27 de ago. de 2006

À 120 km/por hora, ele gritou eu te amo

Fiquei esperando pela faca que iria cortar meu bife. Maminha, às três da manhã. Estaria pronto o suficiente para as apulhaladas de Jó, as pauladas na face? Graças ao vinho espesso, escuro e forte, sim. E a cópula que de descartável, só tinhas os códons, não me lembro mais pormenores. Saquinhos borrachudos que me lembravam pele de cobra. Jogados ao pé da parede, perdi a conta no oitavo. Eram muito mais. O álcool me impedia de recusar toda a parafernália de objetos extranhos que me invadiam até os oríficios mais sensíveis. O tímpano reclamando do ritmo descompassado da respiração. Do outro. Porque eu me fingia de morto, ou melhor morta (conforme, mandava meu parceiro). Nessa ópera, eu era Carmen, pura lascívia do amor imaculado que se extraia do buquê de perfumado de rosas brancas. Eu queria morrer por me sujeitar a uma paixão tão descomunal.

24 de ago. de 2006

Distante o suficiente para não cair


Arc, originally uploaded by konaboy.

Lexotan, chá de tranca servido de madrugada. Minha orientação a deriva sem me dizer quem eu sou. (Como se isso fosse importante.) A moda a desfilar a identidade vencida. Kefir, licença prêmio, afônico. "Evite se medicar, pois assim se mascara o real problema." O real problema é que eu choro quando tendo escolher: Tóquio ou Beijing, Beiture ou Tel Aviv. Sou franco fraco facho. Os poros, esporos de testogerona em excesso, espelem mentiras. Esqueci como eram os esparmos. Músculos estriados atrofiados. A lexotan escorrendo o néctar, ouro derretido que me alimenta ontem à tarde, de manhã e à noite. O macho que fui anteontem resvala na fêmea que se monta diante do espelho. A glock esquecida no fundo da gaveta falsa. As navalhas de barbeiro. A seda vermelha, Tóquio. O sargento me aguardando com o descomunal desconhecido carne de muqueca. Você está a procura de quê? Muleque. Não vai sair, talvez entre, mas você estará tão dopado (ainda bem!) que o sangue incendiará tua retina. Era uma história. Presente de aniversário. "Quantos anos, querido." Você sabe, Madrinha, melhor que eu que nunca teremos como saber. Eu sou cara nervoso e nem quando o adjunto me beija a nuca me acalmo. Pede a saidera por favor, disse-lhe. Quero comemorar meu aniversário, agarrado à uma árvore, feito jabuticaba. Há kefirado suficiente para me cicatrizar as vísceras.

Enxerto de eu

Lembro-lhes que Clarice Lispector, segundo reza a lenda, tinha apenas 17 anos quando escreveu "Perto do Coração Selvagem".

22 de ago. de 2006

Blogger.com refomulado

Não o troco por nenhum outro. Cliente satisfeito. Cliente cativo.

17 de ago. de 2006

Introducing The Hardline According to...

Terence Trent D'Arby

Wishing Well (A Tone Poem)
Kissing like a bandit

Stealing time
Underneath a sycamore tree
Cupid by the hour sends Valentines
To my sweet lover and me
SlowlyBut surely
Your appetite is more than
I knewSweetly
SoftlyI'm falling in love with you
Wish me love a wishing well

To kiss and tell
A wishing well of butterfly tears
Wish me love a wishing well
To kiss and tell
A wishing well of crocodile cheers
Hugging like a monkey see

Monkey do
Right beside a riverboat gambler
Erotic images float through my head
So I wanna be
Your midnight rambler
Quickly
Quickly
The blood races through my veins
Quickly
Loudly
I wanna hear those sugar bells ring
Wish me love a wishing well

To kiss and tell
A wishing well of butterfly tears
Wish me love a wishing well
To kiss and tell
A wishing well of crocodile cheers



Era uma menininha, a canção já velha. Mas, ela ficou marcada para sempre. E nem a tatuagem que cobriu a anterior, fez esquecê-la do passado emergido pela melodia. A ducha norma lhe provou que ainda podia sonhar, quando quisesse.

5 de ago. de 2006

Atitude - Jiu-Jítsu - Técnica, Garra, Determinação e muito treino.

Suave era o hálito da cevada procurando meus lábios, que se recusava a se entregar às desmensuradas mordidas. Machucava mais meu coração do que a carne, esconder-nos de todos e até de nós mesmo. Em algum momento foi satisfatório, só não saberia dizer quando. Sinto saudade dos golpes que não aprendi.

Erotismo na Cidade

Se tudo fosse ordenado conforme o plano diretor do meu olfato, o azul esmaecido do céu de Abisralí teria sido tombado.

linkBlog.com.br - seus favoritos na web

Olha só, o que encontrei perdido nos meus favoritos. My Web do Yahoo! é muito mais eficiente.

27 de jul. de 2006

Minha primeira crônica esportiva

A perna encolhida prestando atenção na pontada, ora incomoda, enquanto os ouvidos percorriam milimetro por milimetro do campo adversário. Patrícia pensava nas oportunidades descartáveis de anteontem. Afastou o Dr. Nefasto (se um dia ele me ligar novamente, serei cortês) e se concentrou no tricolor que se divertia com o fato de ser mais pungente do que todo o time da gávea. Sua emoção se dissolvia num orgulho mal curado e gritar ao som dos coachos secos, comprovaria que havia feito a melhor escolha. A poça de suor no lençol a desconcentrou e decidiu-se por assistir depois os melhores momentos. Era seu momento. O melhor, desde então.

26 de jul. de 2006

Meteoritos incandescentes visita-nos com freqüência. Choro. A dócil menina tentar ser malvada. Patrícia, Patrícia, deixa de tolice. Bancos de couros não falam francês. Vai lá. Aceita. Aceita-se. Pode ser que dilarece a moral hipócrita dos jesuítas. Mas ao morrernos, estaremos vivos. Quem sabe, celebrar, ao som da sinfonia das alfaces alquebradas, o ouro branco fundido que escorre na bacia esmaltada. Coloque o tango, dance conosco. Esqueça o travesseiro de ontem. Os ácaros discretos jamais divulgariam a lanternagem padrão. Muito além do combinado, Princesinha de gelatinha. E o razoável deveria compor este teu vocabulário salubre. Ela coça as mãos. Delicaleza ensurdecedora. A mesma voz que seduziu o investigador, irrita os acionistas. Minoria articulada. Você não fez nada de errado, gritava-lhe a consciência. Então porque ele não me telefonou até agora? Brincando de espanar fósseis marinhos, descobriu o óbvio. Batatas.

25 de jul. de 2006

Manteve-se afastada por receio de vomitar no objeto de devoção. Era o sol de julho cumprindo seu ritual. Aquela luz alaranjada que lhe ofusca a retina. Forma, pureza e conteúdo. A profissional iniciante tomada pelo vício solicitava por retornos mais rápidos e intensos. Todas minhas lembranças me levam ao clube. O que fazia, eu, lá, sendo que destruo esperanças, quando deveria alimentá-las. A dor caminha sobre minha falsa pele poluída com a promesa de que à noite serei uma criança comportada e obediente. Permita que o engenheiro derrube o alicerce que restou de nós. Puxe a cadeira, sente-se à mesa. Conte-nos minuciosamente o fato. Como se fosse possível, carinho meu. Cinqüentas moedas de ouro e o vôo para Zurique cancelado. Os transeuntes riam. Gargalhadas esteriofónicas a ameaçar segredos translúcidos. Colméia deflagrada. Enxame em nossa direção. E ela parada. Patrícia? Nenhuma reação. As falésias lhe absorviam. Murmurou outra promesa. Impossível.

15 de jul. de 2006


Praha 18_02 027, originally uploaded by la page d'AL.



“O embaixador disse: -- É da polícia.
-- Se é da polícia, deveria ser mais discreto – observou Tereza. -- Para que serve um polícia secreta que não se esconde?
O embaixador, sentado na cama, juntara os pés sob o assento como aprendera no curso de ioga. Emoldurado na parede, Kennedy sorria e concedia a suas palavras uma espécie de consagração.
-- D. Tereza – disse com tom paternal --, os policiais têm diversas funções. A primeira é clássica. Escutam o que as pessoas falam e informam aos seus superiores. [grifo meu]
‘A segunda é uma função de intimidação. Mostram que nos têm à sua mercê e querem nos intimidar. Era o que seu careca pretendia.
‘A terceira função consiste em encenar situações que possam nos comprometer. [...] encontrar haxixe em nossos bolsos ou provar que violentamos uma menina de doze anos. Sempre acharão uma garota para servir como testemunha.’ "
Id., 1985, p. 165.

14 de jul. de 2006


Run doggie, run! , originally uploaded by Mutantcat


“Finalmente escolheu um dos cãezinhos, uma fêmea. [grifo meu] [...]”
— Será possível que o fato de chamar-se Karenin não vai afetar sua sexualidade?
-- É possível – disse Tomas -- que uma cadela que é sempre chamada pelos donos por um nome de cão acabe com tendências lésbicas”.
Id., 1985, p. 30.


A primeira vez que Karenin viu Mefisto, ficou desconcertada [grifo meu] e passou muito tempo ando em volta dele e o cheirando. Mas tornou-se amiga do porco, que preferia aos cachorros do lugar, sempre presos em suas casinholas, latindo sem razão o tempo todo. Karenin apreciava a originalidade do porco e prezava muito a amizade dele.
Id., 1985, p. 285.


“Uma antiga idéia retornava [à Tereza] : seu lar não era Tomas, mas Karenin. Quem marcaria as horas de seus dias quando o cão não estivesse mais lá? [grifo meu]”
Id., 1985, p. 295.

13 de jul. de 2006


Karlovy club, originally uploaded by kisluvkis.
A MÚSICA
“ Para Franz, é a arte que mais se aproxima da beleza dionisíaca concebida como êxtase. [...]
Para ele, a música é libertadora: ela o liberta da solidão e da clausura da poeira das bibliotecas e abre-lhe no corpo as portas por onde a alma pode sair para confraternizar-se.[...]
Sabina diz: -- É um círculo vicioso. As pessoas tornam-se surdas porque colocam a música cada vez mais alto. Mas, como se tornam surdas, não lhes resta mais nada senão aumentar o volume. [...]
[...] Em seguida, no limiar do sono, as idéias começaram a se embaralhar na cabeça de Franz. Lembrou-se da música barulhenta do restaurante e pensou: ‘O barulho tem uma vantagem. No meio dele não se ouvem as palavras.’ ”
Id., 1985, p. 98.

12 de jul. de 2006


Prague, originally uploaded by Lylla Lausanne.

“[...] Para Tereza, o livro era sinal de reconhecimento de uma fraternidade secreta. Contra o mundo de grosseria que a cercava, não tinha efetivamente senão uma arma: os livros que pedia emprestados na biblioteca municipal [grifo meu]; sobretudo romances: lia-os em quantidade, de Fielding a Thomas Mann. Eles não só lhe ofereciam a possibilidade de uma evação imaginária, arrancando-a de uma vida que não lhe trazia nenhuma satisfação, mas tinham também para ela um significado como objetos: gostava de passear na rua com um livro debaixo do braço. Eram para ela aquilo que uma elegante bengala era para um dândi no século passado. Eles a distinguiam dos outros.
(A comparação entre o livro e a bengala elegante do dândi não é inteiramente exata. A bengala era o toque que distinguia o dândi, mas o transformava num personagem moderno e na moda. O livro distinguia Tereza das outras moças, mas a transformava numa pessoa fora de moda. É claro que ela era ainda muito jovem para poder captar o que havia de ultrapassado na sua pessoa. Achava idiotas os adolescentes que passavam por ela com seus rádios barulhentos. Não percebiam que eram modernos.)”

Id., 1985, pp. 53-54.

“Uma jovem que em vez de ‘se educar’ tem de servir cerveja a bêbados e passar o domingo lavando a roupa suja de seus irmãos e irmãs, tem dentro de si uma imensa reserva de vitalidade, inconcebível para pessoas que freqüentam a universidade e bocejam diante dos livros. Tereza lera mais do que elas, sabia mais do que elas sobre a vida, mas não se dava conta disso. O que diferencia aquele que estudou do autodidata não é a extensão dos conhecimentos, mas os diferentes graus de vitalidade e confiança em si. [grifo meu]”
Id., 1985, p. 61.

11 de jul. de 2006


waiting at metro, originally uploaded by alba.
"Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz que a vida sempre pareça um esboço. No entanto, mesmo "esboço" não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo do esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.Tomas repete para si mesmo o provérbio alemão: einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Não poder viver senão uma vida é como não viver nunca. (grifo nosso)

In: KUNDERA, Milan. A Insustentável Leveza do Ser. Nova Fronteira. 1985. 14p.