15 de fev de 2011


Pati de llums, originally uploaded by jc espanol.

Onde está escrito que viver é fácil? Lembre das aulas de história antiga. Volte a estudar história contemporânea. O sofrimento permeia as civilizações. Nem mesmo os imperadores protegidos nos seus palácios adornados de ouro e jóias deixavam de sofrer, de fome ou de amor. É inevitável. O sentido da vida consiste em sobreviver às dificuldades, me desculpe Ricardo Reis, na pessoa de José Saramago, que me ensinou... Não! A frase saiu da boca do mensageiro do hotel: “quanto ruim, nunca pior”. Com sua permissão, meritíssimo, eu chego à conclusão que a situação pode sim piorar. Então, abandono esse ranço de pessimismo que me acompanha desde que tomei conhecimento da sua obra, para me voltar ao sol do otimismo, bem clichê: “dias melhores virão”. Não importa se eu não estarei aqui para presenciá-los. Uns semeiam, outros colhem. Quando se está morrendo, cabe a gente amparar os amigos, acalmar os parentes, sorri para os médicos, estender o braço à enfermeira para que ela aplique a injeção com a medicação. Pegar o livro da cabeceira e continuar a lê-lo. Se a morte é tabu (suspenso somente em condições extremas) tanto no meio hospitalar, quanto fora, não vamos convidá-la para jogar truco conosco. Bergman é maluco em nos mostrar que poderíamos desafiar a morte numa partida de xadrez. O sueco entende da vida e nos ensina, quando tiveres que enfrentá-la use suas armas, seu talento, seu dom. Deus na sua crueldade incomensurável, quando nossa futura mãe entra em trabalho de parto, toma de volta nossas asas, era apenas uma outorga, e nos joga no mundo. Se eu chorei não foi por causa da palmadinha, era choro de desespero em saber que não mais cantaria para o Senhor. Em contrapartida, Ele nos presenteia com uma habilidade. Este “vai ser gauche na vida”; aquele vai ser todo ruim. Caberá a mim e a ninguém mais descobri-la ou desenvolvê-la. Em momento nenhum, alguém diz que será fácil. Revelar ao mundo nossas aptidões confunde-se com o próprio viver e cultivá-las, apesar das rasteiras e voadoras, socos e pontapés, demonstra nossa capacidade de sobrevivência.

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