5 de ago. de 2006

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27 de jul. de 2006

Minha primeira crônica esportiva

A perna encolhida prestando atenção na pontada, ora incomoda, enquanto os ouvidos percorriam milimetro por milimetro do campo adversário. Patrícia pensava nas oportunidades descartáveis de anteontem. Afastou o Dr. Nefasto (se um dia ele me ligar novamente, serei cortês) e se concentrou no tricolor que se divertia com o fato de ser mais pungente do que todo o time da gávea. Sua emoção se dissolvia num orgulho mal curado e gritar ao som dos coachos secos, comprovaria que havia feito a melhor escolha. A poça de suor no lençol a desconcentrou e decidiu-se por assistir depois os melhores momentos. Era seu momento. O melhor, desde então.

26 de jul. de 2006

Meteoritos incandescentes visita-nos com freqüência. Choro. A dócil menina tentar ser malvada. Patrícia, Patrícia, deixa de tolice. Bancos de couros não falam francês. Vai lá. Aceita. Aceita-se. Pode ser que dilarece a moral hipócrita dos jesuítas. Mas ao morrernos, estaremos vivos. Quem sabe, celebrar, ao som da sinfonia das alfaces alquebradas, o ouro branco fundido que escorre na bacia esmaltada. Coloque o tango, dance conosco. Esqueça o travesseiro de ontem. Os ácaros discretos jamais divulgariam a lanternagem padrão. Muito além do combinado, Princesinha de gelatinha. E o razoável deveria compor este teu vocabulário salubre. Ela coça as mãos. Delicaleza ensurdecedora. A mesma voz que seduziu o investigador, irrita os acionistas. Minoria articulada. Você não fez nada de errado, gritava-lhe a consciência. Então porque ele não me telefonou até agora? Brincando de espanar fósseis marinhos, descobriu o óbvio. Batatas.

25 de jul. de 2006

Manteve-se afastada por receio de vomitar no objeto de devoção. Era o sol de julho cumprindo seu ritual. Aquela luz alaranjada que lhe ofusca a retina. Forma, pureza e conteúdo. A profissional iniciante tomada pelo vício solicitava por retornos mais rápidos e intensos. Todas minhas lembranças me levam ao clube. O que fazia, eu, lá, sendo que destruo esperanças, quando deveria alimentá-las. A dor caminha sobre minha falsa pele poluída com a promesa de que à noite serei uma criança comportada e obediente. Permita que o engenheiro derrube o alicerce que restou de nós. Puxe a cadeira, sente-se à mesa. Conte-nos minuciosamente o fato. Como se fosse possível, carinho meu. Cinqüentas moedas de ouro e o vôo para Zurique cancelado. Os transeuntes riam. Gargalhadas esteriofónicas a ameaçar segredos translúcidos. Colméia deflagrada. Enxame em nossa direção. E ela parada. Patrícia? Nenhuma reação. As falésias lhe absorviam. Murmurou outra promesa. Impossível.

15 de jul. de 2006


Praha 18_02 027, originally uploaded by la page d'AL.



“O embaixador disse: -- É da polícia.
-- Se é da polícia, deveria ser mais discreto – observou Tereza. -- Para que serve um polícia secreta que não se esconde?
O embaixador, sentado na cama, juntara os pés sob o assento como aprendera no curso de ioga. Emoldurado na parede, Kennedy sorria e concedia a suas palavras uma espécie de consagração.
-- D. Tereza – disse com tom paternal --, os policiais têm diversas funções. A primeira é clássica. Escutam o que as pessoas falam e informam aos seus superiores. [grifo meu]
‘A segunda é uma função de intimidação. Mostram que nos têm à sua mercê e querem nos intimidar. Era o que seu careca pretendia.
‘A terceira função consiste em encenar situações que possam nos comprometer. [...] encontrar haxixe em nossos bolsos ou provar que violentamos uma menina de doze anos. Sempre acharão uma garota para servir como testemunha.’ "
Id., 1985, p. 165.

14 de jul. de 2006


Run doggie, run! , originally uploaded by Mutantcat


“Finalmente escolheu um dos cãezinhos, uma fêmea. [grifo meu] [...]”
— Será possível que o fato de chamar-se Karenin não vai afetar sua sexualidade?
-- É possível – disse Tomas -- que uma cadela que é sempre chamada pelos donos por um nome de cão acabe com tendências lésbicas”.
Id., 1985, p. 30.


A primeira vez que Karenin viu Mefisto, ficou desconcertada [grifo meu] e passou muito tempo ando em volta dele e o cheirando. Mas tornou-se amiga do porco, que preferia aos cachorros do lugar, sempre presos em suas casinholas, latindo sem razão o tempo todo. Karenin apreciava a originalidade do porco e prezava muito a amizade dele.
Id., 1985, p. 285.


“Uma antiga idéia retornava [à Tereza] : seu lar não era Tomas, mas Karenin. Quem marcaria as horas de seus dias quando o cão não estivesse mais lá? [grifo meu]”
Id., 1985, p. 295.

13 de jul. de 2006


Karlovy club, originally uploaded by kisluvkis.
A MÚSICA
“ Para Franz, é a arte que mais se aproxima da beleza dionisíaca concebida como êxtase. [...]
Para ele, a música é libertadora: ela o liberta da solidão e da clausura da poeira das bibliotecas e abre-lhe no corpo as portas por onde a alma pode sair para confraternizar-se.[...]
Sabina diz: -- É um círculo vicioso. As pessoas tornam-se surdas porque colocam a música cada vez mais alto. Mas, como se tornam surdas, não lhes resta mais nada senão aumentar o volume. [...]
[...] Em seguida, no limiar do sono, as idéias começaram a se embaralhar na cabeça de Franz. Lembrou-se da música barulhenta do restaurante e pensou: ‘O barulho tem uma vantagem. No meio dele não se ouvem as palavras.’ ”
Id., 1985, p. 98.

12 de jul. de 2006


Prague, originally uploaded by Lylla Lausanne.

“[...] Para Tereza, o livro era sinal de reconhecimento de uma fraternidade secreta. Contra o mundo de grosseria que a cercava, não tinha efetivamente senão uma arma: os livros que pedia emprestados na biblioteca municipal [grifo meu]; sobretudo romances: lia-os em quantidade, de Fielding a Thomas Mann. Eles não só lhe ofereciam a possibilidade de uma evação imaginária, arrancando-a de uma vida que não lhe trazia nenhuma satisfação, mas tinham também para ela um significado como objetos: gostava de passear na rua com um livro debaixo do braço. Eram para ela aquilo que uma elegante bengala era para um dândi no século passado. Eles a distinguiam dos outros.
(A comparação entre o livro e a bengala elegante do dândi não é inteiramente exata. A bengala era o toque que distinguia o dândi, mas o transformava num personagem moderno e na moda. O livro distinguia Tereza das outras moças, mas a transformava numa pessoa fora de moda. É claro que ela era ainda muito jovem para poder captar o que havia de ultrapassado na sua pessoa. Achava idiotas os adolescentes que passavam por ela com seus rádios barulhentos. Não percebiam que eram modernos.)”

Id., 1985, pp. 53-54.

“Uma jovem que em vez de ‘se educar’ tem de servir cerveja a bêbados e passar o domingo lavando a roupa suja de seus irmãos e irmãs, tem dentro de si uma imensa reserva de vitalidade, inconcebível para pessoas que freqüentam a universidade e bocejam diante dos livros. Tereza lera mais do que elas, sabia mais do que elas sobre a vida, mas não se dava conta disso. O que diferencia aquele que estudou do autodidata não é a extensão dos conhecimentos, mas os diferentes graus de vitalidade e confiança em si. [grifo meu]”
Id., 1985, p. 61.

11 de jul. de 2006


waiting at metro, originally uploaded by alba.
"Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz que a vida sempre pareça um esboço. No entanto, mesmo "esboço" não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo do esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.Tomas repete para si mesmo o provérbio alemão: einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Não poder viver senão uma vida é como não viver nunca. (grifo nosso)

In: KUNDERA, Milan. A Insustentável Leveza do Ser. Nova Fronteira. 1985. 14p.

10 de jul. de 2006



“Ele dizia para si mesmo que o problema fundamental não era: sabiam ou não sabiam? Mas: seriam inocentes apenas porque não sabiam? Um imbecil sentado no trono estaria isento de toda responsabilidade somente pelo fato de ser um imbecil?
[...]
Nesse ponto Tomas se lembrou da história de Édipo. Édipo não sabia que dormia com a própria mãe, e, no entanto, quanto compreendeu o que tinha acontecido, nem por isso se sentiu inocente. Não pôde suportar a visão da infelicidade provocada por sua ignorância, furou os olhos e, cego para sempre, partiu para Tebas.”

Id., 1985, p. 178-179.

9 de jul. de 2006

Pirlo e Cannavaro

Ah! Quando eu terminar de processar os pedidos, responder as mensagens. Escrever aquela crônica, prometida desde janeiro.

Pirlo e Cannavaro

A imagem mais linda da Copa do Mundo, segundo meus colegas papiros. Desde semana passada, a ironia lhes permeia as frases. Como se houvesse sido culpa minha.

Ironicamente zagueiro

originally uploaded by FoGGy123.

7 de jul. de 2006

Cãimbra? Novidade.
Não queria ter vindo.
C'est finit?
Calma, gata. Tô quaaaaaase...
C'est finit?
Peraí, porra!
Abaixar a campainha do telefone;
Ignorar as folhas de fac-simile;
Desativar o alerta do outlook,
do MSN,
do Google Talk,
esquecer por cinco minutos o abalo sísmico, no interior do sertão paraibano.
O orgasmo continua sendo meu ansiolítico preferido, mesmo sem ejaculação.
"(...) Algumas sementes se desprenderam da mureta e nem assim me convenci da irresponsabilidade que se interpões entre os dois quadrantes adjacentes do Imperador. Precisamos ligar para o engenheiro, pisar nos bancos-de-couro, relaxar os músculos enquanto ele se esforça para extrair petróleo. Tem tatuagem? Não. Deixa-me ver seu peitoral. Continua. As confissões, lamurias, lamentos e reclamações podem ser peça chique no salão de jogos, se soubêssemos jogar totó. Você sabe? Eu não sei. E os erros acumulam-se sobre a maca da enfermaria. Luzes azuis, verdes e amarelas. A nutricionista me acorda do sonho. Vamos? Me entrega seu braço, como estivesse me entregando seu coração. Ofereço-me para carregar sua bolsa de anéis de latinha de alumínio. Pesada. Peço os livro. Pesados. Ela me puxa a orelha com carinho: quem mandou não seguir o regime? Aperta meu bíceps esquerdo para se certificar das desatenções levianas que eu mesmo vinha comento com o meu corpo. Martírio. Quer ser santo é? (...)"