29 de abr. de 2011

Escritores famosos e doença bipolar ( in Revista Mente e Cérebro, Março de 2008)



Bipolar mood, originally uploaded by BlueLù.
Doença mental e criatividade não são categorias mutuamente excludentes; ao contrário, frequentemente estão associadas. Afinal, criar significa escapar de padrões habituais, inovar, surpreender. Ora, essas características podem muito bem ser aplicadas à doença mental, a tal ponto que, para alguns artistas, são inseparáveis. O grande pintor norueguês Edvard Munch (autor do famoso O grito) era psicótico; admitia-o, mas temia que o tratamento pudesse reduzir ou suprimir seu potencial. A pergunta, pois, se impõe: existe um denominador comum entre criatividade e doença mental? A dúvida não é de hoje. Já havia sido formulada por Aristóteles, no famoso Problema XXX: “Por que razão todos os que foram homens de excepção no que concerne à filosofia, à poesia ou às artes são manifestamente melancólicos?”.Duas doenças têm sido associadas ao processo de criação artística: a esquizofrenia e a doença bipolar. No caso específico da literatura, contudo, a conexão parece se limitar aos bipolares. O processo de elaboração mental de esquizofrénicos, com frequência manifesto nas artes plásticas, como mostra a notável coleção de obras de pacientes reunida por Nise da Silveira, parece ser alheio ao da criação literária, já que implica uma dificuldade de interação com o mundo. Diferentemente do jornalismo, a essência da literatura não reside na comunicação, mas é preciso um mínimo de diálogo entre escritor e leitor. No caso do bipolar essa comunicação atende a uma necessidade. Como diz o psiquiatra inglês Anthony Storr em The dynamics of creation (A dinâmica da criação), os bipolares precisam de atenção e de aprovação, como os escritores.“Read me, do not let me die”(“Leia-me, não me deixe morrer”), implora a poeta americana Edna St.Vincent Milay (1892-1950). O reconhecimento de leitores, mesmo que poucos – Gustave Flaubert dizia que 100 leitores eram para ele mais que suficientes –, representa um reforço na auto-estima.
As fases da doença bipolar favoreceriam o processo de criação literária, uma vez que correspondem à alternância característica da actividade do escritor: um período de “recolhimento”, de elaboração de idéias, seguido de um período de produção (inspiração e transpiração). É claro que isso só funciona nos casos mais moderados, em que a mania não é acompanhada de manifestações agressivas, mas é, antes, aquilo que se conhece como hipomania, um estado no qual a pessoa se sente “energizada” e pode trabalhar com entusiasmo. Honoré de Balzac, para Storr, era um bipolar típico. Nas fases mais produtivas, o escritor jantava às 6 da tarde, dormia até a 1 da manhã, levantava, trabalhava durante toda a madrugada, parando para tomar café, descansar e receber visitas. Não é de admirar que tenha escrito a gigantesca obra que é a Comédia humana. Nos períodos depressivos, contudo, pensava em suicídio, fim de escritores como Virginia Woolf e Ernest Hemingway. A escritora inglesa teve uma vida atormentada por surtos depressivos que pareciam não afetar sua criatividade mas a levaram a entrar no rio Ouse com pedras nos bolsos de seu casacão para se afogar. Já Hemingway viveu numerosas aventuras pelo mundo, escreveu obras de enorme sucesso, mas tinha de lutar sempre contra a depressão, que também o levou à morte. E eles não foram os únicos. Entre os escritores diagnosticados – em geral depois de mortos – como bipolares estão Hans Christian Andersen, F. Scott Fitzgerald, Nicolai Gógol, Graham Greene, Henrik Ibsen, Joseph Conrad, Herman Melville, Mary Shelley e Robert L. Stevenson. A pergunta de Aristóteles não foi ainda plenamente respondida. Mas aceitar que doença mental e talento são compatíveis já é um grande progresso.



Addicted, originally uploaded by jmmooski.
A psiquiatra prescreveu 500 mg de epilenil e a recomendação da leitura do "Vermelho e Negro" do Stendhal. Pode? Pode sim. Tese de livre-docência sobre Virgínia Woolf. Se eu não for bipolar, só nos resta o TDAH, ou seja, voltamos ao diagnóstico inicial, e nesse caso, me recuso a tomar metilfenidato. A coach vai ter trabalho. Psicoterapia diária. Meu céu, nosso inferno.
--Será q estou adiante de um bipolar com gênio criativo. --a doutora sorriu como se estivesse admirando uma aliança de brilhante na vitrine da H. Stern.
--Sinceramente, espero que não.-- respondi. Sai do consultório incomodado.

27 de abr. de 2011

Eu me sabotava, enquanto os outros observavam atônitos a tragicomédia anunciada. No meu monólogo sem falas e figurino, apenas a iluminação tinha importância. Meu lado sombrio da alma reluzia, ouro, prata, safira, brilhantes, as lágrimas eram sinceras e os aplausos, névoa entorpecente. Até que um dia, o dia amanheceu. E não havia nada ali, além do cheiro forte de urina dos cães de rua.

20 de abr. de 2011

Tenho que atualizar isso aqui, mas escrever está ficando difícil. As palavras tem fugido de mim. Na mente, nenhum pensamento. Vou parar de tomar essa droga. E voltar a beber.

4 de abr. de 2011

Banho de gato

O tempo me devora. O rascunho permanecerá. Cada erro, o editor se encarregou de corrigir, suprimir, revisar. A solidão desliza pela face. O coração agradece. Gabi pede um afago. Olho e ignoro. Seu pai está escrevendo. A tese da minha vida. Ao estudar a propaganda, na qual o apartamento cuja a janela de onde se pode contemplar a skyline de Nova Iorque, confrontou-se com os fatos. Como consegui fazer isso da minha vida? Até o ajudante do piscineiro tem mais dentes na boca do que minha pessoa. Paro e leio o que poderia ser um primeiro parágrafo. Respiro fundo e continuo. Acho que ao relê-lo daqui há alguns anos não conseguirei identificar o autor. Digito catando as letras pelo teclado com medo de errar na escolha precisa das palavras. A doença do perfeccionismo alimentado pela descrença em si próprio. Gabi se levanta, foi dormir no sofá da sala, suponho. Nem ela suporta esse cheiro de tristeza que exala forte quando tomo uma decisão cujo o cumprimento ou não dependerá de quanto durar o desconforto no peito. Algo por dentro de mim se aperta, se torce e retorce, como se ainda houvesse vida dentro de mim. Ao contrário do último araticum, queimado por fora, mas com seiva por dentro; a seca se instalou aqui dentro em algum lugar e queima silenciosamente sem fazer fumaça. Preciso continuar, mesmo com as gotas de suor a escorrer pelo rosto, caindo pelo teclado. Nem quando me masturbo transpiro tanto assim. A pretensiosa idéia de começar finalmente a transformar minha história de vida em literatura me assusta, mais do que me tira o sono. Na cama deitado, vou ficar pensando na estrutura do enredo. Como vou reorganizar temporalmente os fato na narrativa? A infância vai ser contada no início ou em forma de reminiscência? Preciso me apoderar das técnicas literárias dadas. Analisá-las com o mínino de inteligência que os candidados ao Nobel costuma apresentar. Já eu que nunca ganhei nada (Ele respiraria fundo ao conseguir se livrar do cacófato, Jacquie (leia-se: jaqui), ao inserir o pronome eu entre a locução adverbial de... justificativa?? perderia o ritmo da frase, a sequencia da idéia e o leitor hipotético que iria interromper a leitura sem saber que o protagonista da peça chorou ao visualizar mentamente toda frase. A lembraça do pai ainda o abala emocionalmente. As lágrimas o atrapalham a visão, mais do que a tempestade o atrapalhara a ouvir a festa rave na rua de cima de onde ainda deve morar e se perderia para sempre a continuação da frase responsável por toda essa digressão. Subterfúgios, máscaras que lhe a ajudavam a respirar quando receio ser pedante lhe imobilizava os dedos. Reler o parágrafo não me fizera bem. A solução do cacófato mudara o sentido da frase anterior a ele. Está ficando maçante! ... nem mesmo um abraço do meu pai, pelo menos me permito sonhar com o improvável, com fatos além de mim ou... Espera! Funcinou. Estou satisfeito. Vou dormir. Acho que daqui há alguns ao encontrar esse texto perdido entre os milhares de documentos salvos de tão mal arquivados, conseguirei me reconhecer nele. E vou me orgulhar mais do que do brilho das orações bem concatenadas. Posso ouvir a gargalhada por saber que o ridículo da vida não se limita ao Tempo, somente ao Espaço. Esse toshiba não está nos ajudando.

12 de mar. de 2011

Farelo de pães sobre a cama. O resumo de um dia antes do alvorecer. Dilacero com os dentes o cordão que nos unia. É carnaval. Não precisamos mais usar máscaras.

26 de fev. de 2011

As Flores da Páscoa: primeiras notas. Fundamentação teórica


Pureza, originally uploaded by tonialon.

mutável e o imutável
movimento e permanência
materialidade e a essência formam o todo que pode ser também o nada

principio da dualidade: pai e filho, yin e yan

Dualidade todo inseparável

Todo e Nada: Espírito Santo (Cristianismo), Prana (Hinduísmo), Qi (Taoísmo)



Pai Filho Espírito Santo
óvulo, Espermatozóide, ovo
Pólen óvulo fruto
(fixo) (em movimento) (em movimento/fixo)

O que é literatura? Para que e para quem escrever?

diante de um objeto: que? 
                                 por que?( razão, motivo, causa) 
                                como? 
                                para que? (finalidade) 
                                para quem? 

ao escrever, vou descobrindo

Filosofia e literatura: O risco do solilóquio

" 'o primeiro ensinamento filosófico é perguntar: O que é o útil? Para que e para quem é o útil?' "

Idéias filosóficas em forma literária

" 'Tudo é dor/ e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor'. É simplesmente outro jeito de falar das 'quatro nobres verdades' de Buda. Ele ensinava que a dor é parte da experiência humana, e que ocorre porque nos apegamos ao aspecto passageiro das coisas, e não à sua essência, que é eterna. Se nos apegamos a algum bem material, por exemplo, estamos automaticamente nos condenando à dor, porque não há nada material que não seja destruído pelo tempo. Então quando esse bem não existir mais, sentiremos dor." [grifo nosso]

25 de fev. de 2011

Ainda na sessão de anteontem, Oscar 2011

--  Qual o seu maior sonho?
--  Humm mmm...
--  Não tenha vergonha. Pode ser o mais absurdo de todos.
-- ... hummm... ganhar o Oscar de Melhor Roteiro Original. Não é pela fama e ou pela glória, nem pelo dinheiro. Seria como ascender ao Monte Olimpo. Estar novamente junto com aqueles que eu amo, admiro e me espelho, junto daqueles que se sacrificam pela arte, mesmo que para isso tenham que fazer concessões...
-- E o que você tem feito para realizar seu sonho?
--  Tenho lido e escrito diariamente, não o tanto que eu gostaria, mas o tanto que posso. Tenho estudado... observado atentamente tudo que acontece ao meu redor... Busco me informar como o sistema funciona e como eu posso e devo me inserir nele...
Toc-toc-toc. Alguém interrompera a sessão e  minha fala, para entregar a chave da secretaria à psicóloga. Agora estamos realmente a sós, pensei. E isso não faz a mínima diferença.

Na sessão de anteontem

"O indivíduo é formado por várias dimensões: profissional,  intelectual, corporal, social, ... Como você tem cuidado de cada uma delas?"
"Ele se enxerga através do olhar do outro."

24 de fev. de 2011

Coração restrito, mente fumegante

Estive tão perto dele, mas não tive coragem de lhe cumprimentar. Foi melhor assim, eu poderia nunca mais sair da sala de projeção, acreditando mais na ficção do que na realidade

glee- what if god was One of Us

19 de fev. de 2011



Diary 1881, originally uploaded by reform.

"O diário de uma das minhas avós", interrompeu Martyn, fazendo uma viravolta com os braços cheios de livros. "Que velha senha excêntrica" ela deve ter sido! Eu mesmo nunca consegui manter um diário. Embora tentasse várias vezes, nunca consegui escrevi em nenhum além de 10 de fevereiro. “Mas aqui, olhe só”, e ele se debruçou sobre mim, apontando com o dedo, "aqui estão janeiro, fevereiro, março -- e assim por diante --doze meses ao todo.”
"O senhor então já o leu?, perguntei, esperando, ou melhor, desejando que ele dissesse não.
"Oh, já li sim", disse ele sem refletir, como se isso não passasse de uma desimportante empreitada. " Levei algum tempo para me acostumar com a letra, e é esquisita a ortografia da nossa velha donzela. Mas há coisas bem singulares aí. Aprendi com ela, desse ou daquele modo, muitas coisas sobre a terra.” E ele bateu na papelada de leve, meditabundo.
"O senhor conhece também a história dela?", perguntei.
"Joan Martyn", começou ele, como uma voz de ator em cena, "nasceu em 1495." Era filha de Giles Martyn. A única filha. Ele porém teve três filhos; nós sempre temos filhos homens. Ela estava com 25 anos quando escreveu este diário. Viveu aqui a vida toda -- nunca se casou. Na verdade morreu aos 30. Acho que a senhora poderia ir ver o túmulo dela, lá onde está junto com os outros.


Woolf, Vírginia. Contos Completos. Trad. Leonardo Fróes. CosacNaify.1ª Ed