30 de nov de 2005


Kennedy, originally uploaded by theblue.

Mamãezinha, a senhora sabe o quanto te odeio, mas não quero que saia por aí me chamando de ingrato. Obrigado por aquilo. Como? Não entendi. Obrigado, por ter me dito (o trocadilho chulo é proposital). A senhora poderia ter optado por interromper sua gravidez, não me oponho ao seu direito conquistado, contudo, pergunto-lhe sem esperança que me respondas, porque seguiu com a gestação, se no final ia me deixar sozinho. Foi para você ir se acostumando.

29 de nov de 2005

Por enquanto, não consigo mastigar, mas consigo escrever. Ler me distrai do pós-operatório. Medo. "Os Irmãos Karamazovi" ficou esquecido sobre a cama, emaranhado no edredon cor-de-rosa. Alessandra, Alesandra, Alessandra. Tenta relaxar, Marcinho, não cai uma agulha, sem que Deus saiba. Podia detalhar o sexo, ansiolítico natural, mas prefiro falar dos cirurgiões, da assistente. O desconto funciona mesmo? Funciona, sim. Consegui pensar rápido antes da anestesia. Cinco por cento. Já é alguma coisa. Imagine se fosse um aumento de cinco por cento na taxa selic? Eles riram. Me senti do povo. Deixei a sala de cirurgia sem esclarecer minhas dúvidas. Não era capaz nem de responder as perguntas. Até ali, tranqüilo. Vamos embora. Tchau, Senhor Doutor, Senhora Doutora e Senhora Assistente. Obrigado. Fiquem com Deus. Ainda não chove. É uma bênção. Tenho me agarrado a Ele, prometido fazer a lição sem queixas ou reclamações. Tem que fazer, não tem? Então faça. Não posso mais protelar. Pude ouvir o osso sendo raspado. A Assistente me fazendo cócegas com suas histórias de identidade dobrada dentro do bolso da calça. Senhora, cuidado! Eu sou escritor, tenho um blog. Suas falas podem virar literatura nas minhas mãos. (Ih! começou a pretensão.) Todos rindo e eu sentindo um alívio. Se estão rindo, é porque não está havendo complicações. E se eles forem sádicos? Papai do céu, nos havíamos conversado que nunca mais nos envolveríamos com esses tipos, por mais ricos, belos e charmosos que fossem. E pensar que por causa de um perverso, estava sendo aberto e costurado. Espero a Alessandra me ligar. Esqueci meu livro em cima da cama. Eu sei, eu sei. À noite, eu te levo. E quem me faria companhia, enquando chove? Beatriz. Sob efeito do Paraíso que faltava. Sim. O Paraíso de Dante. Anestésico natural. Tanto que acabei de escapar de um assalto. A cidade torna-se fisicamente violenta, mas do que a Ética permite.

28 de nov de 2005

Fedor Dostoievski

Estou apaixonado. Finalmente. No começo me aborrecia, agora não consigo largá-lo. Presinto a dor do vazio que me desorientará ao ler a última frase, assim como em "Cem Anos de Solidão". Para mim essa seria uma das diferenças entre um clássico universal e um best-seller. Este, ao terminarmos a leitura, corremos atrás de outro, tal o adicto a procura do entorpecente. Aquele, nos mata para qualquer outro pensamento que não seja por quê?

Book3, originally uploaded by Erunion.

Acho que foi a Marfa Ignatievna. Desconfio também do Aliócha.

26 de nov de 2005

Estamos todos bem

A morte é tão feia, tão feia, que acaba se tornando simpática. Rezo para que ela seja boa comigo e com quem quero bem, mas quase sempre ela é perversa. Nos acorda de noite, tocando o interfone. É o jeito. Entra, senta-se. Quer um cafezinho? Uma água? Aceito um aperitivo. Então, ela nos distrai, nos faz rir (daí o humor negro), elogia nosso cabelo e, finalmente, nos mata. Sim. Mata-nos. Porque a estima por quem falecera revestia o ventrículo direito do meu coração. Falta de ar. Deixa de frescura e vá ligar para funerária, meu papel termina aqui. Nossos sentimentos. Me dá um abraço e vai se embora.

Se me fosse permitido, escolheria morrer por uma efermidade, não por acidente. Eu sofreria muito é verdade(tem morfina, pra quê?), incomodaria muito mais (quando se tem herança, não é incômodo nenhum), em compensação, ninguém levaria um susto (susto mata, sabiam?), ao contrário, seria um alívio. Foi melhor assim. Ele foi descansar (nós também). Ao observar a chuva a fustigar o pára-brisa, imaginei-me eu a enterrar meu pai. Foi difícil conter o choro, como está sendo agora. Daria um interessante capítulo de introdução. Depois. Da morte, só consigo rir.

25 de nov de 2005

Em suspensão até segunda ordem


180 words/hour, originally uploaded by Emaratioryx.

Não esperava ler "Harry Potter and the Half-Blood Prince" antes do carnaval. A fila andou rápido. Será que lá na Inglaterra, assim como no Brasil, a editora doa um volume para as bibliotecas? Creio que não. Do contrário, teria um carimbão na falsa folha de rosto. Então, o diretor da Cultura Inglesa (filial Brasília) aceitou o argumento das bibliotecárias que dessa vez, mais do nunca, transcorreriam longos angustiantes quinze dias para os pottermaníacos: Já chegou? Ainda, não. Ai, Meu Deus! Levar quinze dias para ler o Harry Potter! Só pode ser aluno do Intermediário. O nervosismo da garota recendeu no frio da biblioteca. Hermione Granger. Eu fui mais discreto: Oi, Kathy, tudo bom? Teria como eu dar uma olhadinha na lista de espera? Claro, meu anjo. Você não vai acreditar? Ela virou o monitor para que eu mesmo visse. Você é o próximo! Li meio incrédulo meu nome na tela do computador. Nunca tive tanta dúvida que aquele nome fosse o meu. Nem na lista dos aprovados do vestibular da UnB, fui tomado por tanto cepticismo. Tantos homônimos espalhados pelo país, deve ser outro... Se eu te contar, leitor, que ao sair do igloo-da-Kathy , abri a porta para a moça que ia devolver o livro, tu acreditas? Elegante morena de olhos azuis, magrela de tão alta, cachecol (ou echarpe?) vermelho enrolado no pescoço, perdida numa mini saia jeans. Fleur Delacour. Ela se dirigiu a uma cabine multimídia e passou toda a tarde aperfeiçoando sua pronúncia. Foi melhor assim, o desencontro me permitiu testemunhar um crime. Sou péssimo fisionomista, Doutor.

24 de nov de 2005

A mão-de-gato dos blogs

Português oral castiço me irrita, prinpalmente quando o falante não se importa com a textura das cores. Imaginem a importância das cores para um pintor. Pois é! Eu sou assim: cor e luz, ritmo e melodia.
Pessoas restritas só servem para me certificar que há muita gente mal intencionadas neste país, ou ingênuas.

Fontes não identificadas esquentam noticiário e iludem leitor

"(...) Esse recurso da denominação vaga de fontes com informações cruciais não é novo na imprensa brasileira. (...) No período da ditadura, era comum encontrar "segundo fontes militares" nas reportagens para maquiar falhas na apuração, plantações de meias-verdades ou meias-mentiras e até mesmo opiniões pessoais dos jornalistas. (...) Está se tornando monótono e motivo para não acreditar integralmente no que se lê."

A Lebre e o Leão ontem à noite na fila do cinema.


Ride the tiger, originally uploaded by RandomMoth.

Sempre depois do coito tomávamos vermífugo. Ela se achava a esclarecida. A tia-madrinha explicava minusiosamente detalhes da genitália feminina, da masculina, como se limpar, o ciclo mestrual, como se desvencilhar de canalhas que "só querem nos ver sofrer." (Ela tinha experiência.)

Eu, por minha vez, procurava os livros, os quais apenas folheava. Não entendia absolutamente nada. Agora percebo que era minha ansiedade não me permitia me concentrar, portanto compreender o que se lia. Não sofria de uma idiotice pressumida. De uma coisa, eu sabia: camisinha era um método contraceptivo eficaz, desde que associada com outros métodos e não podia se confiar na tabelinha.

Todo mês por volta do dia dezessete, eu a perguntava: Laurinha, desceu? Ainda não, mas não se preocupa. Minha tia me explicou que meu ciclo ainda é irregular. É normal atrassar. Eu que comesse minhas unhas até o sabugo. Você, perguntou o que seria aquela dor que eu sinto. Ah! me esqueci. Deve ser doença venéria...

Uma manchinha arroxeada na glande me levou à visitar o consultório de uma renomada infectologista aqui na capital, dez anos mais tarde. Vai ali para aquele canto. Pode baixar as calças. A cueca. Agora expõem para fora a glande. Minhas pernas tremiam. Eu precisava sentar. Com a mini laterna focando a região pélvica, diagnosticou a médica: é um mancha de nascença. Pode vestir a roupa e lavar as mãos naquela pia. Eu queria ter lhe fazer várias perguntas, mas estava com vergonha. Hoje, eu sei que dor era aquela que eu sentia. Mas por que, então, a Laurinha nunca engravidou?

P.S.: Na realidade, ela estava mais para uma tigreza. Unhas grandes, coloridas de tão estravagantes que me marcavam as costas. Eu gostava. Nem sempre. Tenho orgulho das minhas cicatrizes e exibir minhas costas ossudas. Isso aqui foi uma louca. Explico, fingindo indiferença. Me restava, então, ser um lebracho. Admiro-me a misericórdia dela, em nunca ter me devorado a tenra carne que insistia em dizer sim, quando eu queria dizer não.

23 de nov de 2005

Vou ter que fazer uma intervenção, não posso protelar mais; dissera-me o cirurgião. Poderíamos marcar domingo pela manhã. Era uma gentileza que ele estava fazendo a um amigo. Domingo não posso, tenho compromisso. O dia todo? Todo o dia, vou ser fiscal num concurso. Não pode faltar? Até poderia, mas eu precisava do dinheiro. Se fosse urgente mesmo, ele me operaria imediatamente. Sábado à noite? Que favor era esse que aquele estranho devia ao nosso amigo em comum. Ele consultou mais uma vez agenda, contraiu os lábios. Vamos fazer o seguinte: vou atender essa senhora... não. Vai para casa. Vou te atender terça-feira.

Trechos dostoievianos: meus preferidos


DSC00894, originally uploaded by Erbi.

Interrompemos a leitura quando atiraram o pão traiçoeiro ao famélico cão. Em Moscou deveria ser diferente.

22 de nov de 2005

Oncídios do Jardim Botânico


orchids, originally uploaded by ana_maria_.

Não há nada melhor do que estar desempregado. Até quando? Até dia vinte nove do corrente. Vou entrar na cápsula de vento. Me sentirei um pouco abatido, mas sairei mais forte. A verdade alimenta a disciplina. Hoje finalmente coloco as mãos no tratado para sempre. Quem sabe não publique uma fotos. (Exibido!)

21 de nov de 2005

O que eu gostaria de ganhar de Natal?

Leia no meu diário de navegação que você vai saber, respondi ao Comte., ao ser ingadado o que gostaria de ganhar de Natal. Perdão. Não entendi. Um livro qualquer, simplifiquei. Eu sabia que estava correndo um risco. Mas ele não poderia ser tão burro, a ponto de me presentear com um Paulo Coelho. Por que não? Porque estes estão disponíveis em qualquer biblioteca perto de casa. Ah! E Schopenhauer não estaria? Acontece que estes eu sinto necessidade de grifar, riscar, anotar nas margens sinais que perderão o sentido ao longo da semana. O que impede de fazer anotações no best-seller? Com o trivial também se aprende. Não o que eu preciso saber para convencer ao Comte me ajudar a escolher o enxoval.
Quanto inveja me escorria do pênis ao presenciar o criolo usando fucking como se fossem vírgula. Será que consigo? Outro giro pelo salão? Esquece. Hoje serei o homem mais feliz do mundo ao colocar as mãos no verbo convencer. Quero esbofetar o filha-da-puta que me abriu as asas durante uma madrugada de barba-de-timão. Mau-humorado, metido a rico. Um dia, aqueles dentes podres terminarão de cair e eu terei o prazer de oferece-lhe uma maçã-do-amor. Ofereço por educação e por educação deve-se recusar. Ele provará do sarcasmo que me retalhava madrugadas de sábado. Me expunham ao ridículo, me menosprezavam. Vingo-me com estrelas, clívias e castanha-do-brasil, versos que solapam lágrimas críveis. Vou-me embora, levando a ampuleta, o cuco, a cadeira-de-rodas e a santa, muletas escondidas pelo quarteirão. A menina se comprometera a bordar o enxoval. Aproveitando o espaço e o tempo que acabou: também sinto saudade sua, amado leitor. Saudade de ler o que meus amigos andam produzindo.

19 de nov de 2005

Bienvenue sur le site officiel de Charles Aznavour

As madeleines estavam crocantes. Pedi a tropa que não contasse nada a ninguém ao meu "patrão". Nem para ser eu. Eles não presenciaram o enólogo me explicando a diferença do r pronunciado em Paris do pronunciado em Nice. Em Paris é debaixo do queixo -- não precisava me tocar, já havia entendido o que ele queria. -- Na minha região é mais grutural. Porque eu fui dizer que entendia perfeitamente duas crianças conversando em francês. Admirado, surpreso, pronunciou fonemas entuberáceos. Ele inventa palavras em português. Arcaismo gauliscista. E a boca salivando começou a falar, a falar, a falar uma língua, que por milagre eu ainda compreendia. Quatro anos de terror e humilhação. Valeu a pena? Aprendi a aprender. A quanto tempo eu não conversava em francês? Meu sotaque é horrível, disse-lhe. "En fogeant que l'on devient forgeron." Tu parles plus vite, respondi-lhe. Foi a única frase que me lembrei. É malhando que se torna ferreiro, traduziu. Parles! E o medo dele me convidar para sair. Jantar. Ele se entusiasmou. Os seus olhos faiscavam esmeraldas. Fingi que não entendi a cantada. Ele riu. Poderemos ser amigos. Nada mais. Não estou disposto em saber se este francês conseguirá me atravessar do Oiapoque ao Chuí (não que percurso seja interessante.) As fronteiras continuam bem vigiadas, eu bem sei. Uma trepada não vale o risco. E quando o diplomata voltar à loja (Que seja breve, meu Santo Antônio) estaremos ouvindo Charles Aznavour, Edith Piaf e porque não, Manu Chao.

18 de nov de 2005

Festa do Beaujolais Nouveau termina em violência na França

Tenho que ligar para o Fontenelle afim de formalizar minha situação perante o partido, já que sou militante de fato. O que significa (se eu conseguir falar com ele) que a noite será de vinho tinto demi-sec escorrendo por polegares soltos. (Que inveja!). Por que tem que se acabar tudo em chuva de leite, quando poderia ser um simples caroço de azeitona? Porque não consigo dizer não, quando mãos passeiam no girassol do meu bíceps.

Escondido debaixo da cama

Enquanto os proxenetas se perdem em compras, reputação de cigarra me penetra a pele. Um amigo me ligara para saber se o papel moeda do nosso diploma voaria ao ser queimado. Não sei. Trata-se de uma outorga. Que as traças se refestelam no pó de leite. Eita! O Chefão acaba de assumir compromissos para os próximos anos. Fone de ouvido é ouro. O que o Fernando queria saber é se eu continuava com "aquela fudelância" (expressão dele). Tremor de pálpebras. Ele acreditava nas minhas histórias, fruto de uma etnografia capitaneada que não tive coragem de apresentar aos meus colegas de classe. Dipsomaníacos. Talvez agora o Fernando tivesse interessado em desbravar as latinhas e os latões. Procurava por dicas, sugestões. Não vale a pena. Nem por isso vamos usar cintos-de-castidades. Cintos só para prender o pescoço em latões de cobre. A violência se configura entre meus desejos. Impressão, tola. Depois dizem que o arroz será servido a todos. Jesus! O Chefão é muito irônico: "se vocês leram as reportagens..." Vou parar por aqui. Não consigo nadar no linha imaginária do equador, antes preciso dizer que nosso chefe se retratou. Amanhã trago detalhes. Para não me perder na curva do comum.

17 de nov de 2005

Dentro do Toyota

Ao lusco-fusco, da Praça dos Três Poderes, via-se que as luzes do gabinete ainda não haviam sido acessas. O arranjo de rosas coral não poderia ter servido de desculpa suficiente para uma intimação. Lá estávamos. O polícia me flagrara antes da última colherada. E as novidade, Dr. Márcio? Nenhuma, Dentinho, nenhuma. Fiquei em dúvidas se lhe confiara meu novo imbróglio. (Ele poderia me julgar um promíscuo.) Dentido, você se lembra daquela história do estripador do cerrado? O conselheiro?! Claro! Haverá uma performace no assoalho do lago depois de amanhã. Queria saber quantos meses o dentinho levaria para se ajoelhar diante o estante de vendas do cacos adocicados da fábrica de refino de telúrio. Corta o cabelo. Faz a barba. Depois a gente conversa sobre quantos cães serão necessários para curar nossas nuvens oscilatórias. Vocês se amaram? Só permiti que facas de plásticos me ensinassem a capturar borboletas azuis. Massa podre com Beaujolais. Ninguém nos observava, com exceção as esculturas nigerianas. Antílopes machos mordiscando-se. Aproximei-me da orelha esquerda do Dentido, sua boina ainda suja de sangue seco. Acho que até o final do ano me caso. Casar-se para sair de casa, assim como as moçoilas faziam? Não convém. Ele me ama. Para o conselheiro, você não passa de um pedaço de pé-de-moleque moído. Refiro-me aos óculos de São Francisco de Assis. Ele vai me vencer todas as noites de sol sem ninguém para me explicar como se cozinha beringela. Não obstantes as curvas soltas, examinei minuciosamente o nó, sinal que os óculos profanos do Santo agiria sobre minhas fantasias. Dentinho praguejou, chamou-me de fraco e me aconselhou a não comentar com o diplomata meus planos. Este poderia pensar que eu queria vida fácil ou que estava chamando-lhe para o rola. Dificilmente, acredito em laranjas, principalmente quando muito azedas. Em retribuição a minha educação, provei da ironia do conselheiro: Dr. Márcio.

Próximo capítulo , oxímoro domingo: o coronel a me esmagar a mão.

São Google, olhai por nós plagiadores.

Feliz por observar o mar calvo. Me coçando por causa da chuva de pires. Simultaneamente, equilibrado na risca do rejunte.

Pixies: Discografia completa

A poesia declamada me escorria pelos pés. Os versos ainda ondulam na superfície do lago, posso tocá-los. Mas prefiro ser empalado pelos agentes da polícia federal no horário de almoço. Se não fosse por eles, eu ainda estaria passando fome. Me parece que estamos voltando ao cotidiano, atravessando o céu numa caça emprestado. Ei, piloto! O que é isso aqui na minha orelha? (Assim me parece mais fácil rascunhar.) Vamos tentar construir uma ponte na impossibilidade dos desfavorecidos. Foste à missa do arcebispo? Não, apenas escrevi um conto como se fosse ele um religioso russo. Ui! Deixa-me ler. Ih! Já limpei a lixeira. Fez bem. Não faça mais isso, me dissera o embaixador. Eu também queria lhe dizer: não faça mais isso, nem se fosse durante um sonho onde meu primo se relevasse um poeta de quizomba. Se houve um sentindo na vida, ele se escondeu de mim, talvez por isso não sou mais moderador. Pixies se espalharam por toda minha infância de leite-de-soja em pó. Não sinto saudade dos flatos que era obrigado a reter. Foi-se o incomodo, restou a microfonia. E a fúria, que não é uterina, mas sente-se capaz de criar. Agora chega, ultrapassei por demais a margem esquerda da folha de papel almaço.

16 de nov de 2005

Nicolás Bratosevich

Sempre da direita para esquerda. De cima para baixo. Daqui a pouco passa. A enxurrada limpará nossas pélvis. Ainda está ouro? Fundição à fórceps.

Ricardo Piglia

Vencemos contra-argumentando com as idéias do proxeneta. Estrelas próximas saltitaram sobre o mar. Ondas no ermo caminho. Resta-me enxugar com a manga da camisa azul-aço a lágrima pelo perdido sopro.

Fundacion Mempo Giardinelli

Brilhos de poeira no tortuoso caule da brisa molhada. Prazer.

8 de nov de 2005

Espane os móveis


bsb, originally uploaded by Miss Favs.

"... tudo aquilo que me disseste sábado, por telefone, ainda desperta no meu estômago desejos fédidos. Eu te amo, Bobão. Não é por causa do cavanhaque, aliás, desenho perfeito, que vou me desfazer do molho de chaves suíças. A dor se transformou num leve incomodo, nada próximo do sorriso braquiproctofilista do papai Ursinaldo Diego Pórfiro. De novo, não, por favor. Não sou mais aquele efebo. Quero morrer puro como rastilhos de sal que se secam sobre minhas maçãs, as quais você nunca mais beijou, em público, na fila de cinema, para as outras bichas morrerem de inveja. Elas que morram daquela outra coisa lá. (Sim, gosto de lhe ostentar feito troféu.) Nós dois seremos sempre parceiros das confidências ouvidas atrás da porta. E nem que as folhas caíssem quando você soprasse no meu ouvido fantasias proibidas até para nós que temos a mente arregaçada de tão liberal, nem assim, eu poderia fazer aquela diferença milimétrica. Serve-me, mais chocolate, a imagem do jeans se rasgando me deixou carente. Seus beijos não suprem mais as comportas da minha Itiquira. Cachoeira, amor. Nem me lembro da diferença entre gotas tingindo minhas costas (nuas) e latinhas de cerveja nos esperando para brindar nosso único aniversário que deveria ser comemorado. (Estou simplicando para você.) Sinto falta das suas amigas. Apenas das falas, não das ações. Sou aquele ciumento que não se importa em iniciar um interrogatório, as duas horas da manhã. Tudo nosso, aconteceu de madrugada: as velas, o carro, a mãe, seu padastro, seu filho, por que agora seria diferente? Tenho receio da cena da embriaguez volte repaginada. Só para não usar uma palavra. Vou dar uma fumada e volto em seguida para dizer-lhe que estou aos poucos levando meus livros para aquilo que você teima em chamar de forte e eu teimo em chamar de esconderijo. Lar, um dia, talvez, só Deus sabe. Que me importa a chegada da chuva. Os pintores não virão mais."