“Finalmente escolheu um dos cãezinhos, uma fêmea. [grifo meu] [...]”
— Será possível que o fato de chamar-se Karenin não vai afetar sua sexualidade?
-- É possível – disse Tomas -- que uma cadela que é sempre chamada pelos donos por um nome de cão acabe com tendências lésbicas”.
Id., 1985, p. 30.
A primeira vez que Karenin viu Mefisto, ficou desconcertada [grifo meu] e passou muito tempo ando em volta dele e o cheirando. Mas tornou-se amiga do porco, que preferia aos cachorros do lugar, sempre presos em suas casinholas, latindo sem razão o tempo todo. Karenin apreciava a originalidade do porco e prezava muito a amizade dele.
Id., 1985, p. 285.
“Uma antiga idéia retornava [à Tereza] : seu lar não era Tomas, mas Karenin. Quem marcaria as horas de seus dias quando o cão não estivesse mais lá? [grifo meu]”
Id., 1985, p. 295.































Poderia ter compartilhado com ele a crônica das notas fiscais rasuradas. Foram seis. Oito. Mas preferi poupá-lo de um cotidiano bobo, tolo, besta que vinha me sujeitando a troco de quê? Correntes de ouro em suspensão. Sonhos transcritos às 3h e meia da manhã. Estou com dor de cabeça. Fui almoçar às cinco horas da tarde. E mesmo ocupado me passou várias mensagens por celular, a tarde toda. Provavelmente, tédio e a forma encontrada para aliviá-lo, seria imaginar que alguém o aguardava. Alguém que mal conseguia segurar a caneta esferográfica de tão calejadas estavam as pontas dos dedos. Você recebeu minha mensagem? Tanto que estou aqui, respondi-lhe; desta vez fitando-lhe os olhos. Mantive-me preso ao olhar que me transmitia insatisfação. Que não se repita. Quando for se atrasar, me avisa.
Por causa de cinco minutos trovoadas ecoavam dentro do teatro, não mais lá fora. Baixei a cabeça à procura de desculpas convincentes, mas tudo que eu lhe oferecia de volta era o olhar marejado, denunciado por uma voz sufocada. Um choro que há muitos dias fugia de mim. Privacidade, por dois minutos. Tive um expediente atribulado; comecei a esbouçar uma explicação. A maioria das pessoas que está aqui também teve. Basta observar. Só me interessa observar você, falei. Preciso tomar uma cerveja. Mais? Guardei para mim a palavra que poderia desencadear ofensas mal direcionadas. Você realmente quer assistir a peça? Não; me respondeu, balaçando a cabeça. Então vamos para um lugar mais calmo. Era como se eu falasse sozinho. Acompanhei-o até o bar sem distinguir rostos supostamente conhecidos. Ele pediu a cerveja ao garçon, enquanto tirava a carteira do bolso. Procurava, entre notas de cem e cinqüenta, dinheiro trocado. Não encontrou. Buscou nos bolsos. Foi jogando sobre o balcão tudo que ali se encontrava: maço de cigarros, isqueiro, centavos de moeda americana, as chaves de casa, a do carro. Do outro bolso tirou um pen drive, o celular que quase foi ao chão. Curiosos assistiam a ridícula cena, imobilizados de... medo? Com certeza, assustados. A glock e a funcional juntaram-se aos outros objetos como se fosse a cereja do bolo. Entreguei meu cartão ao garçon, atônito, e pedi que passasse no débito, rezando para que a venda fosse processada antes que o fulaninho terminasse de socar seus pertences nos bolsos. Ufa! Obrigado, Senhor. Vamos? Ele realmente detestava esperar.
Dentro do carro, perguntei: O que aconteceu? Não gosto de ser usado. Por certo você deve ter se deleitado me fazendo esperar diante seus amigos. O quê?! Que amigos? De quais premissas você partiu para chegar a essa FALSA conclusão. A 120 km/h preferia que ele se concentrasse no trânsito, no semáforo, nos quebra-molas ao invés de vilipendiar meus colegas. Magoado, fiquei calado e não pedi que me levasse em casa. Deixei a cargo de sua consciência. No retorno do balão do aeroporto clareou-se suas intenções. As minhas, desde de manhã. Ao entrarmos no apartamento, fui direto para o quarto. A roupa cuidosamente sob o recamier, dobrei. O lençol cheirando à estoraque arranhava minha pele do dorso das minhas costas. A sensação de fervura no peito cedeu ao sono. Fui acordando com o peso de um corpo bêbado me puxando pelos quadris. Fingi que estava dormindo. De mim ele não ouviu nenhum murmúrio.