
Olha só como resgato uma informação, diário: Qual é mesmo o nome daquele escritor cubano renegado pelo regime?Filmaram suas... confissões? O protagonista do filme foi indicado ao Oscar de melhor ator... ele era espanhol... Huevos de Oro. Bigas Luna... O telefone tocou. Realizei uma venda. Não me pergunte para entregar onde, pois já me esqueci. Quando voltei ao editor de texto, já tinha um nome: janvier. Pesquisa no Google. Nome de semana?! (Segunda-feira em francês, Márcio! Paris ainda povoa teu inconsciente? Safado! Que decepção!) Nenhuma referência à cinema. Respiro fundo. O movimento dos meus olhos demostram que estou tentando me lembrar de alguma coisa. Ah! Ele foi o protagonista de Carne Trêmula. No quinto link, seu nome: Javier Barden (rabiêre báredêm, rabiêre báredêm, rabiêre báredêm, rabiêre báredêm, rabiêre báredêm, rabiêre báredêm, rabiêre báredêm, rabiêre báredêm, rabiêre báredêm, rabiêre báredêm). Volto ao Google. Nova pesquisa: Javier Barden. Pesquisa avançada. Espanhol. Teria ganhado tempo, se tivesse pesquisado logo quando me veio "Huevos de Oro". Pára de se lamentar, que te sirva de experiência para acreditar na tua intuição. Ele clicou no primeiro link, sem se importar com o que se abriria. Droga! Volto à página anterior. Quarto link. Comercial demais. Achei! "Antes que Anochezca (Before night falls, 2000)". Página demorando a carregar. Reinaldo Arenas. Google. R e i n a l d o A r e n a s. Eita! REYnaldo Arenas.
Percebi um certo estigma, por trás das "reportagens" e "resenhas". Porque ressaltar SOMENTE o sofrimento e as dificuldades? Até parece que só as minorias são perseguidas. Senti também certo folclore sobre a prática sexual. Se as mamães não encontram escondido nos pertences dos seus filhinhos objetos simulacros de vagina, assim como os agentes de polícia dizem encontrar na casa de homossexuais executados vibradores e chicotes, ora é porque seus filhinhos, mamães, não encontram algo que pudesse substituir uma boceta. Até porque, conformamo-nos resignados com a mão macia, a bananeira fria, a cabra fedida. Aliás, leitora, permita-me esta digressão: quando minha psicóloga criticou a avidez com que as minorias sexuais (ficou bem melhor!) copulam, não consegui replicar-lhe. Apenas um sentimento me dizia: ela não tem razão. Eu sentia dentro de mim seu ranço estereotipado, fustigando minha auto-estima. Hoje, tenho gana de bater na porta do consultório dela. Doutora, a senhora já testemunhou o desembarque, na Base Aérea de Brasília, ou em qualquer outra Base, de algum pelotão do Exército oriundo de missões internacionais? Não?! Nossa! Estou surpreso, tratando-se de uma consultora da ONU. Os casais se cumprimentam de um jeito tão familiar. Gritam, pulam, se jogam para cima, se abraçam (e não se soltam), se beijam de deixar a língua aparecer. Indiscrição total. Se fosse permitido arrancariam a roupa por ali mesmo. Perdem para a recepção feita pelo labrador quando o dono vai buscá-lo no hotel (nem sei se hotéis para cães podem ser chamados de hotéis), após as férias no litoral norte daquela ilha no Pacífico. Na hora do coito. Jesus! A ponto de nos esquecer que somos feito de carne. O desejo é tão intenso que anestesia tudo. Não há dor no prazer. Se as minorias comportam-se com voracidade, especulo eu, permita-me, Doutora, seria vontade sinceramente contida. Vontade de estar lá, participando da Feira, na condição de observador, apesar da arbitrariedade (peixe duro, este, danado de rasgar). Eu sou feliz, o que não que dizer que esteja satisfeito. Quanto mais me repreendem, veladamente, mais forte me sinto.
P.S.: Reconheço a irrelevância da minha opinião. Cumpro apenas meu dever.
6 de fev. de 2006
4 de fev. de 2006
Entre o lençol e o travesseiro
O mármore branco, liso, puro e limpo. Minhas mãos de alpinista agarrando-se ao frio das lágrimas em propensão. Corre, rápido. Salta, alto. Bloqueado. Estrada interditada. Não pára. Ultrapassa os carros pela direita. O sonho acaba aqui. Queria contar-lhe tudo, mas o espaço acabou. F!-se Como eu ia dizendo, o monumento de mármore era ínfimo diante minhas viagens carne-siderais. Onde você vai passar o carnaval? Na p! que te p! As moças fitam-me gulosas os cacos que se desprendem de mim. Vem no colo da mamãe. Do colo do útero à laringe gripada. Atchim! Espirros intermináveis. Cheiro úmido de própolis. P! Eu sou g! Berlim deserta testemunhava a profunda expedição à Rua das Flores, estreita, longa, polens de rosas suspensos no ar. Respiro a essência fálica sem provar do néctar adocicado, nos cachaceiros; salgado, nos maconheiros; insípido, nos anjos que ruflam suas asas sobre a cidade. Com se diz obrigado? Não precisa, basta sorrir. Perdi-me nas frestas do museu. As pessoas, preocupadas, procuravam pelo artilheiro. Quero um Goethe. Brilhar em Frankfurt. Desejos válidos na megalomania dos humildes. Leio a Cabala, deixada sobre a sobrea mesa. Meu fundamento torna-se válido. Permito que o rio circunscreva por dentro das minhas entranhas, gozo. Relaciomentos fechados. Você sabe fazer feijoada? E preparar caipirinha. Só não sei amar. O que a rua não me ensinou, o que na escola não aprendi. Berlim, Berlim. Ao subir a escadaria da universidade, na fachada de entrada, li: Seja bem-vindo à Berlin.
Mulheres nos campos de futebol
3 de fev. de 2006
Deu branca
O relógio da parede marcava 4h12. Estava ajudando não sei quem a carregar uns pacotes. Vamos parar aqui, preciso ir ao banheiro. Vamos naquele outro bar. -- disse-me--, apontando o outro lado da rua. Vamos! Levantei-me abruptamente da cama, joguei o coberto de lado e encurvado me dirigi ao banheiro. No escuro. Doía demais. A contração não cedia. Vontade de me deitar no chão. O que jantei, ontem à noite? Refrigerante, um pequeno pedaço de mussarela. Você não se alimenta corretamente. -- acusaria-me o gastroenterologista. Os intervalos entre as refeições são muito espaçados. -- comentaria a nutricionista. Você recusa comida? -- inquiria a psicóloga. Inútil, ouvir suas vozes. A louça gelada do sanitário. Preciso de uma toalha. A água morna (quente mais do que de costume) desviava minha atenção. Agachei-me, encolido feito um feto. Contrito, puxei uma Salve Rainha. Várias. Sempre em momentos extremos clamo por Ela. Já havia rogado por muitos nomes da Mãe, quando um filete de sangue coloriu de vermelho o fundo da banheira. Calma. (Há! Há! Há! Ele está com parvovirose.) Com o dedo no orifício, procura estancar o sangue. Amanhã (no caso, hoje), eu vou ao médico, nem que tenha que passar oito horas na fila do Pronto-Socorro. Poderíamos classificar sua prosa como literatura gay? -- perguntou o entrevistador. Sinceramente, -- respondi --, estou mais preocupado em saber, se o que eu escrevo pode ser considerado literatura. Assim fui me desvencilhando do entrevistador, diante uma platéia ávida por um autógrafo. Todos a portar o meu mais recente romance. A capa grossa, o encadernamento de luxo. Os murros na porta. O relógio da parede marcava 6h50.
2 de fev. de 2006
Amores-perfeitos provocam dor de cabeça
Colecionava notas falsas de 20 reais. Provas de amor. Posso ser presa por falsificar sentimentos. Rodas perfumadas. Toma tudo, amor, para você se recuperar logo. Dormiu. Posso ir embora. Ahn?! Preciso dormir, sonhar que essa noite existiu. Quanto mais me escamoteiam, com mais intensidade retalho minha carne. Pisoteio descalça cacos de vidro. Sobras do pára-brisa. Sou uma puta, dessas que preocupam quando seu rufião passa o final de semana sem dar notícias. Pega-se virose quando se sobe o morro? Atchim! Excesso de trabalho. Ele está em missão, me dizia a escrivã. Descansa por mais uma semana, querido. Podemos ir à ponte JK, fotografar o nascente. É lindo. Você a espreguiçar, quando entro no quarto. Meu nascer-do-sol às duas horas da manhã. Para que buscar lá fora, o que eu tenho aqui dentro? Chove intensamente, fraco se comparado a tempestade que desorganiza meu raciocínio, ao preparar suas malas. O que você me perguntou, mesmo? Olhos verdes acinzentados tosse. Cobre a boca com a mão, boceja, brinca de alisar a cabeça raspada. Deixa o cabelo crescer, paixão. De jeito nenhum. Cansei. Olho pelo janela do ônibus. Os carros nos ultrapassando em alto velocidade. Apostando pega? Você não existe mais. Me esquece, falou! Sim, senhor. Me esforço para esquecer a xícara de chá quente entornando em cima do cobertor. Ah, os cactos. Secaram. Amarro a boca do saco de lixo, com a impressão de ter jogado algo mais junto com os vasos. Aos poucos me desfaço DO QUE VOCÊ CHAMOU DE LAR. Cavouco com graveto a terra estorricada do canteiro da varanda do que era nosso quarto, quatro paredes azuis claras a sufocar nossas pretensões. Deveria deixar isso para profissionais. Talvez, se molhasse... Confiro a data de validade do saquinho de sementes. Corre-se o risco delas morrerem antes de germinar. Abro os sulcos, semeio as sementes, sem ânimo para cubri-las. Olho para elas e me pergunto: para quem?
1 de fev. de 2006
Depois do mergulho
Senhor Alberto, a moça que caser-se com esse menino vai ser muito feliz. Basta, dizer que quero me casar para chover pretendentes. Oxalá, em Barcelona, seja igual. Como diria o faixa marrom de jiu-jitsu: ff de qualidade. ?????. Foda fixa, mané. Pow! Um dos motivos que deixei de freqüentar sua casa. Pá! Aiêee. Que brincadeira mais sem graça. Boxer só aceita carinho, quando o dono está por perto. Caso contrário: nhac! E meus ossos espalhados pela garagem. Você é veado, mas é gente boa. Nunca consegui sentir mais do que afeto de amigos de colégio pelo Eduardo; por mais que massageasse seus ombros, coluna, lombar, coxa e panturrilha. Os pé, me recusava. O rosto, desejava. Ele é enrustido, mas é gente boa. Me dá pigarro, quando estou chupando a Giulia. Parace que engoli um pentelho. Você tem cabelos no céu da boca. Gargalhadas ressoaram pelo jardim. As ráfis tremeram assustadas. Um décimo do timbre grave, me faria milionário. Corajoso é você. Meus amigos têm uma imagem distorcida de mim. Inteligente, bonito, corajoso. Não sou nada disso. Por mais que eles tentem reanimar meu coração, fracasso todos os dias quando me deito. Sou vencido, todas as manhãs quando acordo. Ao ser perguntado, se havia tomado anabolizantes esteróides, Eduardo me detalhou todo processo, com orgulho de quem venceu um toreiro na arena. Não era sobre isso, que queria conversar. Lápis e papel esquecidos na mochila. Gravador envelhecendo no criado-mudo. Que escritor queria ser eu, se não portava lápis e papel. Nomes de remédios desconhecidos para serem lembrados. Pesquisa no Google. No Orkut. Sondo minha memória, imprecisão. Vou preparar um dose para você. Depois, é só levantar uns pesos. Vou te acompanhar de perto. Montar sua série. Você está muito magro. Olha só essas saboneteiras. Na micareta, vamos pegar todas. Meu olhar denotava desconfiança. Ele falava sério. E aquele rapaz que morreu? Não soube fazer o negócio. Tomaria, apenas com acompanhamento médico, -- disse-lhe, ao calçar o tênis. E o que eu sou?-- perguntou-me, fitando-me com raiva. Se der complicação, rasgo meu diploma. Vou fazer um ciclo para você... E antes que ele concluísse a fala, disse-lhe que meu problema não era aquele. As pessoas teriam que me aceitar exatamente do jeito que eu sou. Com tudo de ruim e de bom que eu trago. É, mas nem você mesmo se aceita. Ele estava aprendendo comigo a ser cruel. Para não sair nocauteado: A maior prova de resignação foi ter recusado enganar os olhos azuis da moça do Xsara branco. Ele riu, jogando a cabeça para trás. Como se fosse possível esconder um desejo que provoca cobiça nas mulheres. Sonhei com ela, madrugada de hoje, servindo-me leite condensado com os dedos. A Cínthia vai se remoer de ciúme. O Naz vai pedir para conhecê-la. E o Eduardo, achou que eu estava desconversando.
31 de jan. de 2006
No banco detrás
Não faça isso. Vá lá. Diga-lhes o quanto você os ama. Permita que a maria-fumaça serpenteie os labirintos do seu coração. Prefiro manter-me à parte. Eu poderia ser preso por desacato. Nunca mais jamais. Observo de longe quem entra, quem sai; os falsos, os sinceros. De manhã traço trilhas alternativas; à tarde provo dos picolés de chocolate ao leite ( às vezes de coco ao leite, também ); à noite, acaricio meu sexo, perdido em imagens de calças pretas, desbotadas. Rostos anônimos, caveirados. Sua despedida entrou ragando dessa vez. Não me encare desse jeito, querido. Bastou seu olhar de ódio para eu me arrepender da promessa. Ele é imaturo, devasso, mentiroso, hipócrita. como ele podia estar com medo da penunbra, se o que ele gostava mesmo era acalmar presídios? Medo tive eu do seu olhar de raiva. Precisava ir embora sem ao menos deixar um bilhete? Com o dinheiro da pernoite comprei um bracelete de presente para filha de uma amiga. Bem-vindo à maioridade, Natália. Juro que, se eu não estivesse me comprometido até o gargalo, convidaria ela para jantar. Olhares de soslaio me convertem.
30 de jan. de 2006
28 de jan. de 2006
Meu Amor vive de brisa
Flagrei o Minotauro vasculhando as gavetas da escrivaninha. Cínthia, vamos estudar mandarim. É a única solução que antevejo, salvo as paredes de correntes penduradas. E ainda me perguntam, se as marcas são de chicote. Chicotinho queimado, tesouro. Vuuuuuuu... Te mostrei a tatuagem? Na pélvis estava escrito: Bruno Fornazze. Nem quando os pêlos crescerem, será coberto o vislumbre do inferno. Eita, grutinha, quente da porra. Você não ia fazer no cofrinho? O Naz preferiu na frente. Melhor do que piercing. Ela aceitou contrariada. Ele se apropriara do corpo da Cinthia, mas a alma era de Deus; enquanto estiver eu por perto, alimentado sua mente com palavras. Ah! Marcinho você é tão inteligente. Já lhe disse, se eu fosse inteligente estaria em Salamanca, observando os patinhos correrem atrás da mamãe deles? Como é mesmo aquela palavra? Ensimesmado. O telefone interrompera nosso chá. Atendi. Sete palavrões para me convencer da estima que sentia por mim. Eu te amo, declarou-me o sumo pontífice. Papá. Papa. Papão. Atendia como eu bem lhe chamasse. Naz, ela está no banho. Ele pediu-nos que estivessemos no restaurante às nove horas . Passeio completo. Chegamos 10 minutos atrasados. O maitre nos recebeu sorrindo. Encontraram um fuzil que só ele sabia desmontar, levantou-se e saiu. Deixou a garrafa pela metade. Eram sempre as mesmas histórias. Se o celular tocasse, podia ser no meio da trepada, ele vestia a calça, arrancava as meias pretas de dentro do sapato, calçavá-los e saia abotoando a camisa azul. Sempre a mesma. Amante de rituais. Começa de baixo para cima para não se peder. Do dedão-do-pé à orelha. Do calcanhar à nuca. Nossos pés, segurados com as mãos, como se fosse possível fundi-los. Eu relutava. A Cinthia se submetia. De cabeça para baixo havia poucas rotas de fuga. E cade a sua? Você vai pagar?... Fala lá com o Montalvão. ...pelo centímetro quadrado da minha pele. Bota preço. Não estou à venda. Como não queria ser estripado, antes de ser arremeçado contra o espelho, disse-lhe que para ele seria de graça. Além de irritar, o que você quer? -- me perguntou, acariciando-me o pescoço. Devagar, murmurei. Dentro da Cínthia havia um néctar diferente. Cheirava à brócolis. Na posição que me encontrava, me convenci que ele tinha razão em controlar nosso quotidiano, mesmo que para isso espionasse nossa privacidade e pusesse estranhos para nos seguir, nos observar. Sim. Eu tenho um diário, no qual você é o antagonista da minha história. Sinta-se privilegiado. Só me lembro de quem amo, no momento em que estou escrevendo. Seu hálito me refresca. Já tomou cialis? Disseram que só de soprar a brisa... Quando estou saltando a 9.000 pés de altura (acreditava em tudo que ele dizia; a Cinthia, não.), penso na gente, no que iremos inventar na próxima vez que nos encontrarmos; ouço, mentalmente, seus gritos, os gemidos da Cínthia. Só há uma sensação melhor do que saltar de pau duro. Ele me beijou. Afastei-lo ao me levantar. Que aconteceu? Nada, Cínthia. Só não estou com paciência para ficar dando atenção a gente bêbada. Não sei como você agüenta o hálito dele. Perfume dos trópicos, me dissera uma vez. Aquilo foi no início.
27 de jan. de 2006
Episódios amalgamados
26 de jan. de 2006
O gosto que me arde na boca
Só podem estar de férias. Oh! Meu Amor, estive tão ocupado. Nunca mais ele atualizou o weblog. Isso também me incomoda. Escrever à noite me entorpece, mais do que me incomoda. Até parece que estou de volta à universidade, dormindo durante a viagem, passando da parada de ônibus, sendo acordado. Por quem? Poderia ter sido com aqueles cafés-da-manhã, servidos na cama, acordado com beijos. Meu hálito azedo. É desse azedo que gosto, minha vinagreira decantada, ele me respondia. Meu Amor, não ousa pronunciar meu nome. Entendo-lo. Eu faria pior. Ama-lo-ia e o descarta-lo-ia na manhã seguinte. Sem trocar números de telefones. Sem promessas. Sem esperanças. Aos poucos, vamos revelando os segredos sussurrados durante o jantar no apartamento do senador; ou ainda; aos poucos, vou lhes mostrando os detalhes da decoração da mansão do Almirante. Não sei se interessa. Me permita ser vulgar, leitora, essa frase me ressoa doloridamente: "Eu te amo, vagabunda. Você é só minha, puta. Te quero demais." Por que ele inverte o gênero? Até quando suportarei prededores de roupa presos a bainha da minha camiseta? Tenho péssimas lembranças: "Pensei que você havia desertado?" O corpo arqueado mal conseguia se equilibrar na lustrosa muleta de titânio. As rosas olhavam para o chão por vergonha de serem mais bonitas do que eu, a sobra do bagaço da laranja da terra. A fervura da calda do doce me trazia mãos a me acariciar a cintura. Sai para lá. Me solta. Não tinha mais esperanças de algum dia compartilhar das nuvens, cujas curvas ontem à noite me ensinaram a soltar pipas. Foi bom? Desconfio de quem me permite repuxar suas estrelas. Razoável.
11 de jan. de 2006
GLAUCO DAMMAS
10 de jan. de 2006
Teoria do Caos: bibliografia introdutória
"A essência dos Caos". Edward N. Lorenz.
9 de jan. de 2006
7 de jan. de 2006
Membro da Minustah confirma suicídio de general
Ilse Losa (1913-2006)
SESC-2006. Nós encontraremos lá.
6 de jan. de 2006
Ná Ozzetti - site oficial
O rascunho que não fui capaz de escrever, ontem à noite, por causa de uma preguiça ensurdecedora
(Os astrofíscos devem fazer idéia de quem vem lá.)
5 de jan. de 2006
Laurence Sterne (1713 - 1768)
Não tem.
Não tem.
Não tem?!
Tem. Oba!
Pena que estejam de recesso branco.
Fundação Biblioteca Nacional
4 de jan. de 2006
Abacaxi corta o apetite
Márcio, vai almoçar! Agora, não. Estou escrevendo. E foi assim o dia todo. Vá almoçar. Estou sem fome. E o almoço? Depois. Mousse de maracujá? Deixe-a aí. Tem anis. Ahn-hã. Como se escreve hecatombe? Hmmm... o significado da palavra vai distorcer a idéia do texto. Mordera o nó do dedo da mão esquerda. Vasculhava a memória a procura de outro substantivo. Perfume achocolatado. Veio imediatamente a imagem da fumaça lhe penetrando a pele. As cinzas brancas calmamente depositadas no cinzeiro. O olhar desaprovando a partida compulsória. Telefona, assim que chegar? Lógico! E o beijo? Adeus. Escrever não mais afugenta o arrependimento da saudade que me estrala no peito. Se o Bruno soubesse que não mais será servido almoço aqui na loja, faria galhofa do meu apetite. Estou mandando a barca te buscar, 11h30, pode ser? Seria sua fala. Não te falei que você estaria melhor ao meu lado? Fantasiar a existência de um amante lhe ajudava a superar a humilhação. O Marcinho não almoçou hoje. Pode parar! Você fala que não é para se preocupar com ele. Não te entendo! A vida me empurra para prostituição dissimulada. Ninguém mais me agüenta ouvir lamentar a sorte. A aliança, trouxe guardada no bolso da paletó.
Ouvindo Edu Lobo cantar "Berimbau":
Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza, camará
22 de dez. de 2005
A ausência em todos nós
Uma imagem nunca será capaz de transmitir o alívio que ela estava sentindo. E podem chamar Milcho Manchevski.
Largou os cartões de natal em cima da mesa. Esqueceu o estabilizador ligado. Saiu descabelada pela casa, tropeçando nos brinquedos do caçula espalhados pela cozinha, com a gaiola do canário na mão. (Presente do homem lhe fazia gozar todos os dias por telefone.) Foi ao vizinho que lhe devia favores, pedir que cuidasse do seu filhinho, até seu retorno. "Eu sabia que aquele velho branco, gordo, peludo e barbudo algum dia me seria útil."
Ela estava em êxtase, sob efeito da espera dos últimos onze meses. (Ele soube induzi-la). Um comprimido, um gole d'água; mais um, outro gole; o último e pegou uma banana na fruteira. Comer uma fruta, lhe traria a certeza de que os comprimidos chegariam ao estômago. Foi ao banheiro da empregada e jogou suas cartelas de esperança no vaso. "Adeus, balinhas. Feliz Natal para vocês também. Deu descarga. "Nunca mais nos veremos." Olhou-se espelho, ajeitou a franja. "Já pensou em ser morena?" Passou pela cozinha, sem se comover com as louças ensaboadas, que ainda lhe aguardavam. Arrumou tudo de qualquer maneira e se despediu do escorredor de pratos, mandando beijo. Feliz Natal, meu amor! Para você também, phalaenopsis, Feliz Natal! (Regou a orquídea por desencargo de consciência). Boas Festas, Geladeira! Felicidades, Seu Fogão! Olhe lá hein, Dona Pia, não exagere na gordura; se despeça do tanque por mim. Foi fazer as malas.
No Rádio Táxi, demoravam a atender. "Alô? Bom dia! Por favor, eu gostaria de falar com o Ramirez." Olhou para o guarda-roupa. Franziu as sobrancelhas. Levaria apenas o chinelinho preto. (Outro presente do amante que ela só conhecia por fotos, voz e webcam). Pegou estojo de maquiagem (motivo de tantas brigas) e o colocou debaixo do travesseiro da cama da irmã. "Não vou mais precisar disso." Desistiu de levar mala. "Nem valise." O charme seria desembarcar sem nenhuma bagagem, além da edição de luxo, em original, D' El Ingenioso Hidalgo de Don Quijote de la Mancha. (Presente de quem? A não ser do homem que conhecia seus sonhos, seus segredos, suas pretensões.) "Ele me apoia." É por você que estou lutando contra esses moinhos-de-ventos. -- dizia a dedicatória escrita atrás da fotografia. Cheirou a contra-capa como se fosse o pescoço dele. Respirou fundo. Acreditava que não bastava ser bonita, gostosa, sedutora e elegante. Tinha que ser culta, mesmo que não fosse inteligente. Abraçou-se com o livro.
Banho tomado. Cabelos presos. Saiu apressada em direção ao local combinado com o amigo taxista. Se trancara a casa, não se lembraria. Pensava apenas em embarcar, na confirmação do check-in. Enquanto aguardava, em pé, em frente a agência bancária, tirou da bolsa o caderninho de capa de couro de búfalo e escreveu: "22 de dezembro de 2005." Lembrou-se imediatamente da avó; do velório, dos crisântemos brancos, da vontade de se jogar na poça de lama, da rama de philodendron, que quase foi esquecida. "Dona Virgínia, não se orgulharia de mim." Escreveu alguns versos com letra miúda, trêmula, ágil Fechou o caderno, sem ainda guardá-lo na bolsa. "Vou fazê-lo vir me buscar." Tarde demais. O táxi freara a poucos centímetros dela: "Oi, Gostosa!" Ela teve certeza que deveria abandonar aquela vida. Entrou no táxi, pediu que a levasse ao aeroporto. Contou-lhe a novidade.
Ofegava, se confundia, trocava data e lugares. Ele apenas balançava a cabeça: "Você, é doida, gata!" Mostrou-lhe as passagens para provar-lhe o que estava dizendo. Ele estacionou no acostamento. Pisca-alerta ligado. "Vai ter coragem de deixar a gente?" Ela prometera escrever todos os dias, sem censura ou vergonha. Enviaria-lhe fotografias nas quais ela estaria mergulhando num mar de recifes azuis. Ele pigarreou. "Se você nunca deixou-se fotografar, porque faria agora?" Ela estava quase arrependida de tê-lo chamado, quando ele contornou o balão do aeroporto. Ao estacionarem no desembarque, ele ainda lhe perguntou: "Vai mesmo?" Ela não lhe respondeu, preferiu beijar-lhe. Um longo, melado, profundo, beijo de língua, enquanto acariciava-lhe o zíper da calça de brin bege. "Quando você volta?" Ela já estava longe. "Antes do dia quinze", gritou, "Feliz Natal!" Por ela, poderia ser nunca mais. Rebolando mais do que de costume, encaminhou-se a balcão de atendimento. A moça pediu que se apressasse. Todos já haviam embarcado. Nem ouviu a atendente desejar-lhe boas festas.
21 de dez. de 2005
20 de dez. de 2005
Serenidade, Distanciamento e Boas Festas!
Felizes sãos as lesminhas a comer os brotos das phalaenopsis. Marcinho, você viu o lesmicida? Não. Deve está debaixo do tanque. Elas não tem que se preocupar com compras, pisca-piscas, presentes, cartões de Natal, Ceia, convidados, recepção, contas a pagar, insolvência. Na noite do dia 24, após a Missa do Galo, na Santo Antônio, vou me misturar aos convivas, ao voltar para casa; provarei da salada de alface americana, broto de alfafa, capuchinha e tomate-cereja (tudo sem vinagre, sal ou azeite para não tirar da boca o gosto distante da hóstia consagrada); mortificar a carne, ouvindo histórias de excessos, olhares de intimidação. (A polícia sabe torturar mesmo quando em traje de gala.) Talvez seja uma noite agradável na qual se fará amor no quarto do filho do meio dos anfitriões.
Ele estava ansioso, compreensível. Eu continuava a sustentar a mentira. Mais da metade dos muitos presentes debaixo da árvore destinava-se a ele. Num ato de generosidade, abriu o guarda-roupa e me disse: Pode escolher o que você quiser, -- para alguns segundos depois, concluir: se você não for cuspir. Contive minha vontade de empurrá-lo contra o guarda-roupa, não por ele ser mais forte do que eu, mas por ter testemunhado o quanto ele poderia ser covarde.
Com o peito arfando, colei-me ao seu corpo (tentativa desesperada de mostrar-lhe que era amor), ignorando o receio de mais uma vez ser afastado. Nenhuma palavra, nenhum gesto. Apenas o fluxo da corrente sangüínea a denunciar seu desejo. Minha boca embebida do ar da sua respiração, aguardava seu consentimento. Minha imagem invertida na sua pupila, me dizia: não se atreva. Faça o que lhe pedi. Não inventa moda. Se ao menos ele desviasse o olhar, poderíamos voltar ao jogo, terminar a partida, destrancar a porta. Mas preferia fitar-me tal qual um cão de rua em posição de briga. Ele queria que eu avançasse, para ter o prazer de se afastar. Eu queria não ter acompanhado meu pai, na véspera de Natal. Situação semelhante em que me encontro agora. Talvez seja essa a causa da minha má vontade em relação a tudo e a todos. Não posso fazer disso um drama.
Atualizado (18:40): Enquanto me dirigia à biblioteca, agora à tarde, estalou-me uma idéia: onde eu tenho buscado segurança e refúgio? Ora, na Literatura consagrada. Portanto, guri, não fuja de teste.
Oficina Poética no Portal Literal ou O Dom de Fluir
19 de dez. de 2005
From: Márcio
Date: 19/12/2005 13:17
Subject: Nothing compares to you. Lembra-se? (versão revista)
To: Beatriz Vilazanti
Sugar,
Oi! Sou eu. Escrever-lhe, hoje, tornou-se minha prioridade. Custei a tomar coragem. Os meses nos atropelam e depois ficamos com vergonha dos amigos por se manter tanto tempo afastado daqueles cujas lembranças sempre nos alegra.
Dias desses... minto, em julho, estava lendo "Cem Anos de Solidão" quando me lembrei de você me falando do trecho das formigas carregando um Buendía. Caramba! Onde elas estão? Lia, lia, lia e nada das tais formigas aparecerem. Será que era um detalhe irrevelevante?
Vi borboletas, bananeiras, toceiras de begônias, participei de expedições, de guerras, chorei, ri, praguejei, a ponto de me esquecer delas, jamais de você. Preciso escrever para Vila, preciso escrever para Vila. Para contar-lhe que me mudara para Macondo (como se me fosse possível).
Surpreendentemente, elas surgiram, minúsculas, avermelhadas, uma porção delas, saindo por várias frestas, subindo por todos os cantos, frustando os amantes, carregando o nenen. Demorei acreditar. O Gabo construíra um castelo de cartas (como baralho me fascina) e puxara aquela que servira de alicerce para as outras.
Desmoronei junto. E nada me aliviava do choque de realidade que a ficção me causara.
Refeito, voltei ao cotidiano. Peitar a Dona Relidade, pode ser divertido, descobri. Mas sem ficção estava desconfortável. Busquei, então, acalento com quem poderia me ajudar: primeiro Dostoievski, depois Clarice, em seguida, Lobo Antunes, Joyce, Oscar Wilde, Homero, Fernando Pessoa, Dante Aliglieri, Samuel Rawet, (quem mais me serviu de escora este ano?) Tolstói, Sófocles, Lorca, alguns teóricos enfadonhos e outros romancistas desgastados pela publicidade que dispensam citação.
Nem sei como consegui, entre faxes, e-mails, telefones e clientes, (Sim. Continuo aqui na loja.) acompanhar histórias tão distintas. Às vezes, me sentia tal qual uma abelha perdida no Jardim do Éden, noutras, um solista desafinando no ensaio aberto do coro sinfônico, ou ainda, um submarino emergindo no espaço marítimo de outras nações sem permissão. Entretanto, percebi que tal busca me ajudava a ser persuasivo com clientes, quaisquer que fossem. Corre até o boato que me tornei empresário do ramo de flores. Mentira. Nego e renego peremptoriamente. (Nós, brasilienses, principalmente os candangos, adoramos promover intrigas.)Posso ter fechado vultosos contratos. Recebido muitas cantatas. Recusado presentes e favores. Nem assim. Flores são negócios da família, nunca foi o meu. Você bem sabe.
É óbvio que o hábito de fazer a loja de sala de leitura tem me gerado conflitos, causado aborrecimentos. Contudo, minha vontade tem prevalecido, visto ver sincera. Não se preocupe. Estou bem. Comércio pode ser um bom lugar para colecionar tipos: ora bizarros, alguns hilários, outros taciturnos, ou ainda, dissimulados (meus preferidos).
É para um tipo assim, que prepararei o arranjo que estou lhe enviando. Gostaria que fosse como antes, flores para alegrar ainda mais sua noite de natal. Paciência. Vou imaginar que seja, escrevendo um conto inspirado na sua emoção ao receber flores de um amigo que há muito tempo não recebia notícias. Conseguir, não sei se vou. Caso consiga, receberá em breve, carta minha.
Está escutando ? ... Jingles all the way... Preciso ir. Não posso mais.
Beijos de boas festas!
Marcinho
P.S.: Enquanto lhe escrevia este, enviei-lhe, acidentalmente, uma cópia incompleta, sem revisão, em parágrafo único. Desconsidere, por favor. Isso que nos acontece quando teimamos em escrever no local de trabalho. Beijos!


































