23 de out de 2007

Ode ao blogue extinto

Há quanto tempo não navegava indiscriminadamente pela Blogosfera. (Escrevia em pé, se recusando a se sentar no assento morno deixado pelo desafeto. A pérola da ostra, riscada em cinco lugares. Ele bufava. Raiva a lhe roer as víceras.) Nessas últimas viagens, tenho descoberto escritores que não deixam nada a desejar. Gente estudiosa. Tubarões num mar sem recifes. Só sangue B, como se diria no jargão dos caveirados, tão na moda objeitos de fetiche. Nessas horas penso em Manuel Bandeira e em seu primeiro livro de poesias publicado. Penso em Fernando Pessoa e no seu "Mensagem". Penso em Clarice (ah! Clarice me perdôe.) e na sua carta ao um outro Fernando, este o Sabino, pedindo-lhe uma colocação. A vida se renova e tudo floresce. As anêmonas. Quem vai vencer a barreira da editoração? Quem a superou, venceu a distribuição? Às vezes me pego a falar bobagens, como se soubesse de que parte do universo chegam as últimas fotos do Hubble. A parabólica que fui, o telescópio que serei. Sorrio para cada raio a rasgar o céu nublado. É a natureza a me fotografar durante meu hobby: fracassar diante anônimos transeuntes. A sintaxe dos profetas. Os lamentos de um carola. Sinto puta-inveja da clareza e objetividade (e correção!) com as quais esses blogueiros-poetas-escritores narram e descrevem e dissertam suas idéias. Seus personagens risíveis, suas dicotomias implacáveis. Talvez falte-me orientação. Onde guardei a bússula? Me aponte o norte magnético, quero fazer dele, geográfico. Um GPS esquecido no porta-luvas do carro de um paquera inominável. Em banheiras de motel, pés-de-pato importados. Ele era um escritor a procura de uma fonte de renda. Agora que a encontrou (em detrimento da sua suposta literatura, mas uma não exclue a outra, mais que a complementa), num desses palácios luxuosos da capital, compra flores e não manda mais entregar. Ele tem medo. Ele tem medo de mim. Ele tem medo do que vou fazer com aquelas fotos (apaguei-as). Ele tem medo do que vou fazer com aquelas suas despendiosas cartas de amor (joguei-as no vaso sanitário, conforme o costume) escritas em memória de uma relação que nunca existiu de fato. De mão dadas, amor. Só o stabilishment para ele agora importa. Dormiu abraçado com uma tal senhora Glória e se deslumbrou. Sinto pena. E é de mim mesmo, por não ter tido a coragem de fazer i-gual-zi-nho.

3 comentários:

  1. queria ser uma editorada pra saber alguma resposta. sou inveja. não do livro publicado e bem distribuido. mas de clarice e bandeira e drummond e fernandos e todos os talentos reconhecidos e os que ainda o serão. de repente, me permita: inveja tb de quem está acima do stabilishment - não quero dormir com nenhuma senhora e não há masculino para a glória!
    então, que viva o blogue - ou reviva o extinto. importante é ter vc fazendo bem ao meu ego e eu invejando seu talento!
    né não?
    beijo

    ResponderExcluir
  2. Belo texto. Sobre Fernando e Clarice, era linda a amizade dos dois, como era igualmente linda a amizade entre Clarice e Érico, pai de Luís Fernando. Aliás, Érico e Mafalda eram padrinhos dos filhos de Clarice. Mas Fernando, além de amigo, era consultor, dava palpite nos originais dela. Certa vez, em uma entrevista, ela perguntou a ele (que queria ser santo e não conseguia): qual o seu santo preferido? A resposta foi algo mais ou menos assim: Por nenhum. Acho os santos uns chatos, me fazem sentir inveja e me torno mais pecador.

    Gd abraço.

    ResponderExcluir
  3. Loba, vamos nos divertir, então. Beijos.

    Guto, obrigados pelas informações. Não só acrescenta, como também enobrece. Abçs.

    ResponderExcluir