17 de jun de 2012

O BOTO ENGENHEIRO

Ele a raptou para que pudessem assistir ao documentário tranqüilamente. Pode parecer mania, mas para eles não havia nada melhor do que sair do cinema arrastados pela inércia dos espectadores impacientes que se levantam abruptamente antes dos créditos terminarem.
Logo após o filme, ainda atordoados e inebriados, levou-a para jantar. O algoz pediu um pato no tucupi, belensíssimo por sinal. Entre uma garfada e outra, ela lhe disse que havia na mesa ao lado um sujeito que a incomodava de tanto olhá-la. Cafajestamente, perguntou-lhe se ela achava dele. Ela sorrindo lhe repondeu que era o número dela. Ele, possesso, olhou imediatamente, para trás. No reflexo, o sujeito abaixou a cabeça. Ele lhe perguntou o que iriam fazer. Sem hesitar, ela sugeriu que o convidasse para experimentar do pato.
Discretamente, como tudo naquele lugar, acenou com os olhos para o garçom de sempre que prontamente se dispôs. Ofereceram uma garrafa de vinho junto com um cartão de visita. O estranho o leu atenciosamente. Pediu a conta e aproximou-se da mesa deles na intenção de agradecer. Apresentaram-se. Convidaram-no para experimentar o tal do pato. Ele não resistiu, nem queria.
Papo animado o dele, empresário da área de mergulho submarino que ainda estranhava o tempo da cidade: dias quentes para noites frias. Talvez não sobreviveria. Num primeiro momento, eles não compreenderam porque o estranho veio trabalhar ali, já que estávamos a 1.200m acima do mar. O estranho com um sorriso orgulhoso olhou para o lago explicando que uma monumental ponte iria interligar as margens. A atribuição dele seria analisar as condições físicas do relevo numa profundidade média de 14 m. Segundo ele arcos seriam imersos a uma profundidade de 30 m solo adentro. Como os engenheiros fariam isso, cabia a ele solucionar.
A expressão do casal era de que aquilo era um delírio sem fundamento. Ele olhou para lago apontando de onde até onde iria a tal ponte. Rabiscou um croqui do projeto e como uma criança, balbuciava palavras que só os peões entenderiam. Ela, inquieta, percebendo que lhes estavam escapando uma oportunidade ímpar, interrompeu-o dizendo-lhe, a queima-roupa, que se impressionara com sua altura, sua largura, enfim com seu porte. Sorrindo de vergonha, ele lhes confessou que se sentia como um paquiderme.
De repente, aqueles olhos castanhos desanuviados esbravejava contra os fabricantes de portais, calçados, roupas, móveis. O mundo nunca lhe fora amistoso. Ele sofria por não pertencer ao padrão. Havia lugares que ele deixara de entrar barrado pelo constrangimento. Para compensar, invadia sem permissão lugares inóspitos. Ele sorriu. E sorrindo eles perceberam a deixa. Convencido do que ele queria, o namorado antes ciumento lhes disse que formavam um belo casal. O Empressário-Mergulhador, surpreso, lhes perguntou se não eram casados. Cúmplices, negaram qualquer envolvimento íntimo-emocional.
Imediatamente, aparentando irritação, ele se ajeitou na cadeira, pigarreou. Com uma expressão de quem parecia não ter gostado da piada, sugeriu que pedissem a conta, queria levá-los para um passeio exclusivo a águas profundas. Ingênuo, achava que seria capaz de suportar a pressão. Incautos seguiram a experiência suja e prazerosa.
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N.E.: Escrito, originalmente, durante um sufocante sábado de nuvens grandes. 16/11/2002 ou 08/02/2003

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