15 de mar. de 2006

Enquanto limpava a santa, Cínthia comentava com a cozinheira a visita do comandante. Tive medo dele me agarrar. Não era isso que todas gostaríamos? Era apenas um desejo que lhe vendava os olhos impedindo que da cabine de comando levantassem vôo. O caça supersônico agachando-se para pegar uma flor arrancada pelo vento. O Comandante oferecia à Cínthia mais que uma singela pata-de-vaca branca, oferecia a cura para o vício das laranjas sem sementes. As feridas não se cicatrizam. Ela tremia na impossibilidade de pronunciar correntamente seu nome. Um convite para jantar. O belo casal dançaria por horas, dias, semanas. Era desejo. Nada mais do que isso. O freio que cegava Cínthia.

14 de mar. de 2006

Vinícius em Cy

Poeta, poetinha, camarada. Quão longe você foi, que ainda não voltou. (Nem voltará.) Aprendi com as Penélopes a esperar. Na era da telemática as notícias são raios de sol a nos queimar a vista. Não pode ter sido um ferimento profundo.

11 de mar. de 2006

A ossada de US$ 150 mil

Se confirmado o fato, a família do engenheiro João José Vasconcellos, seqüestrado no Iraque, estará amparada. Moeda de espécie alguma por mais valiosa que seja ameniza a dor da perda de um ente querido. Mas sem seguro fica infinitivamente mais difícil. Ou não? Pode-se ocorrer uma tragédia ao se discutir a partilha de bens. Pode-se surgir amigos interesseiros mais que traidores a nos sorver a fortuna. Não sei bem o que aconteceu, me dissera a paulistinha fantasiada de samambaia.

42, originally uploaded by Zac Chen.

"Só havia os dois na montanha pairando no ar eufórico e amargo, olhando de cima o dorso da águia e os faróis rastejantes dos veículos na planície, suspensos acima dos assuntos corriqueiros e longe dos mansos cachorros de fazenda que latiam quando escurecia. Eles se achavam invisíveis."
Idem


Goodbye, My Lover, originally uploaded by ngeva_01.

"A camisa parecia pesada até que Ennis viu que havia uma outra por dentro. As mangas estavam cuidadosamente colocadas por dentro das mangas da camisa de Jack. Era uma camisa perdida sua, ele pensou, há muito tempo atrás em alguma lavanderia. Sua camisa suja, o bolso rasgado, com botões faltando, roubada por Jack e escondida aqui dentro da camisa dele. As duas camisas eram um par como duas peles, uma dentro da outra, uma coisa só. Ennis apertou o rosto contra o tecido e respirou vagarosamente pela boca e pelo nariz, esperando que houvesse um resto de fumaça, de sálvia da montanha e do doce e salgado mau cheiro de Jack mas não havia nada, só a memória, o poder imaginário de Brockeback Mountain de que nada tinha restado a não ser o que estava nas suas mãos."
Annie Proulx (Trad: Adalgisa Campos da Silva,2006)

Ministério Público pede quebra de sigilo de usuários do Orkut

Olha a tempestade que estava vindo. A enxurrada vai revolver todo o lixo escondido debaixo da cama. A população apavorada de tão desamparada corre em direção à ponte. Atravessá-la. Saltar? Monitoro as imagens, na ilha de edição. Sinto prazer ao vê-las. Contribui conforme me cabia. Felicidade navegando no triste mar de agosto.

10 de mar. de 2006

Rompendo Fronteiras e Discutindo a Diversidade Sexual na Escola

Eram astronautas meus professores?

pantalla de movil, originally uploaded by miook.

Estou ligando desde ontem. Miojo com iogurte não foi uma boa escolha.

9 de mar. de 2006

Blair garante a Lula investigação no caso Jean Charles de Menezes

O que o falará os nossos detratores?

Quando a discriminação vira notícia

Desculpem-me minhas leitoras, o Dia Internacional da Mulher transformou-se numa data de consumo desenfreado.

7 de mar. de 2006

Presidente Lula em Londres

O que os assessores militares do presidente Néstor Kirchner devem achar disso? Não que me importe. Mas adoraria ter perguntado ao senhor que desvia o olhar quando me aproximo.

6 de mar. de 2006

Bolo de vento aos perdedores


Impresionismo 2 - La vuelta, originally uploaded by aagg.

Ao pôr os pés no chão: "até estancar o sangue." Enquanto estava arrumando a cama, reelaborei a frase: "deixa o sangue estancar, resmunguei." Seria uma frase interessante para inciar o post de hoje (20/02). Passaria a impressão de que havíamos ido além do simples desentendimento dos casais complicados. Não me entrego facilmente a quem se oferece sem pudor. Isolou-se debaixo das almofadas, até o dedo voltar a estralar. "Olha, o morto." -- disse a mal-amada. Oi, Helena! -- respondi, sem que elas esperassem, à amiga, que também deve ser uma mal-amada, porque mal casada, sei que é. Batom vermelho num aniversário de criança é sinal que está a procura de homem. Casal se esfregando ao dançar. Péssimo gosto. Todos aplaudiam. Exbicionismo tem hora e lugar. Você não vai ser servir? Não, obrigado. Quando estou contrariado nem apetite sinto, quanto mais vontade de fazer o social. Necessidade de voltar para debaixo da cama onde escondo aquela saudade moída. Estou apaixonado e todos desconfiam. Os telefonemas, os e-mails imprimidos, as idas ao orelhão, as fotografias digitais reveladas em papel couchê. (Para que ele guarde no fundo falso da gaveta da estante, o que se banalizou.) Passo uma mensagem pelo celular. Encontro marcado. É improvável que algum dia venha beijar-lhe a boca durante a cerimônia de formatura. Seria expulso imediatamente da coorporação e minha amiga me pergunta: Você tem fetiche? Muitos de nós temos. A sensação de segurança, de proteção. Disse-lhe que qualquer lugar seria muito perigoso ao lado dele. A hemorragia nasal nos atrapalhou qualquer intenção. E era o domingo de sol forte que eu havia pedido a Deus.

4 de mar. de 2006

A vasculhar históricos (II)


Peruvian Lily, originally uploaded by mjross.

-- Marcito, são bonitas as alstroemérias?
-- Bonitas? Elas são lindas. Pena as pétalas serem tão frágeis. Elas são apropriadas para compor buquês compactos, daqueles usados quando vamos recepcionar alguém no aeroporto. As de cores quentes resistem por mais tempo.
-- hmmm...
-- Por quê?
-- Estou pensando.
-- Na roda?
-- Não. Apenas pensando.

A vasculhar históricos (I)


Webcam, originally uploaded by Michael Battista.

-- E aí, grande Marcinho, fmz?

-- Tranqüilo, Tobalo, e contigo?

-- Então, está é sua cara...rs.
(Ele se referia a minha fotografia no visor do MSN.)

-- Estou morrendo de vergonha de ti.

-- Sou eu mesmo. Flagrado ao acordar, rs

-- Ainda não lhe enviei os e-mails.

-- É até que você é um cara simpático...rs

-- Gentileza tua.

-- E os projetos? Conversou com o pessoal da COGER?

-- De perto até que engano. De terno então, nem se diga. Fui recebido como chefe-de-estado.

-- E eu sou feio de qualquer jeito..rs.

-- Que nada. Muitas vezes temos um certo charme que desconhecemos.

-- É, a mulherada sempre me diz isso...rs.

-- (...)

Deixemos por alguns segundos a ficção na gaveta e vamos tecer uma pretensiosa crítica literária. Esse poema (clica aqui e depois volta) da Miss Eckardt (Oi, Dorinha!), colaboradora no Ponto Cego, reafirma a idéia que tenho da mulheres gaúchas. Elas exigem com elegância, sem subterfúgios ou pudores, que o homem cumpra seu papel; principalmente, quando, por motivo qualquer, ele se recusa. As gurias sabem o que quer e estão acostumadas ao mando. A quem possa interessar, sou extremamente desobediente e não há pimenta suficiente no mundo que me corrija. Pelos simples prazer de ser do contra. Ficou fácil, me conquistar, não?

Há uma música do povo

Cortesia de um colega blogueiro, residente do Porto. O poema do Fernando Pessoa na voz da Teresa Salgueiro. Quase não consigo mais deixar o site do Madredeus.

3 de mar. de 2006

A vinte reais o vaso


Proibido Estacionar, originally uploaded by Roner Marcelo.

A voz da Elis vindo de algum lugar da web. "Me deixas louca." Na lavanderia, meia hora atrás, fraquejei ao preencher o comprovante do cartão de débito. Esse não precisa assinar, senhor. Basta a senha -- me dissera a mocinha de piercing no supercílio. Porque ao conferir a data, a tempestade se fez dentre de mim. Está chovendo forte, não? Diz isso, senhorita, porque não olhou aqui dentro de mim. Peguei os ternos. Agradeci o gentil atendimento e resolvi enfrentar as linhas transversais que nos bloqueava a olhar. Paisagem dos sonhos, se plantasse milho. Gotas. Granizos. Enxurrada, lama. Queria entrar em casa antes que o Fornazze chegasse e descobrisse que eu havia lhe mentido. Sim. Ele chegou há dez dia e eu continuo me encontrando com o formando da turma do Oitavo. Você buscou meus ternos? Busquei, sim. Algo mais? Zombo da morte, que a raiva esconde.

Depois do almoço, vamos levar crisântemos brancos perfumados à lápide daquela senhora com quem sonho quando me deito cedo. Enquanto a lasanha termina de assar, ele tomará seu banho, sentará à mesa, vestindo apenas cueca. Branca, boxer. Vai me pedir que lhe sirva vinho. Tinto. Miolo. Ele me observará soprando o alpiste do Miro. Tecerá ditos monocórdicos sobre o buquê do vinho, sobre as uvas, sobre meus pés. Me pedirá um favor, e eu concentrado nas marcas que o cutelo faz na tábua-de-carne, me recusarei. O tomilho picado exala pela cozinha a senha. Me abraça pela cintura. Me convence a desligar o fogo do feijão com um beijo na nuca. E me explica minusiosamente os planos para essa tarde. Preciso ir ao cemitério antes, querido. Mesmo que seja só.

2 de mar. de 2006

Que sejam belos, mesmo forjados


O beijo, originally uploaded by Juliana Leitão.

Acabo de ver num grande portal da web fotografias do carnaval de Salvador. Foliões se beijando. Nenhuma ponta inveja, tampouco de excitação. Deve ser muito gostoso: axé, suor, saliva. E é mesmo. Contudo, falta um ingrediente aos modelos de abadá, aos fotojornalistas, que torne as fotos relevantes. Espontaneidade, a foto, tal qual beijo; melhor roubado. Não há porque forçar, quando ambos querem. (Ele queria no seu íntimo) Há de se entregar à gostosa surpresa do inevitável, principalmente quando não podemos nomear os desejos escamoteados para debaixo da mesa centro da sala-de-estar.


Doves, originally uploaded by GeoffNascar.

O frio da sua indiferença me aquece.

Nos han dado la tierra

Ah, a saudade. Mocinha sardenta que não conseguia pronunciar o nome do meu pai.